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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

MINISSÉRIES: "Ventos da guerra" (The winds of war, 1982) e "Lembranças de guerra" (War and remembrance, 1988)


Elenco de "Ventos da guerra", que foi trocado em sua maior parte na sequência, "Lembranças de guerra"


A primeira vez que eu tive alguma visão dessa adaptação da volumosa obra de Herman Wouk foi quando, anos atrás, assisti a alguns trechos da minissérie "War and remembrance" (Lembranças de guerra") no documentário "Imaginary witness: Hollywood and the Holocaust", exibido pela HBO, cujo tema era o tratamento dado à perseguição e extermínio do povo judeu europeu pelo nazismo na produção cinematográfica após o final da Segunda Guerra Mundial. Eram cenas fortes pelo seu realismo: judeus (homens, mulheres e crianças) sendo fuzilados na ravina de Babi Yar, em Kiev, e o desespero de vários outros enquanto morriam dentro de uma câmara de gás em Auschwitz. Bastou isso para ter interesse em descobrir a obra completa.

Depois de muita pesquisa, consegui descobrir onde baixar a minissérie, tanto aquela dos trechos exibidos no documentário quanto sua predecessora, "Ventos da guerra" ("The winds of war"), as duas produzidas e dirigidas por Dan Curtis, com roteiro do próprio Herman Wouk. Não foi uma tarefa nada fácil. Ambas são produções hoje raras, indisponíveis em DVD /BD e streaming, encontradas apenas em sites de compra e venda. Até mesmo os livros dos quais foram adaptados só são encontrados em sebos (foi assim que os consegui).

"Ventos da guerra", exibido no Brasil pela rede Globo como "Sangue, suor e lágrimas", creio que em 1983 ou 1984, trazia um elenco muito bom, com atores veteranos e outros que estavam despontando para o sucesso naqueles anos: Robert Mitchum, Ali McGraw, Topol, Jan-Michael Vincent, Polly Bergen, Victoria Tennant e tantos outros. Entretanto, "Lembranças de guerra", a segunda parte da saga das famílias Henry e Jastrow, produzida cinco anos depois, trouxe mudanças em parte do elenco, o que, para quem só veio assistir tudo após quase três décadas da exibição original, causou um pouco de estranheza, uma vez que eu já havia me acostumado com os intérpretes anteriores. Mas são coisas da indústria do entretenimento, portanto, aceitáveis ainda que com restrições (nada a ver com o talento do elenco substituto, irrepreensível).
Jan-Michael Vincent como Byron Henry e Ali McGraw como Natalie Jastrow em "Ventos da guerra"

A minissérie toda é focada na trajetória de personagens de duas famílias do início ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os Henry (Victor, sua esposa Rhoda e seus filhos Byron, Madeline e Warren) são ligados à Marinha norte americana; os Jastrow (o escritor Aaron, sua sobrinha Natalie), são judeus que vivem em Siena, na Itália. Antes da invasão da Polônia pela Alemanha, que deflagra o conflito mundial, Byron Henry (Jan-Michael Vincent, substituído na sequência por Hart Bochner em razão de outros compromissos profissionais - segundo se diz) aceita trabalhar como assistente do professor Aaron Jastrow (John Houseman, que faleceu depois e foi substituído na sequência por John Gielgud). Na cidade italiana, conhece e se apaixona por Natalie Jastrow (Ali McGraw, substituída na segunda parte por Jane Seymour), sobrinha do professor, namorada do secretário da embaixada americana na Itália, Leslie Slotes (David Dukes). A história do envolvimento de ambos vai se misturar com os primeiros anos da guerra na Europa e a opressão gradual da população judaica em todo o continente.

Enquanto isso, o pai de Byron, Victor "Pug" Henry (Robert Mitchum) observa como oficial da Marinha os fatos que gradualmente levarão os Estados Unidos a entrarem na guerra. Ele é casado com Rhoda (Polly Berger) e pai também de Madeline (Lisa Elbacher, substituída depois por Leslie Hope) e Warren (Ben Murphy, trocado na sequência por Michael Woods), aviador. A relação familiar acaba ficando complicada pela guerra, gerando triângulos amorosos com Palmer Kirby (Peter Graves) e Pamela Tudsbury (Victoria Tennant), filha do jornalista Alistar Tudsbury (Michael Logan, substituído por Robert Morley na continuação).

Jane Seymour como Natalie Henry e John Gielgud como Aaron Jastrow em "Lembranças de guerra"

"Ventos da guerra" termina com o ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e a entrada da nação norte americana na guerra contra Hitler. Além disso, mostra o início do Holocausto, com os fuzilamentos em massa de judeus da cidade de Minsk, na Bielorrússia então recém invadida pelos nazistas, fato documentado em fotos pelo judeu Berel Jastrow (Topol), primo de Natalie. Uma sequência não tão gráfica quanto aquelas vistas em "Imaginary witness", mas não menos chocantes.

"Lembranças de guerra" inicia justamente nos primeiros dias após o ataque à base naval norte americana, e a partir daí o pesadelo da guerra começa a atingir as famílias, provocando desencontros, sobretudo entre Byron, agora membro da frota de submarinos dos Estados Unidos, e Natalie, ambos casados e com o primeiro filho nascido, Louis. A partir daí as  histórias dos Henry e dos Jastrow correrão paralelas e em alguns momentos irão se cruzar em meio ao desenrolar da guerra, do aumento das perseguições nazistas, da execução do Holocausto e das tentativas de denunciá-lo ao mundo, das operações fracassadas para matar Hitler e dos conflitos amorosos e familiares de ambos os lados.

Com mais de 30 anos de idade, as duas produções ainda podem ser vistas atualmente como um ótimo trabalho de reconstituição de época, utilizando imagens de documentários e efeitos considerados hoje ultrapassados, principalmente miniaturas nas sequências de batalha no oceano Pacífico. Mas superando isso há também um elenco de apoio que parece ter sido escolhido a dedo para interpretar os personagens históricos reais: Ralph Bellamy como o presidente Franklin Roosevelt, Günter Meisner ("Ventos") e Steve Berkoff ("Lembranças") como Hitler, entre outros. Mas os que mais me chamaram a atenção, já na sequência "Lembranças da guerra", foram os atores Milton Johns como Adolf Eichmann, pela sua semelhança física com o executor do Holocausto, e Günther Maria Halmer, intérprete do comandante de Auschwitz, Rudolph Hoess - personagem que ele já havia interpretado antes em "A escolha de Sofia", de 1982.

As duas partes da minissérie servem como um importante registro histórico da Segunda Guerra Mundial, sobretudo o que se relaciona com o Holocausto, mostrando as engrenagens propulsoras de um dos crimes contra a humanidade mais horríveis já cometidos em razão de sua concepção e execução quase industrial. Vale a pena procurar pela internet os links disponíveis. Mais difícil, porém não impossível, é achar legendas compatíveis, principalmente para "Ventos da guerra", pois nos capítulos finais localizei apenas legendas sem sincronia ou divididas em dois arquivos, complicando assistir, pois cada capítulo tem a duração de um filme normal (alguns chegam a quase duas horas e meia). Mas o resultado vai ser satisfatório, no final das contas. É uma volta aos anos 1980 que vale muito a pena.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

FILMES: "O último trem" (De letzte zug, 2006)

O embarque para Auschwitz: 688 judeus alemães enviados para a morte 

 Em 19 de abril de 1943, 688 judeus remanescentes de Berlim, na Alemanha nazista, foram aprisionados e enviados em vagões de gado para o campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia ocupada. Essa viagem infernal com destino à morte é contada em “O último trem” (Der letzte zug), traduzido também como "O último trem para Auschwitz", produção alemã dirigida em 2006 por Joseph Vislmaier e Dana Vávrová.

O trajeto dessas centenas judeus de diversas origens e idades – famílias inteiras, casais jovens, idosos, bebês de colo – é marcado por privações terríveis e ignoradas (e mesmo incentivadas) pelos algozes nazistas, como falta de água e condições sanitárias nos vagões lotados – episódios que se repetiram por toda a Europa nazista durante a Segunda Guerra Mundial com a implementação da Solução Final. O que se passa durante a viagem fatídica é contado do ponto de vista de vários prisioneiros enfurnados em um dos últimos vagões – o jovem casal Henry e Lea Neumann (Gedeon Burkhard e Lale Yavas), sua filha Nina (Lena Beyerling) e o irmãozinho de colo; o ator idoso Jakob Noschik (Han-Jürgen Gilbermann) e sua mulher Gabrielle Hellman (Brigitte Grothum); o casal Albert Rosen (Roman Roth) e Ruth Zilberman (Sibel Kekilli), que tentam inutilmente fugir antes do embarque; o obstetra dr. Friedlich (Juraj Kukura) e sua filha Erika (Sharon Brauner) com o bebê desta; e vários outros personagens unidos pela mesma trágica sorte.

A viagem dos prisioneiros acaba se prolongando por cerca de uma semana, piorando as condições dentro do trem. Além da falta de alimentos e de higiene, a loucura começa a afetar alguns dos aprisionados. No vagão onde a trama se concentra, alguns prisioneiros tentam abrir um buraco no chão aproveitando as longas paradas do trem, na esperança de uma fuga aparentemente impossível, ideia incentivada por Albert Rosen ainda na plataforma de embarque, para a qual atrai Henry Neumann e outros judeus. Serrar as grades do vagão para tentar abrir a porta e permitir a fuga de todos também é uma tentativa desesperada, mesmo sob o risco de caírem sobre os trilhos ou serem baleados pelos guardas nazistas que vigiam os vagões. Em meio ao drama, eles relembram suas vidas antes das perseguições.

A cada estação, os pedidos de piedade são ignorados pela população – principalmente por medo dos nazistas – e levam diversão aos soldados que aproveitam cada apelo para revelar seu sadismo – sob efeito de bebida alcoólica, atiravam a esmo para dentro dos vagões lotados ou matando indistintamente quem se atrevesse a reclamar das privações. Em alguns casos, a água era conseguida quando os prisioneiros, através das brechas dos vagões ou pelas janelas, atiravam seus últimos pertences como forma de pagar pelo líquido.

A monstruosidade de um crime como o Holocausto, nesse filme, aponta fatos que acabam sendo, de um modo comovente, bizarros. Em uma cena, os prisioneiros veem, pelas grades do vagão, soldados armando forcas em uma das estações. Apavorados, aguardam pelo pior, mas ao verem que outros homens judeus foram escolhidos para serem mortos ali, abraçam-se em alegria, mesmo cientes do destino igual que os aguardava no final da linha. Ainda assim, continuam tentando abrir o buraco no chão do vagão após tentarem fugas infrutíferas ou fazerem escolhas terríveis para não enfrentarem as câmaras de gás de Auschwitz: suicídios e assassinato dos próprios familiares.

As viagens nos “trens da morte” durante o Terceiro Reich figuram apenas como sequências em outros filmes sobre o Holocausto, como “A lista de Schindler” e “O pianista”, mas aqui esse transporte macabro é o cenário permanente da história. Entram como personagens não apenas vítimas e algozes, mas pessoas que fizeram parte da engrenagem do extermínio. Um dos maquinistas, mesmo ciente da carga que transporta, parece se conformar, mesmo lamentando as condições às quais os judeus são submetidos, e seu colega, aborrecido, acaba por lhe revelar: fora apaixonado por uma judia que acabara sendo assassinada. Naqueles anos de loucura, até mesmo uma tragédia pessoal se tornava banal.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Comentário: "Amarga sinfonia de Auschwitz" (Playing for time, 1980)

Em uma das cenas de "Amarga sinfonia de Auschwitz", Fania Fenelon (Vanessa Redgrave) grita para as outras prisioneiras que está cansada de rótulos e é apenas um ser humano. É um dos diversos momentos de destaque desse telefilme de sucesso de 1980, baseado nas memórias de Fania Fenelon (1908-1983), judia francesa e cantora deportada para Auschwitz no início de 1944, após ser denunciada também por ser membro da Resistência durante a ocupação nazista.
Vanessa Redgrave interpreta a cantora e membro da Resistência Fania Fenelon

Ao entrar no universo de vida e morte de Auschwitz, o mais famoso campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial, no sul da Polônia ocupada pelos nazistas, Fania passa a fazer parte da orquestra de mulheres (judias ou não) do local, que faz apresentações para seus carrascos e para os prisioneiros judeus recém chegados ao lugar e selecionados para a morte nas câmaras de gás. Os dilemas em nome da sobrevivência são muitos. Alma Rosé (Jane Alexander), a regente da orquestra, é uma mulher judia rigorosa com as companheiras a ponto de parecer em alguns momentos estar alheia à carnificina diária promovida pelos nazistas, e com quem eventualmente Fania tem diálogos duros sobre suas ações. Transportada juntamente com Fania para o campo, Marianne (Melanie Mayron) também entra para o grupo, mas recorre à prostituição para obter comida. Por se considerar meio judia pelo fato de sua mãe ser católica, Marianne dá-se o direito de usar meia estrela de Davi em sua roupa, como se fosse uma garantia ainda que insuficiente de sobrevivência, pelo que é criticada pelas demais prisioneiras.
Jane Alexander como Alma Rosé

O filme revela uma atmosfera meio que surreal do campo de Auschwitz, célebre pelas altas cifras de mortes de judeus, ciganos, opositores do regime nazista, homossexuais e outras minorias perseguidas. A líder do campo Maria Mandel (Shirley Knight, que apareceu recentemente como Phyllis, a sogra de Bree Van De Kamp, personagem de Marcia Cross em "Desperate housewives") é uma carrasca brutal que espanca os prisioneiros e toma para si o filho pequeno de uma judia condenada à câmara de gás. No entanto, é uma mulher que pessoalmente procura um par de sapatos que sirva para a recém chegada Fania, colocando-os em seus pés, e não esconde sua dor ao ser obrigada a entregar à morte o menino que tirara da mãe prisioneira. O dr. Mengele (Max Wright, conhecido pelo papel de William Tanner na telessérie da década de 1980, "Alf, o E.Teimoso") revela sentimentos de compaixão e amor, a despeito de o personagem real historicamente ser conhecido pelas experiências bárbaras realizadas em Auschwitz e também responsável pelas seleções para o extermínio. Sobressaindo-se a esse lado humanizado da figura do carrasco, seu caráter evidenciado pela História volta a surgir, ao determinar que a orquestra feminina ensaie uma apresentação musical para um grupo de prisioneiros formado por doentes mentais sob o pretexto de estudar as suas reações à música. Logo depois, todas as pessoas seriam executadas nas câmaras de gás.
Shirley Knight como Maria Mandel

É nessa luta pela sobrevivência que conflitos morais são colocados em evidência pelas prisioneiras em sua luta diária para terem suas vidas poupadas. Há momentos de grande esperança: em uma das cenas, um dos prisioneiros judeus aproxima-se de Fania e lhe mostra a palma da mão, onde está escrito "Os aliados desembarcaram na Normandia"; em outra, as prisioneiras comemoram a fuga de uma judia influente, Mala, interpretada por Maud Adams, de "007 contra Octopussy", crentes de que ela e seu amante Edek (Lee J. Nelson) poderiam revelar ao mundo as barbáries de Auschwitz. No entanto, tais esperanças logo são destruídas: aviões que sobrevoam a região são abatidos pela artilharia antiaérea nazista, e Mala e Edek são recapturados e enforcados em frente ao barracão das prisioneiras. O pesadelo se arrasta até a morte de Alma Rosé, envenenada por uma guarda nazista que preferiu matá-la a deixá-la sair de Auschwitz para o front onde cantaria para soldados alemães (pela afronta aos superiores, a guarda foi fuzilada). Única garantia de vida para todas as mulheres da orquestra, sua perda significava incerteza para o grupo, que passa a ter sua liderança disputada entre Fania e a polonesa Olga (Christine Baranski, que apareceu como mãe do nerd Sheldon em "The Big Bang Theory"). Parte das mulheres sobreviveu até o dia da libertação.
O elenco da orquestra de Auschwitz

Na história real de Fania Fenelon, Auschwitz foi evacuado com a aproximação dos aliados e as prisioneiras foram levadas a Bergen Belsen, onde a libertação chegaria em abril de 1945. Das cerca de 80 componentes do grupo, 47 sobreviveram ao Holocausto. Maria Mendel foi presa, condenada por crimes contra a humanidade e executada em Cracóvia, Polônia, em 1948. Fania escreveu suas memórias e morreu de câncer em Paris, em 1983. Sua história não é somente um retrato da brutalidade das perseguições na Europa nazista representada por Auschwitz e seu duro leque de dilemas, mas também de esperança e luta.


Onde baixar: Filmes Cult

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...