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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O grande vácuo de 2020

Para mim, 2020 acabou em março. Mais precisamente no dia 22 de março, quando depois de uma situação de medo provocada pela pandemia de covid-19 antecipei o fim da viagem que estava fazendo de férias ao sul do país (e que narrei em postagem aqui no blog) em uma semana e, após muita tensão, voltei a Manaus.

De lá para cá, o ano virou um grande vácuo. Nada aconteceu normalmente. Aliás, parece que nem aconteceu no nível da minha vida pessoal. Fiquei em home office até outubro, uma sorte que infelizmente nem todos os trabalhadores tiveram. Para encontrar os amigos, somente reuniões por bares virtuais que foram bacanas mas não vingaram depois. Muitas pessoas queridas perdendo a batalha para o coronavírus enquanto os negacionistas e os que minimizam a praga espalharam boatos ridículos, distorceram informações e agiram como criminosos em aglomerações que ajudaram a voltarmos aos poucos ao mesmo patamar do pior momento da pandemia.

Pensando hoje nisso, sinto um grande vazio entre aquele 22 de março e agora. É realmente como se o ano tivesse nunca existido. Um final de década (ou início de outra?) bem deprimente para quem em 2019 tinha tantos planos.

Como voltar à normalidade? Isso seria possível se todos tivessem consciência em seus comportamentos e não agissem como egoístas.

Voltei ao trabalho presencial no início de outubro, mas com restrições ainda no atendimento: funcionamento interno, acesso restrito do público apenas para audiências, sem acompanhamentos desnecessários, uso de máscaras e disponibilização de álcool em gel. Tem dado certo até agora sem maiores incidentes.

Mas o que ainda testemunhei: pessoas achando que por já tem ficado doentes poderiam agir normalmente sem usar máscaras, outros se vengloriando de participar de festas clandestinas, outros usando o ridículo e nojento argumento de que "toda pessoa agora só morre de covid" (aqui um total desrespeito e falta de empatia com a dor de quem perdeu pessoas queridas para esse vírus).

Em julho, perto do final do mês, fiz minha primeira saída de casa para visitar meus compadres, que haviam perdido a filha mais velha de 23 anos para o covid. A partir daí, consegui colocar alguma normalidade na minha rotina com reuniões eventuais sem aglomeração (máximo de cinco pessoas, comigo incluso) em espaços abertos, distanciamento e uso frequente de álcool em gel, tapetes com água sanitária e álcool líquido borrifado em roupas e cabelos, todo o tipo de segurança que daria para permitir o retorno a um pedaço do que era nossa vida antes da coronacrise. Entretanto, ninguém quer agir assim: o que importa é ir para lugares lotados, sem uso de máscaras, esfregando-se uns nos outros, rindo sobre milhares de cadáveres (milhões em nível mundial), levando o vírus para outras pessoas. Aí em supermercados vejo gente sem máscara ou com máscara segurando a queixada (de burro), ou mesmo pendurada na orelha ou com o nariz de fora. Sem contar quem não respeita a distância nas filas ou leva toda a família para as compras (nunca vi necessidade disso).

Em 2020 o nosso mundo somente piorou. O vácuo engoliu aquelas premissas de que a pandemia nos tornaria pessoas melhores. Algumas conseguiram. Outras só mostraram - e mostram - que não passam de egoístas estúpidos. Depois vem atrás de orações quando a coisa fica feia. Empatia não terão de minha parte. Desculpem, ainda não evolui e pelo jeito jamais o conseguirei.

Dedico esse desabafo aos que perderam a batalha contra esse vírus maldito:
Mylena de Azevedo Alcântara, afilhada
Bruno Cecílio, marido de uma colega
Robson Franco, amigo
Eledilson Colares, amigo
Heleno Oliveira, tio
E mais de 180 mil brasileiros que não estão tendo sua memória devidamente respeitada.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sol, mar e suco de cacau


Uma das coisas que nos chamaram a atenção em Ilhéus foi a beleza de suas praias do perímetro urbano: Praia dos Milionários – de onde se pode assistir a decolagem dos aviões do aeroporto Jorge Amado –, Praia do Cristo (na qual há uma estátua de Cristo com 7 metros de altura, erguida em meados da década de 1940), Praia do Sul – praticamente ao lado da pousada onde ficamos - e Praia do Norte (esta última mais propícia para a prática do surfe, em razão de suas águas muito agitadas). Há alguns quiosques nos locais, mas nada que comprometa o aspecto quase intocado da região – não há calçadão ou ciclovias como nas outras cidades litorâneas.


 Para fora da área urbana, Ilhéus oferece opções diversas de passeios que valem a pena cada centavo pago. Em razão do pouco tempo para curtir a cidade – apenas cinco dias -, foi difícil escolher por causa dos atrativos. Optamos então por Camamu, ao norte do município. Ali, chega-se após cerca de duas horas de viagem pela rodovia BR-101 (onde, em certa altura, existe uma placa exigindo atenção dos condutores por ser “travessia de cachaceiros”), embarca-se em uma escuna e pronto! É só curtir a beleza das diversas ilhas existentes com suas praias de águas verdes e relevo peculiar – contando ainda com o bom humor e a ginga dos guias, sempre atenciosos e até cuidadosos com os visitantes mais distraídos com horários.

Os preços para a baixa temporada são muito atrativos – em média, um passeio custa R$ 120 por pessoa, variando por conta do destino. De Ilhéus é possível ir a Morro de São Paulo e Porto Seguro. A empresa organizadora busca os turistas em seus respectivos hoteis no horário combinado – geralmente bem cedo para evitar aquelas correrias comuns em passeios organizados. Dá para se divertir bastante e não é nada tedioso. Pelo contrário! É a oportunidade para conhecer novas pessoas de todas as regiões e com todos os sotaques possíveis.


Alugando-se um carro no aeroporto – ou fora dele -, é possível ir a diversos lugares fora da sede municipal, contando para isso com o desejo de conhecer tudo e, claro, um GPS. Foi assim que chegamos a Itacaré, onde ficamos na Praia da Concha, bem ao norte de Ilhéus. Ali, um mirante natural permite uma visão bela daquela região, que ainda possui um farol e guarda um ar de intocabilidade em certos trechos.

Na viagem, a parada é obrigatória em qualquer um dos dois mirantes ao longo da Rodovia do Cacau – como chamam a BA-001, que liga Ilhéus e Itacaré. É um local ótimo para fotografias do belo litoral baiano, rendendo longos minutos de contemplação.


A Praia do Sul acabou sendo nosso principal refúgio até o final da viagem e depois de longos e divertidos dias de passeio. À noite, o vento frio que vem do oceano não intimida quem gosta de caminhadas iluminadas pelo luar. O Jardim Atlântico, bairro que concentra hotéis e pousadas da cidade, se torna o melhor ponto para quem procura tranquilidade.


Destino pouco procurado por amazonenses, Ilhéus merece alguns dias para visita e curtição. Por ser uma cidade em franco desenvolvimento mas que não perdeu aquele ar pacato de vida no interior, vale a pena ser conhecida e apreciada – como o suco de cacau de sabor marcante servido nos restaurante da cidade.

Amada Ilhéus de Amado


A experiência de estar em Ilhéus é fantástica. De um lado, temos a cidade do interior baiano imortalizada pelo escritor Jorge Amado em “Gabriela, cravo e canela”, obra que se sente em cada esquina do Centro Histórico que reúne o bar Vesúvio e o antigo cabaré Bataclan, lugares onde esperamos até encontrar os personagens - Gabriela, Nacib, Jesuíno e tantos outros. Do outro lado, existe a cidade de pouco mais de 182 mil habitantes, segundo estimativa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dividida em ilhas que lhe deram o nome, sede do município com maior litoral de praias da Bahia, belas e tranquilas, verdadeiros paraísos - a despeito dos problemas comuns de infraestrutura.
 Se Salvador tem o Pelourinho como chamariz de testemunha da história do Brasil, Ilhéus tem o casario colorido nos arredores do Vesúvio de Nacib e do Bataclan de Maria Machadão como marcas da ficção de Jorge Amado baseada em personagens que de fato existiram. Foi no Centro Histórico que começamos nossa visita: pelo Vesúvio, erguido em 1915, está lá, com a estátua de Jorge Amado espiando os frequentadores, um painel de boas vindas de Nacib e Gabriela, fotos de Ilhéus antiga e gravuras dos reais personagens do comerciante turco e da bela morena baiana. Hoje é o point da cidade, com música popular brasileira (de verdade) ao vivo e um cardápio que inclui, em meio aos petiscos comuns de frutos do mar ou carne seca, o sanduíche do Nacib, feito de pão árabe com tabule e queijo, a preços acessíveis.

A poucos metros do bar e restaurante Vesúvio - que vale uma parada indispensável para fotos com a estátua de Jorge Amado -, chegamos ao Bataclan, erguido na década de 1910 e reformado em 2004, cabaré comandado em outras eras por Antônia Machado, a Maria Machadão. A decoração resgata o clima da época dos coronéis e das “meninas da casa”: fotos sensuais, o palco das apresentações, as plumas, os paetês e até o quarto de Maria Machadão, conservado e transformado em memorial aberto à visitação pública, onde o ator José Delmo nos presenteou com uma rápida interpretação da história do ciclo do cacau e da época de mandos e desmandos dos coronéis, do apogeu à queda - algo bem retratado na obra de Jorge Amado. O Bataclan funciona como bar e restaurante, tendo apresentações teatrais nas noites de quarta-feira, onde se resgata o espírito antigo do cabaré.

Fazem parte ainda do acervo histórico que merece ser visitado a Casa de Jorge Amado - na frente da qual há uma estátua do escritor baiano - e o Teatro Municipal de Ilhéus, além da bela e imponente Catedral de São Sebastião, construída na década de 1930, praticamente um ponto de referência de qualquer parte do Centro Histórico da cidade. Na frente da igreja, encontramos um quiosque vende doces e licores de chocolate produzidos pela indústria local, inclusive alguns produtos mais, digamos, picantes para dar de presente, como o “Nacib”, o “Nacibinho” e a “Gabriela”.

Chegando - A viagem de Manaus a Ilhéus é uma verdadeira aventura de conexões. A malha aérea atual permite chegar à cidade baiana a partir de Brasília, com conexão para Salvador e outra de lá para o destino final, ou ainda via Rio de Janeiro. No mínimo, seis horas de viagem. A chegada, no entanto, compensa qualquer cansaço.

Para quem busca hospedagem, há vários hotéis e pousadas na cidade, mas as melhores ficam no bairro Jardim Atlântico, perto do aeroporto Jorge Amado – ficamos na bela pousada Lua e Mar, a menos de dez minutos do terminal aéreo. Ali se concentram pousadas tranquilas, sem grandes agitos, ao lado da Praia do Sul, que vale uma caminhada ao nascer e ao por do sol, ou mesmo à noite. Por ser uma cidade pequena, Ilhéus – garantem os ilheenses – é pacata e extremamente tranquila, mesmo na alta estação, quando até para obter uma mesa no Vesúvio é preciso amargar espera em fila.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Senhor prefeito, Manaus tem jeito!





Hoje o novo prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, foi empossado no cargo. Com ele, o ano começou com a esperança de que algo finalmente seja feito para revitalizar a capital amazonense, totalmente desordenada e atirada à própria sorte, tanto por administrações pífias quanto por obra e graça de falsos cidadãos, os quais armados até os dentes com o batido e deturpado discurso de "vivermos em democracia", fazem e acontecem na cidade.


Esse festival de paraguassices pode estar chegando ao fim. Pelo menos é o que os eleitores de Arthur aguardam ansiosamente (eu, entre eles, que lhe confiei meu voto no segundo turno). Chega de termos uma cidade literal e vergonhosamente mergulhada na escuridão, com falta de água principalmente na periferia, com ruas esburacadas, vandalismo, falta de espaços públicos para o lazer familiar, poluição demais, sistema viário que não comporta a demanda, transporte coletivo ineficiente e caro, insegurança... A somente um ano e meio, praticamente, da realização da Copa 2014, a satisfação da escolha da cidade como subsede do evento se transformou em temor e em um sentimento antecipado de vergonha em nível internacional.

Manaus deixou de ser a cidade do Teatro Amazonas e do encontro das águas, somente. Mas é uma metrópole com mentalidade de feudo. Uma capital rica, mas perdida e ignorante de seu próprio potencial, desconhecedora de sua cultura. Não temos museus decentes, nossas praças e monumentos estão sendo destruídos por vândalos que escapam impunes. Não existe uma arborização adequada (o que existe de verde, se destrói por motivos ridículos). Tudo parece feito "nas coxas" e assim fica. Desordem e mais desordem.

Senhor prefeito, confio em sua equipe. Espero que agora os caciques tenham sido definitivamente enterrados. É uma segunda chance para quem já administrou insatisfatoriamente a cidade (é o que se ouve dos seus opositores). Foi o seu crescimento político ao longo dos anos que nos fez gerar essa expectativa tão grande. Afinal, de contas, senhor prefeito, Manaus tem, sim, jeito!!!! E está em suas mãos!

Foto: Arlesson Sicsu

sábado, 10 de novembro de 2012

Só faltou fogueira santa na Cidade Nova - ou: pequenos ditadores, futuros genocidas


Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Na escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima, no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, uma confusão armada por estudantes evangélicos (não se informou de qual igreja) vira notícia e chega a ser manchete hoje de um dos jornais locais. A questão era a seguinte: o estabelecimento educacional realizou um projeto chamado “Preservação da Identidade Étnico-Cultural Brasileira”, centrado na cultura agro-brasileira, mas a turminha achou que estava sendo obrigada a fazer trabalhos sobre “satanismo e homossexualismo” (sic). Propuseram um trabalho sobre missões evangélicas na África, totalmente fora do contexto temático, o que não foi aceito pela escola.

"O que tem de errado no projeto (da escola) são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo (sic de novo), que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia". Essas palavras vieram de uma estudante da escola. Além do mais, estudantes se recusaram a ler obras literárias brasileiras (“O guarani” e “Macunaíma”, para citar dois referidos por um professor entrevistado) que, segundo eles, falavam de homossexualismo (sic mais uma vez). Então vou tecer alguns comentários sobre a atitude desses estudantes:

1) o candomblé faz parte da cultura de nossos antepassados (os meus, pelo menos, que sou negro). Achar que isso é coisa do demo, contra as leis de Deus etc., é muito perigoso. Vamos buscar a essência de cada religião e encontraremos o mesmo Deus, não importam os rituais, se há santos ou não. Há denominações diferentes. A religião deve agregar as pessoas, não jogá-las umas contra as outras, mas há pseudolíderes indo pelo lado oposto. O candomblé é do mal? Pode haver correntes do mal, como em qualquer outra religião, inclusive essa que fecha os olhos de seus seguidores ao respeito às diferenças religiosas e até mesmo sociais e raciais. A religião que o homem criou e vem estabelecendo ao longo dos séculos é vergonhosa. Foi uma das razões pelas quais eu me afastei de todas e resolvi seguir o livre arbítrio dado pela força divina para discernir o bem do mal, coisa que falta, infelizmente, a esses alunos, que seriam muito bem vindos em uma organização similar à Juventude Hitlerista na época da Europa nazista. Não é exagero, isso eu posso garantir.  Assim se formam os pequenos ditadores e futuros genocidas. Todos sabem muito bem como terminou aquela babaquice toda sobre "os judeus são a nossa desgraça". Imagine se institucionaliza-se o "todo praticante de candomblé é satanista" ou "todo espírita tem conclave com o demônio".

(O demônio, aliás, é tão citado por esses grupos fanáticos que questiono se o dito-cujo não deve estar feliz por juntar seu rebanho tão facilmente neste plano)

2) pelo pouco que conheço, vejo a doutrina espírita como a única que tem essência pacífica (relação ser humano-ser humano e ser humano-natureza), filosófica e fundamentalmente cristã, baseado na lei da causa e efeito, não importando suas crenças em reencarnação, mundos invisíveis etc. Também ali há Deus e Jesus Cristo, e pelo que li até agora, não vi nada desabonador aos olhos do Pai. Não sou espírita, mesmo porque alguns dos seu argumentos eu questiono, mas seus princípios na busca de uma unidade humana são perfeitos. Esses alunos mostraram sua total falta de tato pra lidar com o mundo, seguindo certamente o exemplo de seus pais e “líderes”, pois se fecharam em sua própria mediocridade ao virar a cara para o irmão diferente.

3) coitados dos que não conhecem pelo menos algumas obras literárias por terem essa visão tão limitada e preconceituosa. Se fizessem realmente projeto baseado na Bíblia, como propuseram em opção ao tema lançado pela escola, deveriam fazer também trabalhos sobre incesto, ganância, fratricídio, homossexualidade e adultério. Há essas referências no Livro Sagrado, ele não trata dessas situações, então se for pela presença dos temas, vamos todos queimar todos os livros do mundo. A argumentação usada pela aluna só denota pura preguiça de estudar, essa é a verdade. Depois não se sabe de onde vem tanta ignorância.

(Só queria saber se os pais desses alunos, que apoiaram tal manifestação de intolerância, assistem Big Brother, guardam revistas pornográficas, têm amantes ou falam de seus pares pelas costas, espancam seus filhos, enganam seus vizinhos e ainda se acham acima do bem e do mal e protegidos pela “glória de Nosso Senhor”, o qual com certeza não é o Criador)

Não expresso minha indignação por serem evangélicos, mesmo porque existe tolerância, sim, de vários grupos de evangélicos que interagem com outras religiões. Esses acabam sofrendo com a generalização. Eu a expressaria do mesmo jeito se tais bizarrices fossem proferidas por católicos, ateus, espíritas, budistas e quaisquer outros religiosos. Esse pessoal confunde evangelização com militarização em prol de uma guerra santa, o que por si só já vai contra os princípios da religião. Só me resta lamentar que tal mentalidade exista em pleno século 21, tantos séculos após a Idade das Trevas. E pelo jeito, com tantos outros exemplos que aparecem, vejo que a regressão da raça humana é fato inevitável.

Quem planta, colhe. Cada um que, depois, carregue a cruz pelos seus atos estúpidos. A minha eu sei que irei carregar, com orgulho e consciente.

domingo, 26 de agosto de 2012

Minha vida de foca: baixaria no Katikero

Era uma noite de domingo em 1996. Plantão no Jornal do Norte. Lembro que eram quase 21h e eu já estava de saída para casa quando o diretor de redação Hiel Levy me chamou. Confusão no bar Katikero, maior quebradeira, briga e blá-blá-blá. Fui à missão acompanhado do repórter fotográfico Alberto César Araújo.

O bar Katikero existe até hoje. Fica localizado na avenida Floriano Peixoto, Centro de Manaus, a poucos metros do cruzamento com a rua José Paranaguá, nas proximidades do antigo quartel da Polícia Militar. Não chega a ser um lugar mal frequentado: é um dos raros pontos de encontro ainda resistentes no Centro, reunindo trabalhadores daquela área para um happy hour, e até funciona como restaurante salvo engano.

Naquela noite em questão, ao nos aproximarmos, o cenário era bem diferente. Em vez de polícia, curiosos, mesas jogadas, garrafas quebradas e tudo o que possa lembrar um campo de batalha urbano, só havia um homem parado em frente ao bar. E este estava fechado. Não entendi mais nada, porém fomos até o cidadão e vimos que se tratava do Celso, na época editor executivo do Jornal do Norte.

Celso estava parado na calçada do Katikero, em pé. Aos seus pés, um pequeno maço de dinheiro - notas de R$ 10, R$ 5 e R$ 1, se bem me lembro. Ele havia ligado para a redação. O problema: depois de ter tomado uma ou duas cervejas, ele dera uma nota de R$ 50 para pagar. No entanto, o troco viera incompleto. Faltavam exatos 25 centavos!

Era isso. O circo estava armado por causa de 25 centavos que faltavam para completar o troco. Inacreditável que eu e Alberto estávamos ali por conta da birra do colega. Em vez de gente ferida, garrafas quebradas e todo tipo de dano que uma baderna em boteco pode gerar, estava o editor do jornal inconformado em não receber míseros 25 centavos de troco. Ainda fossem R$ 25, eu até entenderia. Mas vida de foca é uma desgraça: fosse hoje, eu daria ao chefe o tão choramingado dinheirinho para encerrar aquela papagaiada. O jeito era esperar para ver.

Mas a pauta idiota não foi nada. Pior foi a baixaria que se seguiu. O dono do bar morava no prédio onde funciona o Katikero (não sei se hoje ele ainda reside lá ou se permanece proprietário do boteco) e viu, lá de cima, a movimentação do cliente chato e da equipe de repórteres. Ele já desceu com 200 pedras na mão, esculhambando todo mundo. Eu fiquei de braços cruzados observando a cena. Sobrou para o Alberto, coitado. O cidadão, que tinha quase uns dois metros de altura, achou que o fotógrafo havia tirado fotos dele, agarrou-o pelos braços e o sacudiu, ameaçando-o caso fosse publicado algo, apesar de Alberto haver garantido não ter feito fotografia alguma. Foi um corre daqui e dali para acalmar o elemento, até a esposa dele se meteu para acalmar a besta fera. Enquanto isso, Celso somente dava um sorriso debochado. Satisfeito em ter irritado o cidadão, recolheu seu rico dinheirinho e foi embora. Voltamos para a redação, eu e o Alberto, fulos da vida, contamos o que havia acontecido e pronto. Muitas risadas, nada de matéria, nada de fotos, nada de nada. Plantão encerrado.

Nem preciso dizer que essa aventura frustrada foi a gozação da semana para mim e para o Alberto, que quase apanha por causa do falso alarme criado pelo nosso chefe maluco. Nunca havia sequer entrado no Katikero, mas depois daquela palhaçada toda nem fiz questão. Quanto ao Celso, algum tempo depois foi demitido ou pediu demissão do jornal, não lembro ao certo. Eu só pude dizer: "já vai tarde". E levou minha vontade de esganá-lo.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

E atenção para o horário humorístico gratuito!

Desde que me entendo por gente, abomino o horário eleitoral gratuito. Todo ano eleitoral é a mesma coisa: acusações aqui, cutucadas com vara curta ali, baixarias e a famosa farsa da oposição ferrenha (evidenciada após diversas tramoias políticas que fazem os adversários trocarem gentilezas e negando os ataques e contra-ataques). 

Ontem, porém, enquanto me distraia no Facebook, deixei a televisão ligada justamente nesse intervalo de tempo, e um nome me chamou a atenção: Madona dos Rodoviários, candidata a uma vaga na Câmara Municipal de Manaus por uma das coligações que disputam o poder na capital amazonense. Uma concorrente a vereadora que nem de longe lembra a homônima da Blonde Ambition. Foi então que larguei o netbook e passei a observar os nomes e as atitudes dos candidatos dali em diante, onde houve espaço até mesmo para o Highlander, um dos rivais de Madona (a nossa, não a megastar).

Tenho que confessar que passei a ver o horário político como algo tão surreal que se torna humor escrachado. Enquanto alguns candidatos ao cargo de prefeito de Manaus apelam para lágrimas,  "belas e exemplares" histórias de vida e pegam emprestada a aura de algum anjo da guarda incauto que esteja nas proximidades, outros parecem ter copiado seu cenário daqueles lugares em que os asseclas da Al-Qaeda proferiam ameaças e imprompérios contra o Grande Satã e a civilização judaico-cristã do Ocidente, como bem observaram vários amigos nas redes sociais. A atração principal, fora os candidatos "nanicos" à prefeitura, por assim dizer, acabam sendo os que buscam uma "boquinha" nas dependências da Câmara Municipal.

Temos Madona e Highlander. Os nomes bizarros vão aparecendo aqui e acolá. Mas as atitudes são mais divertidas. Tem candidato que parece estar lendo suas declarações em uma cartolina erguida pelo câmera. Outros estão praticamente congelados e só movem os lábios, em meio a um sorriso amarelo. Alguns são tão espontâneos que não se acanham em massacrar a nossa tão sofrida gramática e ainda abraçam o candidato a prefeito, que parece mais uma estátua de cera (ou "estauta", como alguns dizem). Existem também os que aparentam ter saído de um ônibus lotado, de tão amarrotadas que estão suas roupas, sem nenhum cuidado com a produção visual (ou então pecam pelo excesso, transformando-se em bolos confeitados ambulantes). Vi um cidadão que, se usasse uma peruca preta toda encrespada, poderia muito bem ser o clone da Adelaide, aquela mendiga do programa Zorra Total que sempre pede "cinquenta centarru, vintecinco centarru ô dez centaaaaaaaaarru", mas tem um "tábreti". 

Os tipos estranhos e curiosos continuam em desfile. Tanta bizarrice me trouxe à mente a campanha para a presidência da República na década de 1990, quando entre os embates de Collor e Lula (ainda um trabalhador que todos desejavam ver no poder) apareceram figuras como o Marrozinho, que não conseguia falar e mostrava uma mordaça, a primeira mulher candidata que fazia a propaganda à beira do fogão e o alegórico e já falecido Enéas (este pelo menos conseguiu conquistar seu objetivo e foi um exemplo de persistência). Sem contar o Ronaldo Caiado, bancando o salvador da Pátria montado em um cavalo branco, uma coisa extremamente apelativa e de péssimo gosto.

Depois de muito tempo sem prestar atenção no horário eleitoral gratuito na televisão, descobri uma nova forma de rir e esquecer um pouco as amarguras da vida. Sem querer debochar dos coitados que só estão ali fazendo sabe Deus o quê (se votarem em si já será uma conquista), mas em muitos casos está na cara, literalmente, o despreparo do cidadão. É óbvio que para muitos almejar uma vaga no mundo da política é conseguir uma boquinha para ganhar muito dinheiro (claro, com tantas mordomias é normal haver essa ambição). Mas aqui e ali aparecem pessoas sérias (uns poucos eu conheço pessoalmente e um deles já terá meu voto), e aos demais que involuntariamente acabam se tornando engraçados, só posso desejar boa sorte, pois se Tiririca chegou lá, a zebra pode acontecer de novo. Mas para isso, falta o carisma e uma música idiota que conquiste o público. Pelo andar da carruagem da pobreza musical em nosso país, talvez não seja tão difícil.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Manaus: propaganda e realidade

Ontem, em um dos intervalos comerciais noturnos da televisão, me deparo com uma propaganda da Prefeitura Municipal de Manaus enaltecendo os "avanços" da atual administração de minha cidade (onde nasci, onde cresci, estudei, tive oportunidades e onde minhas raízes estão fincadas, a princípio definitivamente, portanto, MINHA cidade, MEU lar). Como já estou, de acordo com o vocabulário popular, de saco cheio "até o talo" dessa publicidade oficial a la Pollyana, fiz como sempre: apenas olhei e fiquei aguardando o término.

Essa noite, porém, um personagem me chamou a atenção: um rapaz todo sorrisos dizia com orgulho (duvido que autêntico, pois, afinal, é propaganda) que sua (?) cidade havia mudado para melhor, e uma das coisas destacadas foi que os "motoristas paravam na faixa" para permitir a travessia dos pedestres tão logo eles davam o sinal - as faixas vermelhas instaladas em várias vias da capital amazonense, teoricamente para facilitar as travessias principalmente em ruas de tráfego intenso. 

Ora, já bastava ouvir um suposto universitário afirmando, em outra peça publicitária da Prefeitura, que finalmente podia entrar em ônibus novinhos em folha e que nunca estavam lotados. Isso talvez em um sonho, uma realidade alternativa, um universo paralelo ou seja lá o que for, não em Manaus. O outro rapaz falando em educação de motoristas foi o fim da picada!

Nos quinze minutos (em média) do caminho de casa para o meu trabalho, passo por várias dessas faixas. Em frente ao Fórum Henoch Reis, na rua Valério Botelho de Andrade, São Francisco, existe uma. Nas avenidas Maceió e Mário Ypiranga há outras (na primeira,existem duas no meu trajeto). São inúteis. Antes eu ia até essas faixas e ficava fazendo o gesto tão divulgado em outras propagandas oficiais (erguer o braço horizontalmente) para que os carros, a esse sinal, parassem para permitir nossa travessia. Posso dizer tranquilamente que dois a cada dez motoristas são educados o suficiente para tal ato. Os demais simplesmente o ignoram ou são terrivelmente idiotas a ponto de acharem que você está fazendo sinal para um táxi ou um ônibus (mesmo que você não esteja em uma parada). Houve uma vez, na avenida Maceió, que passei pelo menos cinco minutos naquela faixa até aparecerem dois motoristas conscientes que pararam e permitiram minha travessia. Cinco minutos é uma eternidade para quem quer atravessar uma rua! Com alguma sorte, quando há uma pessoa idosa ou mulher grávida, a sensibilidade desses motoristas se aguça e eles param devidamente (com alguma sorte, friso bem, porque a maioria, se a impunidade fosse maior do que já é, simplesmente atropelariam, sem remorso algum, qualquer pessoa).

Bom, agora voltei ao lado selvagem do trânsito. Não adianta me deslocar para essas faixas e perder tempo. O jeito é arriscar a vida atravessando em outros lugares, porque não vai fazer diferença. Daí o fato de o rapaz dizer que "os motoristas param na faixa" me fizeram, em bom português, "subir nas tamancas". Não critico a Prefeitura por querer mostrar seu trabalho, seja ele bem ou mal feito para nós. É o papel da propaganda, é o papel de todo administrador. Se falar na falta de educação do povo, vai ser malhado, pode esquecer reeleição ou qualquer outra coisa. O negócio é não mexer na ferida da ausência quase total de colaboração da população com o administrador municipal. 

Outro exemplo de como isso incomoda: a Prefeitura mostra o complexo da Ponta Negra lindo, perfeito, mas não mostra que uma cambada de porcalhões danifica o patrimônio público, joga lixo por todos os lados, ultrapassa os limites da poluição sonora. Isso deveria ser mostrado em campanhas ostensivas, fazer o babaca se enxergar nesses trabalhos de conscientização. Só dizer o que deve ser feito e o que não deve ser feito não basta. Mas pelas razões que expus anteriormente, para eles é melhor não mexer com o eleitor. Pelo menos é o que parece.

Opções? Vamos ver o que existe por aí:

1) semáforos para pedestres: é aparentemente a melhor ideia. O transeunte aperta o botão e espera o sinal vermelho para os condutores pararem, podendo, assim, fazer a travessia tranquilamente. Porém, há vândalos na cidade, vagabundos sem  noção de vida em sociedade. Se quebram uma "corujinha", como foi noticiado por esses dias, imagine esses semáforos de fácil acesso. Quando não é o vândalo, é o transeunte equivocado, que insiste em apertar o botão do semáforo várias e várias e várias vezes, a exemplo do cidadão que pressiona seguidamente o botão de chamada do elevador, como se isso fosse tornar o equipamento mais rápido. De tanto ser "amassado", o equipamento acaba pifando. Ainda há mais um efeito colateral: a retenção do tráfego em avenidas de grande movimento.

2) passarelas: alternativa mais segura, mas infelizmente ignorada por uma boa parte da população. Eles preferem ziguezaguear entre os carros a fazer um pouco de exercício subindo escadas ou rampas. Na avenida André Araújo, nas proximidades da Secretaria de Estado da Fazenda, é possível ver essa situação: pessoas se arriscando sob a passarela que poderia eliminar riscos de atropelamento. Depois que sentem no lombo o peso do veículo, querem culpar a Prefeitura, o governo, a Dilma ou o Papa. Claro, ninguém admite que é idiota, por maior que seja o tamanho de sua inconsequência.

3) educação para o trânsito: bem feita, mostrando a boa vontade em incentivar as pessoas a cumprir seu papel. Mostra como é possível haver civilização nas ruas de Manaus e como deve ser a participação de cada um - pedestre ou motorista. Surtiu efeito? Imediato, não, e também seria impossível. Mas não vejo sinais de que a longo prazo isso aconteça.

É, senhores administradores, a coisa está feia. Que tal algo mais radical? Em meu trabalho, cheguei a comentar que estava prestes a tomar uma atitude para fazer certas pessoas vestirem a carapuça da imundície: colocar no banheiro masculino do nosso andar (e conseguindo uma cúmplice para fazer o similar no banheiro feminino) uma placa com os seguintes dizeres: "Não transforme este banheiro em seu chiqueiro particular. Não jogue guimbas de cigarro nos mictórios nem deixe papéis-toalhas jogados sobre as pias" e outras coisas. Ou seja, nada de palavras bonitas ou eufemismos, mas sim que atinjam diretamente na essência os porcalhões, mostrando que há quem se importe, quem saiba como esses imundos são. E me referi a educação ambiental. No trânsito, a coisa é mais complicada, porque lida com tempo - as pessoas hoje vivem com pressa para tudo, mesmo sem razão aparente, e são egoistas a ponto de não ligar para regras e campanhas, como bem se vê.

Enquanto isso, a Manaus ideal só existe na publicidade - de certa forma, enganosa.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Estupidez sobre rodas

Trânsito é meu tema preferido, sobretudo quando é para, em bom dito popular, baixar o malho. Até que surja algum tipo de iniciativa que o coloque nos eixos, nada me resta senão falar mal, muito mal. 

Cada cidade brasileira tem sua peculiaridade no trânsito. Em Manaus, o caos aumenta a cada dia. Carros demais nas ruas, espaço de menos, falta de planejamento e temos estresse, barulho insuportável, congestionamentos, falta de educação, pessoas dirigindo pela contramão e acidentes acontecendo com frequência. 

Como se não bastassem os estúpidos das quatro rodas (ou mais, dependendo do veículo, que pode ainda ser um ônibus biarticulado ou um daqueles monstrengos mecânicos transportadores de contêineres), agora a turma das duas rodas resolveu entrar para o infame clube.

Explico a constatação. Hoje, a caminho do trabalho, deparei-me com uma cena inusitada: motoqueiros trafegando pelas calçadas. Não dirijo e não sou expert em legislação de trânsito, mas no meu limitado conhecimento sei muito bem que calçadas são feitas para pedestres, coisa aparentemente desconhecida para os infratores. Mas a esculhambação (não há expressão mais adequada) é tamanha e a falta de uma fiscalização mais rigorosa (e à prova de propinas ou "guaranás", como se diz aqui em Manaus) é cada vez mais gritante que os próprios condutores estão ditando as regras na capital amazonense. E são os maus motoristas que as ditam, os praticantes do famoso "jeitinho" para chegar mais rápido ao seu destino, incluindo-se aí dirigir pela contramão, fazer retorno em lugares proibidos, não respeitar a faixa de pedestres, trancar cruzamentos, fechar garagens com seu carro e ultrapassar ou fazer curvas sem sinalizar, só para citar algumas atitudes. Isso acontece todos os dias, em qualquer lugar de Manaus. E a cheia está aí para piorar ainda mais a situação.

A cena que descrevi acima aconteceu na rua Salvador, em Adrianópolis, entre as avenidas Umberto Calderaro e Mário Ypiranga, por volta das 7h. No último domingo, 3 de junho, presenciei algo mais revoltante ainda na avenida Constantino Nery, na altura do bairro São Geraldo: um sujeito fez retorno com seu veículo passando por cima do canteiro central, o qual já estava bem deteriorado. 

As desculpas para tentar justificar essas práticas infames são muitas, mas nunca condizem com a verdade, que é só uma: a maior parte dos motoristas de hoje são burros, preguiçosos e incrivelmente irresponsáveis, sem contar o descaso com o patrimônio público, como o do cidadão (se é possível considerá-lo assim) protagonista da segunda cena. Para piorar, o governo federal estimula a venda de veículos de todas as formas. Como se nas ruas brasileiras o que mais se carecesse fosse de carro para o povo. Povo mal educado, infelizmente.

Mais carros novos circulando, menos investimentos no sistema viário, mais aborrecimentos para pedestres e bons motoristas. E as novas gerações estão aí para aprender, como os filhos dos pais que, por preguiça pura, dirigem pela contramão na rua Natal, em Adrianópolis, para deixar suas crianças na escola, a poucos metros dali. Sem dúvida, é o futuro da nação.

sábado, 12 de maio de 2012

Povo imundo tem a desgraça que merece

Trabalhadores da Prefeitura de Manaus retiram lixo do igarapé do bairro São Jorge
(Foto: Clovis Miranda/Semcom/PMM)

Esta semana a atenção de todos foi chamada por fotos da cheia no Amazonas, com cidades do nosso interior sendo lentamente cobertas pelas águas dos rios. Na capital amazonense, a situação não é muito diferente, guardadas as devidas proporções, mas fotografias como essa que reproduzo aqui, de autoria do repórter fotográfico Clovis Miranda, da Secretaria Municipal de Comunicação da Prefeitura de Manaus, revelam o auge de um problema que nos afeta há décadas, apesar de todos os esforços para resolvê-lo ou minimizá-lo: a falta de educação (para não dizer de civilização, mesmo) de parte da população.

No Facebook, uma colega jornalista comentou que, durante a operação de retirada do tapete de entulhos que praticamente ocultou os igarapés da cidade (principalmente garrafas pet e até mesmo eletrodomésticos velhos), vários moradores dos diversos cortiços às margens dos cursos d'água aproveitaram o trabalho dos garis para jogar seu próprio lixo na água, a fim de que fosse coletado. É a mentalidade do porcalhão preguiçoso: gosta de viver na imundície, polui tudo e não age corretamente para dar a destinação correta ao lixo que produz. Mais fácil para esse tipo de gente é sujar tudo, pois, em sua visão, há quem seja pago para fazer a limpeza pública. Só não passa por essa mente distorcida que sujeira acumulada pode ser carregada para outros lugares por animais de rua, transeuntes desastrados ou vândalos, chuva, vendavais ou veículos que trafegam na área (acidental ou propositalmente). O destino muitas vezes é o igarapé que recebe o esgoto da cidade. Os igarapés transbordam na cheia e o lixo contribui para, durante uma tempestade, afetar as estruturas dessas casas, causando seu desabamento e todas as fatalidades típicas de acontecimentos dessa natureza.

Fica difícil executar qualquer trabalho de conscientização ambiental quando nos deparamos com atitudes sem noção. As escolas podem incluir a questão nos seus currículos, as autoridades podem espalhar outdoors, caixas de coleta seletiva, espalhar folders, camisas de campanha educativa, mostrar com as tragédias quais as atitudes corretas a serem tomadas para o descarte do lixo e o respeito ao meio ambiente. Aí, a mentalidade do porcalhão acaba prevalecendo: as crianças são repreendidas pelos pais que não dão a mínima para o meio ambiente, outdoors são ignorados, caixas de coleta são destruídas por vândalos (quando não são roubadas), folders são jogados em via pública para se juntarem ao lixo acumulado, camisas viram pano de chão (ou usadas por flanelinhas para serem descartadas em via pública) e as potenciais vítimas de sua própria imundície preferem cobrar ajuda da prefeitura. Como se a administração municipal tivesse obrigação de bancar a babá dos imundos.

A equação fica de difícil resolução, pelo que se vê. E os fatores não são pessoas pobres, de baixa instrução. Se formos acompanhar friamente todos os elementos que participam dessa "Operação Sujismundo", veremos pessoas "bem nascidas", até mesmo ricas, dando sua parcela de contribuição, desde os molecotes e patricinhas que vão para a balada e jogam latas ou garrafas de bebida pela janela de seus carros até os que participam de raves e deixam o lixo acumulado a poucos metros dos lugares onde deveria ser jogado, passando pela dondoca que, do seu iate de milhares de reais, joga sacos, copos descartáveis e enlatados no rio.

A questão de respeito ao meio ambiente deixou há muito tempo de ser de classe social. Agora, com tantas campanhas de esclarecimento, com iniciativas para mudar esse quadro, o problema é de simples uso da inteligência, de QUERER ser educado. Quanto menos racional/educado se for, mais imundo você é. Quem se recusa a ser educado, merece ser arrastado pelos entulhos que joga na rua. Povo porcalhão merece a tragédia que ajudou a iniciar. A solução? Vamos radicalizar! Quando a legislação endurecer, até com prisão desses porcos, aí talvez as coisas comecem a melhorar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Manaus merece isso?


Hoje é dia de comemorarmos os 342 anos de Manaus. A comemoração, no entanto, não pode se limitar ao Boi Manaus e ao espetáculo surreal da inauguração da ponte Rio Negro (palcos, shows e uma lista extensa de convidados "ilustres" - uma combinação que ainda não se ajustou bem em minha pobre cabeça).

Temos muitos motivos para comemorar e para refletir. A ponte Rio Negro, tão criticada (nem tanto pelas altas cifras de seu custo ou pelos aparentes erros em sua concepção estrutural - do qual a famosa "pracinha da avenida Brasil" foi o exemplo mais claro -, mas sim pela sua utilidade), é um momento novo de integração que vai facilitar a vida da população da Região Metropolitana. Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, principalmente, deverão estar alertas para investir sobretudo em seus potenciais turísticos.


Na outra margem da ponte, já em Iranduba, quero vislumbrar uma orla bem cuidada. Nada daqueles inferninhos barulhentos e imundos que empestavam o Cacau Pirêra, aquilo, sim, uma vergonha que nunca recebeu um investimento decente e muito menos preocupação ambiental dos residentes. Sinceramente, merece desaparecer da maneira que estava. Mas nem tudo está perdido ali, porém isso é outra história.

Temos que comemorar o fato de Manaus estar "bem na fita" entre as demais capitais brasileiras. Hoje somos a nona (corrijam-me se estiver enganado) cidade mais populosa do País e uma das mais ricas. Há muitos investimentos surgindo na cidade em diversos ramos, mas sobretudo no imobiliário.

As comemorações, por enquanto, terminam aí. Hora de refletir sobre os problemas que temos e o que cada um está fazendo - ou não - para mudar o quadro. Nosso trânsito é péssimo. Temos um sistema viário que não comporta o fluxo da devida maneira - os "complexos viários" construídos acabaram não dando tanta vazão como deveriam a isso (sem contar que um dos primeiros, no cruzamento das avenidas Constantino Nery e Senador Álvaro Maia, não correspondeu ao projeto inicial e tem uma característica ímpar de possuir semáforo). Temos muitos carros, pouca educação no trânsito e irresponsabilidade para dar e vender. Para muitos motoristas, respeitar a sinalização, não entrar pela contramão (nem que seja rapidinho), estacionar somente nos lugares adequados, dar a vez a pedestres, ser cortês com outros motoristas, dirigir sem afobação... tudo isso parece soar como ofensa, como imoralidade, e mais vale o risco de pegar uma multa, atropelar alguém ou sofrer um acidente. Manaus merece isso?

Na parte ambiental (e nisso vou incluir a limpeza pública, pois há uma relação entre ambas), se por um lado temos bons exemplos como o Parque Senador Jefferson Peres, o Parque dos Bilhares e os postos de coleta seletiva, por outro temos o vandalismo e a falta de educação da população. Ontem, apanhei um ônibus para ir ao Manaus Plaza Shopping, e vi uma família (pai, mãe e filhinho) dentro do coletivo saboreando picolés. Eu imaginei o que viria a seguir: palitos e embalagens foram jogadas pela janela, em via pública, sem um pingo de remorso. Somente balancei a cabeça, pois pela própria forma de se expressar reconheci ali uma família para a qual viver na imundície era algo que pouco importava. E é assim que muitos manauenses pensam, infelizmente. Há lixeiras instaladas na cidade, mas a preguiça e a falta de conscientização são tão grandes que tais pessoas jogam lixo em qualquer lugar, pois, em sua visão distorcida de responsabilidades, sempre há alguém designado para fazer a limpeza. Esquecem-se de que os profissionais dessa área não são serviçais de cada um dos moradores, portanto não podem ficar atrás de cada porcalhão desses como um dono de cachorro que sai para passear com seu bichinho levando uma pazinha e um saquinho para recolher seus dejetos. Manaus merece isso?

Temos belas praias fluviais em nossa cidade e balneários agradáveis nas estradas e na zona rural da capital. Mas nem lá o vandalismo e a falta de educação ambiental deixam incólumes. Pior de tudo é ver que há conivência dos que exploram o lugar, que não tomam uma atitude mesmo quando cobram uma "taxa de manutenção". A Cachoeira do Leão, na rodovia AM-010, de acesso gratuito, é um exemplo. Muitos dos frequentadores jogam latas de bebidas e restos de comida ao longo do igarapé, mesmo havendo lixeiras instaladas em vários locais de fácil acesso. No quilômetro 12 da rodovia BR-174, uma taxa de R$ 5 é cobrada por veículo, mas onde a sujeira é jogada, lá permanece. Bela visão para turistas. Manaus merece isso?

Voltando aos parques, a iniciativa foi muito boa, pois Manaus carecia de espaços públicos. Praças foram reformadas, voltaram a ser pontos de reunião de famílias para passeios e programas leves. Mas ainda são atacadas pelos porcalhões e vândalos. Na extensão do Parque Jefferson Péres, no Bittencourt, alguns quiosques estão escancarados, um convite para a vagabundagem destruir ou usar para fins nada corretos. Por todos os lados, há garrafas, copos e outras coisas jogadas a apenas alguns metros das lixeiras instaladas. No Mestre Chico, a bela ponte de ferro ainda estava às escuras, pois pessoas sem caráter roubaram a iluminação e fica tudo por isso mesmo. O Parque Jefferson Péres escapa ainda um pouco do vandalismo porque é cercado, então os marginais têm que procurar outra freguesia ("um pouco" porque um dia desses, caminhando por lá, percebi que algumas luminárias mostravam pequenos danos, como se os vagabundos tivessem tentado arrancá-las). Assim deveria ser com os demais. Como podemos mostrar nosso patrimônio aos turistas se há descaso e depredação? Manaus merece isso?


Temos problemas como toda cidade, claro. Transporte público ruim e digno de suspeitas. Sujeira nas ruas. Falta de zelo com o patrimônio. Poluição. Estupidez. Vamos esquecer tudo no Boi Manaus? Melhor não. Ali também, com certeza, houve depredação, pois infelizmente festas assim também atraem o degrau mais baixo da escória humana - aqueles que não têm respeito pela vida dos outros, pelos direitos do próximo e pelo seu próprio patrimônio. Manaus merece isso? Você pode apostar que não!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Educação no trânsito é possível?

A educação no trânsito sempre foi um assunto muito importante, portanto nada mais adequado que seja aquele sobre o qual escrevo após esse hiato de mais de um mês no blog por questões de trabalho.

O trânsito em Manaus é uma peculiaridade: não existe respeito algum às leis, a maioria dos motoristas faz o que bem entende nas ruas e a fiscalização é pífia. De fato, não existe rigor, há somente o famoso "jeitinho" e muita, mas muita propina (por aqui metaforizado pelo termo "guaraná") para que quem fiscaliza seja tomado de uma súbita cegueira momentânea.
Campanhas de educação vem e vão, mas a avacalhação (termo bem adequado ao trânsito de nossa capital) parece piorar. Em várias avenidas da cidade foram pintadas faixas de pedestres sobre um fundo vermelho. A função seria semelhante aos dos sinaleiros para pedestres: botou o pé na faixa, os veículos devem parar para permitir a travessia do pedestre. Claro que isso acontece, mas após um bom tempo de o pobre transeunte ter se posicionado no espaço ao qual lhe foi dado direito. Obviamente que não esperamos que haja freadas bruscas, mas mesmo os motoristas que percebem de longe que pessoas vão atravessar a avenida fazem vista fraca e avançam, assim mesmo. Azar do pedestre que achar que um retardado desse tipo vai realmente ser educado ao ponto de parar e lhe dar passagem. Eu testemunhei esse descaso. Depois que uns 20 carros passam pela faixa, apareceram motoristas realmente civilizados parando decentemente para eu poder atravessar.

Próximo ao meu trabalho existe uma rua de mão única, a rua Natal, que liga duas das principais avenidas de Manaus, a Umberto Calderaro e a Mário Ypiranga. Muitas vezes vi carros vindo pela contramão. São pais que vão deixar seus filhos na escola que fica naquela área, retardados e preguiçosos para dar a volta mais adiante para pegar o sentido correto do trânsito e que abusam do "jeitinho" para economizar uma merrequinha de gasolina. Fico imaginando o que esses pais dizem aos filhos pequenos para justificar a palhaçada. Pensem agora na formação desses futuros motoristas, posto que os pais sempre são exemplo de comportamento, mesmo o péssimo.

Quando me refiro a esses péssimos motoristas como retardados, não estou fazendo xingamento gratuitamente. Existe termo mais adequado a quem é acostumado a burlar as leis e a fugir das regras estabelecidas? Fico pensando em como esse tipo de gente conseguiu tirar sua habilitação e questiono mais ainda os tipos de exames aos quais os candidatos são submetidos. Não são eficientes o bastante, e basta vermos o péssimo comportamento de milhares de condutores em Manaus para confirmar isso.

Além desse problema de desrespeito às normas do trânsito, ainda há a questão da falta de bom senso. São idiotas que dirigem com som extremamente alto até mesmo em horários impróprios, como madrugada e nas proximidades de hospitais. Onde aprenderam isso? Esse tipo de gente deveria ser tirado de circulação, impedido de dirigir pois mostram sua total incompetência para conduzir um veículo de forma civilizada, respeitando os outros motoristas, os pedestres e todas as pessoas que querem uma convivência tranquila. Sim, isso é possível em uma cidade com quase 2 milhões de habitantes. Basta ter o mínimo de bom senso e extrema boa vontade.

domingo, 15 de maio de 2011

Onde Manaus errou?

Li no Facebook alguns posts do colega jornalista Cláudio Barboza sobre suas andanças em Belo Horizonte, enaltecendo algumas características da capital mineira de nos fazer inveja. Só para citar uma deveras importante: ruas sem buracos.

Belo Horizonte tem quase 4 milhões de habitantes. A população de Manaus, oficialmente, é quase metade disso. Não conheço Belô ou Belzonte, como é chamada carinhosamente, mas depois do que o Cláudio escreveu, é uma cidade que está na lista das 15 cidades brasileiras que devo conhecer antes de morrer (é, a onda agora é fazer essas listas "pré morten").

Voltemos a Manaus. Capital mais populosa da Região Norte (e da Amazônia Legal), bons indicadores industriais, (ainda) futura subsede da Copa do Mundo de 2014, importante polo industrial, uma verdadeira clareira de concreto na selva, algo que teoricamente implicaria em um excelente polo turístico da grife Amazônia. É uma teoria que ainda não avançou muito, devo acrescentar.

Muitas ruas são esburacadas, o sistema viário é sofrível, o trânsito é caótico (também por culpa dos péssimos motoristas que temos, e não são poucos) e o sistema de transporte coletivo é tão ridículo que, sinceramente, propor rodízio de veiculos é uma proposta completamente inviável. Constroem viadutos que logo se mostram inúteis, pois agilizam o tráfego em um ponto para torná-lo absurdamente lento mais adiante. Os pedestres sofrem, porque mesmo com a implantação das faixas para travessia, precisam se arriscar a serem atropelados por motoristas que parecem ter comprado a habilitação pela internet, porque não respeitam a faixa, param sobre ela, estacionam em lugares proibidos, trancam garagens e vagas de estacionamento (como na foto do post) e assim por diante.

Campanhas e mais campanhas são feitas, mas não vejo resultados. Volto a defender uma solução mais radical, repressiva mesmo, porque nem mesmo direcionar esses trabalhos para as crianças pode resolver isso no futuro. Exemplo: um dia desses, caminhando para o trabalho, passei pela rua Natal, em Adrianópolis, uma via de acesso mais rápido ao Fórum Henoch Reis. É uma rua de mão única, sentido avenida Umberto Calderaro - avenida Mário Ypiranga. Ali há também uma entrada para uma escola infantil, então muitos pais deixam suas crianças ali. Pois nesse dia, vi estupefato um senhor entrar pela contramão para deixar seus dois meninos, por pura preguiça de pegar o devido retorno mais adiante e seguir pela rua Natal pelo modo correto. Aí eu penso que tipo de exemplo aquele homem (não posso chamá-lo de cidadão) está dando para as duas crianças. Talvez em uma aula sobre educação no trânsito elas contradigam a professora quando o assunto for cuidados nas avenidas e ruas de mão única. Se o dito elemento tivesse sido parado, multado e até mesmo preso, creio que essas crianças veriam a magnitude da irregularidade cometida pelo pai. O mau exemplo dado pelos pais fica inculcado nesses pequenos representantes do nosso futuro.

Em se tratando da estrutura, dá vontade de chorar. Boa parte das ruas de Manaus ou tem buracos ou tem deformações no asfalto semelhantes a lombadas mal feitas. Não há carro que aguente. O início da avenida São Jorge, no bairro de mesmo nome, é um exemplo desse último caso. Você passa por ali com a impressão que está numa lancha que pegou um banzeiro. Vemos tapa buraco por todo lado, mas é um serviço inútil, como veremos mais adiante quando a cratera ressurgir.

Nunca investi um tostão nos meus quase 25 anos de trabalho para comprar um carro, porque nunca consegui aprender a dirigir. Vendo tanta barbeiragem, tanta imbecilidade na atitude dos motoristas em um sistema viário pobre, acabei criando um bloqueio. Não que eu precise atualmente, pois praticamente moro ao lado do meu trabalho, não sou de baladas e só quero sossego. Como já disse a um amigo meu, se eu dirigisse em Manaus, ou morreria de ataque cardíaco ou seria preso, porque minha tolerância com gente mal educada, oportunista e sem consciência já foi extinta há eras! Quando estou de carona, meus amigos percebem minha tensão permanente, só aliviada quando chego ao meu destino.

Eu me pergunto: por que isso ainda acontece? Por que as campanhas não dão resultado? Por que, a cada administração, o problema do trânsito como um todo nunca é solucionado? Por que a cidade parece ter mais carros do que gente atualmente mas isso não é levado em consideração para tentar mudar o panorama do sistema de transporte público? Como seremos vistos se essas coisas permanecerem assim até a Copa de 2014? E estou falando apenas de trânsito e sistema viário... Só isso basta para tentarmos descobrir onde Manaus errou.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Vale a pena trabalhar no Judiciário?

Quando fiz o concurso público para o cargo de assistente judiciário no Tribunal de Justiça do Amazonas, em 2005, fui motivado pela necessidade de um trabalho fixo e seguro, já que comecei a ficar saturado e desmotivado com o “andar da carruagem” no jornalismo amazonense – um quadro que havia mudado muito desde que nele eu ingressara, em 1995, ainda estudante, tendo se tornado um meio de disputas desonestas, intrigas de colegas e beneficiamento de pessoas sem qualificação mas com uma “invejável” capacidade de “babar ovos”. O salário, para um homem solteiro, era – e ainda é – um atrativo à parte. Valia a pena arriscar? Trabalhar no Judiciário?

Desde que assumi minhas atividades em junho de 2007, participei de um momento especial. Fui o segundo funcionário da recém criada 9ª Vara Criminal, hoje o segundo mais antigo do quadro do Juízo. Em reconhecimento ao meu trabalho, fui indicado e ganhei uma função de assistente da diretora da vara, devidamente remunerado. Na parte financeira, não tenho do que reclamar, pois com tantos problemas  o Judiciário conseguiu aos poucos resolver uma série de pendências em relação aos seus funcionários.

Ainda temos muitas questões a resolver – a virtualização total das varas, uma meta perseguida há tanto tempo e ainda não integralmente implantada no TJAM e que seria fundamental para a agilização na tramitação processual e até mesmo da organização estrutural dos cartórios; a reestruturação física para termos um ambiente adequado de trabalho; a informatização integral das comarcas; e por aí vai. O que temos já é um avanço, considerando-se a situação encontrada quando ingressei no Tribunal em 2007: um cartório com poucos funcionários, processos se acumulando por falta de pessoal para auxiliar, falta de controle dos prazos, ausência de capacitação e outros.

Aí começaram as “porradas”: apesar de termos nosso horário estabelecido legalmente em seis horas diárias, passamos a trabalhar uma hora a mais, pois isso, segundo a visão do Conselho Nacional de Justiça, ajudaria na celeridade do Judiciário. Sete horas diárias sem direito a uma compensação salarial, pois conforme nosso Plano de Cargos e Salários, se por necessidade do trabalho o servidor permanecer além da carga normal, teria por direito o acréscimo de 25% no salário sobre o vencimento. Isso nunca aconteceu e certamente nunca vai acontecer. O Tribunal Pleno vai se reunir para decidir a nova investida do CNJ para “modernizar” a Justiça: o novo aumento da carga horária para os trabalhadores do Judiciário, que agora deverão trabalhar das 9h às 18h, “no mínimo” - espero que vejam que este horário já é seguido de 8h às 18h, sendo em esquema de plantão a partir das 15h (já o era antes, quando o horário era até as 14h. Enquanto isso, os problema estruturais do TJAM (e dos demais tribunais estaduais, diga-se de passagem) permanecem sem solução.

Não sei em que o CNJ se baseia para achar que aumentar a quantidade de horas trabalhadas vai ajudar a acelerar o Judiciário se a nossa estrutura continua problemática. Tomo como exemplo a 9ª Vara Criminal: temos quatro audiências por dia, mas é raro o dia em que todas acontecem. Por várias razões, há fracassos: os oficiais de Justiça estão sobrecarregados e não têm tempo para cumprir em tempo hábil as intimações; no caso de conduções coercitivas de testemunhas (aquelas que foram devidamente intimadas mas deixaram de comparecer ao ato injustificadamente, sendo agora levadas pelo oficial para a audiência), não há carro disponível para o cumprimento da diligência; as testemunhas deixam de comparecer quando são intimadas; os advogados não atendem as intimações; e uma série de outras causas que independem da boa vontade dos servidores.

Boa vontade, sim! Trabalhar no TJAM para mim foi encontrar uma forma melhor de ser útil, contribuir com a agilidade do Judiciário. Pelo menos em nosso cartório, os processos fluem normalmente porque as tarefas são bem divididas e há comprometimento, algo até estranho – para não dizer surreal – quando se trata de serviço público.

A questão do horário está em discussão no Tribunal Pleno. Vamos ver se, a exemplo do que tem acontecido até agora, essa imposição do CNJ vai ser aceita passivamente e sem questionamentos (apesar de o quadro de servidores demonstrar contentamento com essa possibilidade de aumento da carga horária) ou se, em uma atitude mais racional, o TJAM se recusará a atacar o problema pelo lado errado. Afinal, como se tem discutido nos corredores das unidades do nosso Judiciário, em nada a Justiça terá melhorias com funcionários sobrecarregados de trabalho mas ainda sem condições adequadas. Servidores insatisfeitos e falta de estrutura adequada vão resultar em uma Justiça mais ágil? Talvez somente na estranha equação do CNJ...

Depois de passada essa fase de tempestade, voltarei a perguntar: vale a pena trabalhar no Judiciário?

sábado, 26 de março de 2011

O outro lado (igualmente ruim) da moeda

Manaus ganhou destaque na mídia com o caso do adolescente agredido e baleado por policiais em agosto do ano passado. Coisa triste, retrato de um país que não consegue combater a criminalidade pelo fato de ela estar presente justamente no meio que tem por obrigação proteger a população e manter a ordem.

Aí vem o outro lado da moeda: em matéria no jornal "A Crítica", um promotor informa que, segundo a família do rapaz agredido e ferido, o mesmo não era "nenhum santinho". Consta, inclusive, que o jovem de 14 anos já teria um homicídio de outro adolescente nas costas. O nobre promotor apenas retratou uma nova situação exposta pelos familiares, mas, certamente, para muitos o delinquente apenas teve o que mereceu.

Não adianta falar em direitos humanos ou que, por mais criminoso que fosse, o rapaz não merecia ser abordado e praticamente massacrado daquela maneira. Chegamos a um ponto tal de convivência com a certeza da impunidade que beira a selvageria. Não confiamos na eficiência da segurança pública, daí a justiça pelas próprias mãos e atitudes mostradas como a dos policiais serem até mesmo aplaudidas.

Esses dois lados da história são ruins. De um lado, policiais que podem abordar e agredir qualquer um pela mínima suspeita. Sinceramente, não creio que sejam punidos. Expulsá-los da Polícia Militar só vai aumentar os números da criminalidade. De repente podem se tornar pistoleiros, seguranças de traficantes. O bom seria que pagassem pelo que fizeram e seguissem adiante em uma vida honesta. Há esperança para tudo. Mas há muita coisa nisso que renderia uma bela série de reportagens - falta de incentivo, maus critérios para seleção, inexistência de condições de trabalho e assim por diante.
Do outro lado, o fato de o jovem supostamente já ser enredado no mundo do crime. Temos certeza da impunidade, porque o adolescente infrator é protegido por lei e pela maioridade penal. Em breve, se realmente for um criminoso, estará de volta à "ativa", transtornando sua família e aumentando a insegurança. E seu destino será, com certeza, o de vários adolescentes arrastados para a criminalidade: uma sepultura de indigente, no mínimo. Por isso acontecem os aplausos a uma atitude como aquelas dos policiais.

Despreparo para lidar com o crime, de um lado, e impunidade que pode incentivar a criminalidade, do outro. Por isso aquele famoso adolescente de São Paulo tem tantas passagens por delegacias e continua encantando com o submundo do crime. Há algum tempo, houve uma discussão sobre a diminuição da maioridade penal. Por que esse silêncio todo agora?

Amazonas e Piauí: vítimas da ignorância brasileira

Recentemente, as redes sociais mostraram seu poder de repulsa dos seus membros em dois episódios de total aberração cultural. A pérola amplamente divulgada no You Tube do jovem Thomas, do grupo Restart (mais um grupelho de visual bizarro, uma mistura de emo, Teletubbies e letras cheias de lugares comuns e com destino – espero que rápido – ao ostracismo, como qualquer modismo), sobre gostar de fazer um show “em” Amazonas (sic) mas sem saber se aqui no Estado havia civilização causou uma onda de aversão tão grande dos amazonenses que nem mesmo uma retratação (mais tosca do que a infeliz declaração) ajudou, e o show do grupo, programado para 1º de abril próximo em Manaus, foi cancelado. A empresa promotora divulgou uma nota ligando a decisão ao receio de manifestações prejudiciais à integridade física do grupo, mas corre a boca pequena que, na verdade, o fracasso nas vendas de ingressos seria o real motivo.

O segundo episódio, do qual tomei conhecimento ontem pelo Twitter, aconteceu quando um comediante chamado Marauê Carneiro se referiu ao Piauí como o “cu do mundo” no Facebook. A mesma fúria tomou conta dos piauienses nas redes sociais, tendo como consequência o cancelamento do show do tal comediante em Teresina e uma nota de repúdio de um parlamentar daquele Estado. Nem mesmo dizer que a frase jocosa era de autoria do comediante Juca Chaves foi remédio. Os tempos são outros. Fazer troça dos irmãos brasileiros agora é coisa séria.

Parece incrível que Norte e Nordeste sejam sempre vítimas desse tipo de coisa. No Norte, somos chamados de incivilizados, vivemos no meio do mato, compartilhamos espaços com jacarés e onças e coisas do tipo. No Nordeste, os habitantes são batizados de preguiçosos, cabeças chatas, subdesenvolvidos e por aí vai. Como alguém citou no Twitter, existe uma “sudestelização” (mais ou menos assim é a expressão), onde o conceito de desenvolvimento é bastante equivocado.

Na região Norte, temos a maior floresta tropical, uma fauna exuberante e uma natureza maravilhosa, apesar de não sabermos ainda explorar esse potencial turístico (coisas de políticas públicas, mas um dia o passo acerta). Quem dera dividíssemos espaço pacificamente com onças, jacarés e outros animais. Melhor que dividir com ladrões, traficantes, corruptos e maus policiais, porém isso é uma utopia. O Norte é assim. O Brasil é assim. Quando somos chamados de índios, o fato em si não é o que causa revolta – pelo menos no meu ponto de vista. A História mostra que os indígenas tiveram suas terras roubadas, ou seja, o Brasil começou a partir de um crime. Eles são os verdadeiros donos da terra. São os antepassados de milhões de brasileiros, então não haveria sentido em nos sentirmos ofendidos com isso. O que ofende é a forma jocosa como usam o termo. E depois surge das trevas da “jumentice” um garoto deslumbrado com a fama declarar sua burrice em público (o que é pior, cometeu uma gafe que nem a entrevistadora fez menção de corrigir ou refutar – talvez fosse tão burra quanto ele) e achar que somos igualmente burros ao falar de uma “edição mal feita” no vídeo. Pelo visto, pela falta de cultura, o nível de desenvolvimento educacional do híbrido emo-teletubbie não indica nenhum pouco de civilização. Como eu perguntaria ao meu amigo jornalista Luiz Otávio Martins, “de que pântano isso surgiu?”.

O caso dos nossos irmãos piauienses é um pouco diferente na forma da agressão, mas tem a mesma essência da falta de respeito. O Piauí tem povo trabalhador como em qualquer outro Estado, tem lugares que valem a pena ser conhecidos (como em todo o maravilhoso Nordeste) e possui habitantes extremamente cordiais (não conheço ainda o Estado, mas declaro isso com base no que conheço dos nordestinos – um povo incrivelmente hospitaleiro, pacífico e animado. Tenho conhecimento de causa porque sou filho de cearenses que chegaram ao Amazonas sem nada, fugindo da seca e do descaso com aquela região, batalharam e criaram família sem nunca esquecer suas raízes ou fazer pouco caso do lugar que os acolheu). Se realmente Juca Chaves usou a infeliz expressão divulgada pelo tal ator, foi em um tempo em que esse tipo de galhofa não era tão repercutida. Não havia redes sociais nem interação imediata entre as pessoas.

Restart e Marauê (que nome, hein?) sentiram o efeito “Twitbook” de sua ignorância. Todos os que se manifestaram nas duas situações, seja de forma cautelosa ou revoltada, merecem parabéns. Para o garoto do primeiro, é bom levar a sério os estudos. Para o segundo, recomendo buscar uma linha de humor mais inteligente. A força das redes sociais deve ir mais além, pois além dos preconceitos, há também os erros, injustiças e atos corruptos que merecem ser repudiados, precisam gerar uma ação coletiva, algo exemplar como o que aconteceu no Egito. O caso dos “artistas” ignorantes pode parecer uma futilidade brasileira, mas pelo menos é um começo. Falta cada um reconhecer em si esse poder de mudança.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O fascinante e curioso universo da canalhice

Jornalista Márcio Vieira lança no próximo dia 9 de abril seu livro "Teoria do Canalha", na Livraria  Valer

Por César Augusto

A infidelidade masculina tanto é criticada quanto incompreendida. É essa compreensão que o jornalista Márcio Vieira, 32, buscou ao escrever "Teoria do Canalha" (editora Valer, 81 páginas, R$ 10), a ser lançado na livraria Valer - rua Ramos Ferreira, 1195, Centro - no próximo dia 9 de abril, às 10h.

Apesar dos arrepios que o adjetivo pode causar no sexo frágil (?), não se trata de um guia ou uma obra que exalte a infidelidade do homem, como bem o frisou o autor. "É uma investigação cômico-filosófica que busca investigar os motivos e fundamentos de homens infiéis, identificados como canalhas, a partir de observações cotidianas", explica Márcio. "Busquei abordar o tema de uma forma teórica, procurando identificar os fatores que contribuem para a formação de um canalha e ainda tentando mostrar o ponto de vista desse grupo humano frequentemente criticado, mas raramente compreendido historicamente", afirma.

Foi na Psicologia que o jornalista buscou o seu referencial teórico e em autores como Michel Foucault ("História da Sexualidade") e Ana Beatriz Barbosa Silva ("Mentes Perigosas"), além de revistas especializadas e filmes.

Até o ponto final em "Teoria do Canalha", houve uma série de pesquisas iniciadas em 2006 e conversas diretamente com a "fonte" do tema. "Conheço muitos [canalhas], embora eu não seja um deles", adverte, aos risos. Foi na própria família que Vieira buscou a inspiração. "Meu pai tinha duas famílias e pelo menos três amantes que eu me lembro, quando era pequeno", conta. O pai de Márcio Vieira já faleceu, mas seus familiares aprovaram a ideia. "Minha mãe gostou bastante. Meus irmãos aprovaram a iniciativa, porém não se envolveram", conta.

O fato de um assunto de família gerar um tema de estudo poderia ser uma espécie de "exorcismo"? Para Vieira, talvez sim. "Sempre me intrigava o comportamento do meu pai. Por isso decidi estudar o assunto, porém procurei apresentar um livro ao alcance de todos", afirma. "Não se trata de um ensaio sobre psicologia. É um estudo mais secular, nada sofisticado, por isso também dou um tom de humor", acrescenta.

Como dificuldade nos aproximadamente quatro anos de elaboração da obra, Márcio Vieira cita apenas a falta de literatura sobre o assunto na forma no qual foi abordado. "Não se trata de um manual. É um ensaio, uma impressão sobre o fenômeno 'canalhista'", frisa. Resistências a um assunto assim? Claro, era de esperar quando se trata de infidelidade masculina, mas nada preocupante ou desestimulante. "Apesar de o tema suscitar um machismo inevitável, poucas mulheres não têm uma história para contar sobre seus desenganos e decepções sentimentais", aponta.

Aprofundamento
O envolvimento com um assunto de certa forma delicado aprofundou bastante o conhecimento de Márcio Vieira. "Vi que o comportamento do homem canalha heteroerótico envolve uma série de variáveis biológicas e culturais. Também percebi que muitas vezes nós, homens, somos muito cruéis e injustos com nossas companheiras. Temos que ter mais respeito pelas mulheres", declara.

"Teoria do Canalha" é o segundo livro de Márcio Vieira, mas o primeiro lançado no mercado. O primeiro, "Reston: o Mecenas do Empreendedorismo", de 2008, foi um resgate da história do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Amazonas e de um de seus fundadores, o empresário e economista José Carlos Reston, e ficou restrita ao sistema Sebrae no Brasil.

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e com passagens pelo jornal Diário do Amazonas e assessorias de imprensa diversas, Márcio Vieira é funcionário do Sebrae Amazonas desde 2007. Após a "Teoria...", está escrevendo um romance ambientado na periferia de Manaus, trabalho iniciado em 2006 mas agora em fase de conclusão. "Dei uma parada para fazer algumas pesquisas sobre violência urbana e li alguns livros reportagem para ter mais elementos de linguagem e simbólicos à disposição".

(Fotos: Divulgação)

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...