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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O grande vácuo de 2020

Para mim, 2020 acabou em março. Mais precisamente no dia 22 de março, quando depois de uma situação de medo provocada pela pandemia de covid-19 antecipei o fim da viagem que estava fazendo de férias ao sul do país (e que narrei em postagem aqui no blog) em uma semana e, após muita tensão, voltei a Manaus.

De lá para cá, o ano virou um grande vácuo. Nada aconteceu normalmente. Aliás, parece que nem aconteceu no nível da minha vida pessoal. Fiquei em home office até outubro, uma sorte que infelizmente nem todos os trabalhadores tiveram. Para encontrar os amigos, somente reuniões por bares virtuais que foram bacanas mas não vingaram depois. Muitas pessoas queridas perdendo a batalha para o coronavírus enquanto os negacionistas e os que minimizam a praga espalharam boatos ridículos, distorceram informações e agiram como criminosos em aglomerações que ajudaram a voltarmos aos poucos ao mesmo patamar do pior momento da pandemia.

Pensando hoje nisso, sinto um grande vazio entre aquele 22 de março e agora. É realmente como se o ano tivesse nunca existido. Um final de década (ou início de outra?) bem deprimente para quem em 2019 tinha tantos planos.

Como voltar à normalidade? Isso seria possível se todos tivessem consciência em seus comportamentos e não agissem como egoístas.

Voltei ao trabalho presencial no início de outubro, mas com restrições ainda no atendimento: funcionamento interno, acesso restrito do público apenas para audiências, sem acompanhamentos desnecessários, uso de máscaras e disponibilização de álcool em gel. Tem dado certo até agora sem maiores incidentes.

Mas o que ainda testemunhei: pessoas achando que por já tem ficado doentes poderiam agir normalmente sem usar máscaras, outros se vengloriando de participar de festas clandestinas, outros usando o ridículo e nojento argumento de que "toda pessoa agora só morre de covid" (aqui um total desrespeito e falta de empatia com a dor de quem perdeu pessoas queridas para esse vírus).

Em julho, perto do final do mês, fiz minha primeira saída de casa para visitar meus compadres, que haviam perdido a filha mais velha de 23 anos para o covid. A partir daí, consegui colocar alguma normalidade na minha rotina com reuniões eventuais sem aglomeração (máximo de cinco pessoas, comigo incluso) em espaços abertos, distanciamento e uso frequente de álcool em gel, tapetes com água sanitária e álcool líquido borrifado em roupas e cabelos, todo o tipo de segurança que daria para permitir o retorno a um pedaço do que era nossa vida antes da coronacrise. Entretanto, ninguém quer agir assim: o que importa é ir para lugares lotados, sem uso de máscaras, esfregando-se uns nos outros, rindo sobre milhares de cadáveres (milhões em nível mundial), levando o vírus para outras pessoas. Aí em supermercados vejo gente sem máscara ou com máscara segurando a queixada (de burro), ou mesmo pendurada na orelha ou com o nariz de fora. Sem contar quem não respeita a distância nas filas ou leva toda a família para as compras (nunca vi necessidade disso).

Em 2020 o nosso mundo somente piorou. O vácuo engoliu aquelas premissas de que a pandemia nos tornaria pessoas melhores. Algumas conseguiram. Outras só mostraram - e mostram - que não passam de egoístas estúpidos. Depois vem atrás de orações quando a coisa fica feia. Empatia não terão de minha parte. Desculpem, ainda não evolui e pelo jeito jamais o conseguirei.

Dedico esse desabafo aos que perderam a batalha contra esse vírus maldito:
Mylena de Azevedo Alcântara, afilhada
Bruno Cecílio, marido de uma colega
Robson Franco, amigo
Eledilson Colares, amigo
Heleno Oliveira, tio
E mais de 180 mil brasileiros que não estão tendo sua memória devidamente respeitada.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

VIAGEM: Como não ser um turista cretino e inconveniente

Raposa (MA), local de partida para as Fronhas Maranhenses (23/08/2019)

Existem dois tipos de turistas. Ambos viajam para espairecer, ficar distante da rotina, mas há um grupo que aproveita o tempo longe de casa para curtições a mil (paqueras, farras, diversão sem fim) e existem os que usam esse momento para conhecer bem os lugares de destino, a cultura, aproveitar o dia nas praias e nas atrações turísticas. Em quase dez anos de viagens anuais em minhas férias ou em ocasiões que as possibilitam (como feriadões, por exemplo), posso me considerar com maior tendência ao segundo grupo.

Em minha última viagem, que teve como destinos Maranhão e Piauí, observei o comportamento de alguns turistas que me motivaram a escrever esse post. No dia em que fui à Lagoa Azul, pela manhã, nos Lençóis Maranhenses, alguns dos visitantes não deram atenção ao tempo dado pelo guia para aproveitarmos o local (40 minutos), e o resultado disso foi uma demora de quase uma hora até todos retornarem à jardineira para o retorno a Barreirinhas. Fomos deixados em um restaurante onde mais tarde outros guias pegariam os grupos para a segunda parte do passeio à tarde para a Lagoa Bonita (no qual fui esquecido mas ressarcido, como contei no outro post). Ali outro fato que observei: no momento em que um dos guias apareceu para apanhar duas mulheres elas estavam bebendo cerveja após o almoço, e ele teve que esperar elas terminarem, pagarem a conta, usarem o banheiro e finalmente saírem, ignorando a impaciência dos demais turistas que aguardavam no veículo.

Foi essa falta de bom senso que me deu o alerta: às vezes os passeios acabam se tornando estressantes por causa do comportamento de muitos turistas. Nesses anos todos que viajo, sempre evitei esses grupos exatamente por esse problema. Uma vez ou outra participei e fui tomado pela raiva e impaciência por pessoas que não tem senso de responsabilidade, atrasando a programação e até diminuindo o tempo dos passeios. As agências tentam prezar pelo cumprimento dos horários para que todos possam ser beneficiados, mas há turistas que não colaboram e ainda querem ter razão, como se fossem os únicos a participarem do passeio. Existem os passeios privativos, claro, mais caros, mas quem não quer gastar muito (mesmo que possa) acaba tornando a diversão alheia um aborrecimento.

Como viajei pela primeira vez sozinho, tive que me submeter a isso. Em Barreirinhas não há como ir a esses passeios por conta própria: ou se vai em grupos ou se contrata um privativo. Aí temos que aturar comportamentos inadequados e inconvenientes.

Acho que a partir daí dá para traçar umas dicas de como não ser um turista "pé no saco" para quem os demais olham com raiva, e também de como se pode aproveitar ao máximo a viagem de férias.

Acordar cedo: é a melhor dica para quem quer aproveitar ao máximo o dia para conhecer o destino e seus atrativos. Há mais tempo para se divertir nas praias, nos lugares históricos, nos city tours. Dizer que isso não é aproveitar bem é balela: nunca entendi porque dormir até quase meio dia pode ser curtir férias; se for por isso, melhor não viajar e ficar em casa.

Pontualidade: o viajante precisa entender que, ao contratar pacotes de passeio em grupos, não é o único a participar e nem tudo será organizado apenas em sua função. Se a agência marcar 7h30 para apanhá-lo no hotel, esteja pronto às 7h20 no máximo, já tendo tomado café e com as coisas prontas. Alegar que todo mundo atrasa faz parte de uma mentalidade arrogante. Você faz sua parte. Caso contrário, contrate um passeio privativo, este sim feito em sua função mas com valor às vezes até 50% maior.

Comportamento: a pior coisa que observei foi turista jogar lixo nos lugares visitados. São embalagens de salgados, latas ou garrafas de bebidas, guimbas de cigarro. Basta levar uma sacola para recolher essas coisas e depois colocar no seu devido lugar. Nas barracas de praia, observe as pessoas nas proximidades para ver se fumam e não incomodar. Peça ao atendente um copo com água ou mesmo areia para jogar as cinzas e as guimbas, em vez de jogar na areia. Depois eles recolhem e mandam para o lixo. Faça sua parte.

Regras: há lugares onde há regras estabelecidas e que muitas vezes são desrespeitadas, como em museus, onde não é permitido fotografar ou filmar no interior, nem mesmo tocar nas peças em exposição. Há quem faça isso escondido do guia, agindo com egoísmo e falta de respeito. Deixar a marca em lugares, riscando paredes ou peças arqueológicas (no caso de lugares como Sete Cidades e Vila Velha, por exemplo), é de uma imbecilidade tremenda (não há outro termo para isso).

Atitudes: os guias são trabalhadores como todos nós, e não babás ou empregados. Já vi gente destratar guia por conta da chamada de atenção sobre o horário marcado para retorno dos passeios. Também ouvi, no passeio para Atins, uma mulher se queixar de que o restaurante não tinha o conforto que esperava: um restaurante simples, de comida caseira, e a pessoa agindo como se estivesse em um estabelecimento de elite. Bastava se informar antes e não participar do passeio.

Conversas: sou meio que um bicho do mato, difícil de me socializar, mas dependendo da pessoa essa relação flui bem. Entretanto, em minha última viagem, mais de uma vez houve companheiro de passeio que, ao saber que sou amazonense, veio questionar com ar de deboche se as notícias das queimadas intensas na Amazônia eram verdade ou se havia muito estardalhaço sobre o assunto. Como não queria entrar em discussão e me aborrecer, limitei-me a responder "sempre tem um filho da puta botando fogo em tudo por lá". Foi o que matou a conversa na fonte.

Respeito: já compartilhei várias vezes no grupo Viajantes, criado por mim no Facebook, artigos sobre o comportamento de turistas em memoriais, como os sem noção que tiram fotos divertidas ou fazendo piruetas no museu de Auschwitz. O mesmo vale para museus sobre a escravidão ou outros fatos históricos negativos. Memoriais e museus com esse tema são lugares de reflexão e respeito, não uma ida a um parque de diversões. Para isso, há a Disneylândia, o Beach Park, o Beto Carrero World e outros com a finalidade de divertir. Memoriais e museus são elementos importantes para o nosso conhecimento.

Riscos: há turistas que acham que podem fazer qualquer coisa, a despeito das recomendações dos guias. Não ir a determinados trechos de praias ou lagos por conta dos perigos, não se aproximar muito das beiradas em lugares altos (como as do Corcovado, por exemplo). Caso aconteça algum acidente, é provável que queiram culpar a agência, já que não admitem a própria irresponsabilidade.

É isso. Se você leu até aqui e pensou "ora, mas se você reclama, não vá", eu lamento dizer: você é um tremendo de um turista babaca.


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

RIP Jornalismo, ou: A Merda no Ventilador

Esta semana fui entrevistado pela equipe de um site local a respeito da crise no jornalismo amazonense (no caso da minha área de atuação, a modalidade impressa), tendo em vista que saí de uma redação em meio a uma onda de demissões violenta – cerca de 25 jornalistas demitidos em um dia. Não estive entre os despedidos, mas pedi meu desligamento em razão de enxergar nesse ato um futuro perverso: um jornalista trabalhando pelos quatro ou cinco de sua equipe dispensados pela empresa, sobrecarregado, sem direitos trabalhistas respeitados e servindo de marionete para interesses políticos e econômicos escusos do empresário – que algumas vezes, cinicamente, ainda tem a coragem de se intitular jornalista.

A entrevista acabou me servindo como uma comporta que se abriu para derramar todas as minhas decepções não apenas com os rumos do jornalismo como um todo, mas com os próprios profissionais. Serviu também para estimular este artigo, como uma forma de mostrar os fatos ensejadores dessa triste mudança enfrentada por essa profissão hoje tão desvalorizada – do ponto de vista de quem sentiu isso na pele.

A crise nos jornais impressos, eu respondi à repórter, tinha relação – isso é bem evidente – com o despontar dos portais de notícia, que levam ao leitor-internauta a informação em tempo real, sem considerar, a princípio, o aspecto da qualidade (isso fica para mais adiante). Uma publicação impressa demanda custos altos de produção com aquisição de papel, manutenção de máquinas, distribuição e outros. A publicação eletrônica zerou esse custo, tornando mais atraente o investimento na comunicação instantânea que tornou os impressos “frios” - salvo publicações especializadas, com matérias melhor trabalhadas, como no caso das revistas.

Nas particularidades do Amazonas, ainda há quem feche os olhos para essa evolução – da mesma forma como os cineastas do cinema mudo do passado fizeram vistas grossas ao emergente cinema falado. Hoje, jornalismo impresso vive de aparências.

O principal propulsor desse mercado – o jornalista – acaba sofrendo nessa nova situação: seu trabalho é considerado como elemento de alto custo para a empresa; logo, é dispensável. Os cadernos comuns e os especiais podem ser mantidos, sem uma única redução/adaptação à situação provocada pela “crise”, e o vácuo deixado por um profissional demitido é preenchido por dois inexperientes de menor custo, em uma lógica empresarial equivocada e desastrada. Nessa trapalhada toda armada pelo empresário e seus gerentes – pessoas que geralmente odeiam jornalistas (quem trabalha ou trabalhou em redação sabe da veracidade dessa minha afirmação) -, perde o veículo em si e o leitor, pois essa entrada descontrolada afeta a qualidade do produto.

Na “lógica sem lógica” do dono do jornal, o profissional mais antigo é ultrapassado, e o mercado é para os jovens. Nem é preciso ser superdotado intelectualmente para saber o resultado disso: os novos profissionais acabam ficando sem a devida orientação dos experientes e, dessa forma, tornam-se mais manipuláveis, exatamente ao gosto de quem usa o veículo de comunicação para muitas finalidades, exceto cumprir o papel de informar com imparcialidade e ajudar a desenvolver o senso crítico do leitor.

Chegamos ao novo profissional. Desde minha primeira experiência em redação, em 1995, tive excelentes editores me auxiliando na carreira mas sempre tive o cuidado de manter aquele requisito essencial para o jornalista: a leitura para formação e informação. Ao chegar ao cargo de editor, foi minha vez de lidar com jornalistas iniciantes, passando-lhes as mesmas informações e dicas que meus chefes anteriores. Quem tinha vocação, venceu – e não foram poucos. Hoje esses profissionais estão por aí, dando conta do recado em jornais, portais ou assessorias. Nas minhas idas e vindas pelas redações, porém, senti uma mudança péssima nesse quadro. Surgiu hoje o foca arrogante, sedento de poder, sem escrúpulos e, para coroar todo esse naipe de caráter, burro.

O termo “burro” vai muito além de escrever palavras com grafia errada ou frases sem concordância. Tem mais relação com o ditado “Errar é humano, mas insistir no erro é burrice”. O novo profissional – salvo várias exceções, felizmente – acredita que a bagagem acadêmica lhe é suficiente (e vamos concordar que pelo nível da produção de muitos focas há algo muito errado nas faculdades de jornalismo). Ele não admite ser corrigido, não tem o hábito da leitura, é superficial e vive ofuscado pelo ilusório deslumbramento de ser uma subcelebridade em sua profissão. O trabalho perdeu a seriedade para ser o oba-oba, a reunião de comadres, o encontro dos jornalistas-de-selfie e a proliferação dos copidesques da produção alheia. Para quem vem de uma escola de profissionais egressos de um mercado outrora sortido de talentos e intelectos de qualidade, é um choque ver a mediocridade tomar as rédeas da produção jornalística. E são esses pobres jornalistas ricos a melhor fonte para o empresário sem escrúpulos, sedento em conseguir sua fatia na verba aparentemente inesgotável da publicidade oficial. Sempre há um cargo a se conquistar quando, na melhor das hipóteses, o “profissional” se presta ao papel de “olheiro”, “alcagueta”, puxa-saco. É uma alma sendo vendida ao diabo, um pacto de mediocridade. Uma assinatura em reportagem (inclusive exigida nas famosas e vergonhosas matérias recomendadas - as RECs) tem mais valor para o ego do que a qualidade do texto escrito – modificado, muitas vezes, por um paciente e triste editor que ainda tem um fio de esperança de despertar do novo jornalista para a realidade dura.

Sem entrar muito no mérito do fato, o tiro fatal da mediocridade e mesquinharia foi uma discussão que testemunhei com relação a um determinado “jabá” cobrado por um grupo de colegas, composto desses novos jornalistas e mais alguns com certo tempo de estrada. Naquele momento, quando se questionava que determinada empresa não havia dado os “mimos” depois de tantas matérias positivas durante o ano, minha esperança cavou um buraco, jogou-se nele, cobriu-se de terra para se esconder e aguardar o fim do mundo. Vergonha alheia: ali eu vi que o jogo da empresa jornalística está conquistando adeptos por livre, alegre e espontânea vontade, criando parasitas de toda a espécie. Como nem tudo pode ser uma desgraça, há excelentes profissionais resistindo – é preciso colocar comida na mesa, pagar as contas, educar os filhos, sobreviver, mesmo que para isso seja preciso engolir sapos, tolerar o(a) amante, agregado(a) ou parente do(a) chefe ou do(a) dono(a) ser melhor sucedido sem o merecer. Quer prova disso? Veja o(a) colega antes tão legal de repente se tornar a arrogância personalizada e apontado(a) como "promissor talento do jornalismo" - ainda que ache que exista "Diário Municipal da União" ou escreva "o elo de ligação se rompeu há dez anos atráz".

Isso acontece em qualquer profissão, é óbvio. Mas cada uma amarga a maneira como isso afeta seu trabalho. Ao jornalista, cujo mercado vem encolhendo na oferta de oportunidades, resta tentar romper com essa mediocridade. A iniciativa de grupos tem se tornado a melhor saída, mesmo que não muito fácil. A competição está aí. O futuro do jornalista da região (e do país, na verdade), como eu disse à repórter que me entrevistou, é nebuloso, caso continue sendo moldado pelo deslumbramento, burrice e superficialidade. Joguei a toalha, e pelo andar da carruagem, não vou recolhê-la tão cedo. Mas o jornalismo impresso está agonizando de todas as formas possíveis, e a mediocridade de hoje só está apressando a hora fatal. Só não aceita quem não quer.

PS 1: “ah, se reclama, procura outra atividade profissional” - claro, vamos aguentar calados tudo para nos tornarmos seres frustrados. Mas ainda há a opção das atividades autônomas, claro. Foda-se o conformista.

PS 2: “ah, jornalismo é isso, não é serviço público, está na alma” - de fato, não é, mas é uma atividade profissional com direitos trabalhistas como qualquer outra. Se quer trabalhar de graça, perder suas noites e fins de semana para enriquecer seu patrão enquanto ele nem sabe seu nome (a não ser que seja da elite jornalística), fique à vontade, mas não encha o saco com esse discurso utópico e ultrapassado.

PS 3: “ah, mas quando você trabalhava lá, não reclamava” - pelo contrário. Com salário atrasado, todo mundo reclama. O reflexo sai na edição do dia seguinte.

PS 4: “ah, está cuspindo no prato que comeu” - de forma alguma, porque tinha uma relação trabalhista, não uma relação de caridade.

PS 5: “ah, você é um profissional frustrado e agora está atacando de graça os colegas” - quem não seria frustrado depois de ver a bosta em que se transformou sua profissão a qual foram dedicados quatro anos e meio de sua vida (e às vezes à toa, quando vê tanto paraquedista entrando pela janela nas redações)? Não estou atacando ninguém. Como diria um grande colega e amigo considerado: quem for podre que se quebre.

PS 6: "ah, está dando indiretas" - Bom... Se a carapuça serviu, melhor ficar na sua.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A web... ah, a web!!!!!!

Há pouco mais de um ano descobri o significado de “deep web”, o lado negro da internet, o espaço virtual onde se compartilha o que há de mais indigno, selvagem, bizarro, pervertido e cruel do ser humano na rede. São os sites de pedofilia, racismo, snuff movies, assassinato e todo o possível e impensável do comportamento humano. Observando as redes sociais, vi que a deep web está a um passo de deixar de existir ou de ser uma lenda urbana: para que esse conceito se esse lado obscuro está por todos os lados e a linha que separava o útil/fútil da perversidade está acessível a qualquer um agora?

Vejamos se estou errado: podemos começar sobre a banalização dos selfies. Recentemente, uma notícia compartilhada no Facebook indicava os selfies mais bizarros e inconvenientes já vistos nas redes sociais. Era gente fazendo selfie em velório, em locais de incêndio, em enterros... Quando não são os autorretratos, são as fotos de gosto duvidoso, como a garota fazendo poses em túmulos (até aí, poderia se dizer que era um trabalho artístico, uma digamos licença poética, não fossem os termos vulgares utilizados pela aspirante a modelo de filmes pornôs) ou aquela senhorita (qual mesmo o nome dela?) que tirou fotos nos locais arrasados pelo furacão Katrina em 2007.

Outro dia, no trabalho, comentei que esse excesso de selfies inconvenientes e fora de foco está se tornando babaquice. Claro que pelas costas devo ter sido chamado de reacionário, antipático, frustrado, mal amado, essas coisas. Foda-se quem vestiu a carapuça e não prestou atenção nas palavras “excesso”, “inconvenientes” e “fora de foco”. Claro, é legal registrar e compartilhar momentos com amigos, familiares, em baladas, viagens, roupas novas, com colegas de trabalho, ao lado de artistas que admira, em jantares, almoços e confraternizações. Faz bem à alma e ao ego. A merda começa quando o ego acaba sendo muito valorizado. Daí surgem os selfies “after sex”, as fotos em velórios (lembram-se do velório do então candidato à presidência da República, Eduardo Campos?), os registros durante a exibição de filmes no cinema (coisa que enterrou de vez minha paixão por esses lugares) e por aí vai.

O que tem isso a ver com a deep web? A falta de noção caracteriza o lado obscuro. A pessoa banaliza o egoísmo e o sofrimento alheio, deixa de ajudar alguém ferido para registrar o fato e compartilhar o mais rápido possível na busca de uma popularidade virtual que talvez não tenha na vida real a velha história de “quanto mais 'likes' e 'curtir', melhor”. Aí desaparece o limite do racional. E tudo começa com o excesso de selfies absurdos.

Aí chegamos à rede social como um todo. As ferramentas que em teoria deveriam ser úteis acabam criando verdadeiros idiotas no sentido de perderem sua individualidade e o contato com a realidade. O Facebook serve para compartilhar ideias, fotos, opiniões, desabafos, indiretas e piadas é uma imensa mesa de bar virtual, então não adianta torcer o nariz e chamar de “muro das lamentações”. Tem sua utilidade enquanto não é dominado pelo povo sem noção candidato a ingressar na deep web. Contra esse, existem as possibilidades de excluir e bloquear. O problema maior está na dependência criada de tal modo que tudo se transforma em verdade, não há desejo em se aprofundar na informação. 

Existe o atendimento a um anseio que uma simples frase ou uma foto montada se torna a Verdade, quando nas entrelinhas há a distorção. Exemplo recente é a fotografia compartilhada na qual uma mulher aponta uma arma na direção de uma bebê que carrega no colo. Qualquer olho astuto perceberia que se tratava de uma montagem quase perfeita. Na foto original, ela mostra para a criança um papagaio em sua outra mão. Na montagem, a ave foi substituída por um revólver. Bastou uma pesquisa para revelar a armação. Entretanto, a maioria dos internautas tomou aquilo como verdade e os compartilhamentos condenaram a vítima. Algo parecido e com resultado trágico aconteceu em Santa Catarina, quando uma mulher foi linchada sob acusação difundida no Facebook de que seria responsável pelo desaparecimento de crianças para rituais de bruxaria.

As redes sociais se tornaram júris morais. Então, na dúvida, melhor primeiro checar se o que está sendo divulgado é verdadeiro. Até os "três dias de luto por Marcos Archer", supostamente decretados pela presidente Dilma Rousseff, foram tomados como verdade, e no final das contas eram meros boatos. Todo cuidado é pouco.

domingo, 11 de março de 2012

Quem merece um pé no traseiro?

Finalmente o ano começou aqui no blog, após o hiato do pós reveillon e da folia carnavalesca. E não poderia começar melhor, com um membro da Fifa falando que nosso país merecia um "pé na bunda" por conta do andor da procissão das obras para a Copa do Mundo de 2014.

Como era de se esperar, muita gente "se doeu", como se costuma dizer popularmente. Sem querer entrar no mérito do caráter do autor da frase que melindrou meia nação (ou sua quase totalidade), sou obrigado a reconhecer: se não pelas obras para a Copa de 2014, merecemos, sim, um belo coup de pied aux fesses.

Antes que eu seja chamado de reacionário ou seja alvo de adjetivos mais eloquentemente depreciativos, cabe-me frisar: só se ofende quem não gosta da verdade. Francamente, quem acha que o país está realmente preparado para sediar a Copa a esta altura? Ainda temos dois anos, mas muita coisa caminha a passos lerdos, emperrados pela incompetência burocrática ou pelo velho jogo de "vamos ver onde nós podemos lucrar mais". Minto? E isso refere-se somente à Copa!

A julgar pelos absurdos que vemos todos os dias em nosso Brasil, se cada golpe nas partes traseiras baixas fosse uma tentativa de botar nosso país nos eixos, sem dúvida as nádegas tupiniquins não poderiam conseguir um encosto tão cedo. Temos paradoxos monstruosos em nossas leis. Honestidade ainda parece a muitos coisa do outro mundo. Vidas humanas ceifadas por irresponsáveis no trânsito custam uma mísera fiança. Falta pouco para criarem um imposto sobre o ar respirado. Enquanto trabalhadores sofrem para ter um reajuste decente nos salários, uma cambada se aproveita para aumentar seus vencimentos e criar cada vez mais mordomias (e enquanto uns poucos se revoltam contra isso, outros da mesma classe ficam impassíveis e não se mexem para acabar com essa baderna). O incremento cultural hoje se evidencia pela louvação a uma música de parcos versos a exaltarem a masturbação ou um programa de situações suspeitas que é defendido como expressão da cultura popular (a minha, mesmo, não!). Falsos homens da lei são punidos com aposentadoria e vencimentos integrais. Ladrões de galinha ficam presos tempos a fio enquanto meliantes de terno, gravata e toga surrupiam a nação sem uma demonstração de arrependimento. Gangues de marginais travestidos de torcedores de times de futebol promovem uma verdadeira guerra civil, e ainda assim se libera o uso de bebida alcoólica nos estádios durante os jogos da Copa.

A lista de aberrações em nosso Brasil lindo e imenso, de povo alegre e hospitaleiro, de belezas naturais fantásticas, é muito extensa. A quem não se conforma com essa onda de violência, corrupção, idiotice e estagnação que corre o país de norte a sul, só resta lamentar, porque os tempos de revolução ficaram no passado, como registros nos livros de história. O que mais importa à nova geração é balada, Big Brother, a pobreza da cultura de massa e o umbigo de cada um. Agora, deixando de lado o comportamento nervosinho do Jerome Valcker, merecemos ou não um pé na bunda?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Etiqueta móvel: Qual o limite da tecnologia?

“As novas tecnologias digitais estão se tornando fundamentais para a vida dos consumidores, mas ainda não esclarecemos para nós mesmos, nossas famílias, comunidades e sociedades quais são os tipos apropriados de comportamento e expectativas”. A declaração é de Genevieve Bell, Intel Fellow e chefe de pesquisa em interação e experiência da Intel Labs. Seu ponto de vista tem base no resultado de uma pesquisa on line nos Estados Unidos sobre o atual estado da "Etiqueta Móvel" e o uso das novas tecnologias nos ambientes de aprendizado educacional.

“Nossos comportamentos apropriados com a tecnologia digital ainda são embrionários e por isso é muito importante para a Intel que toda a indústria continue dialogando sobre a maneira como as pessoas usam a tecnologia, e como os nossos relacionamentos pessoais com a tecnologia ajudam a definir normas sociais e culturais”, explicou Bell.

Os professores participantes admitiram ser imprescindível que eles se mantenham atualizados sobre o papel da tecnologia na vida dos estudantes. Praticamente todos os professores entrevistados, 94%, acreditam que a tecnologia, quando usada corretamente, melhora a experiência dos estudantes com a educação. Setenta e quatro por cento deles também concordam que, com o rápido ritmo da tecnologia, o aprendizado da etiqueta móvel está se tornando tão importante para as crianças quanto a matemática e as ciências.

A quase unanimidade veio quando os professores foram questionados sobre quem deve ser responsabilizado pela educação dos alunos: 96% deles disseram que são os pais que devem ensinar a seus filhos sobre a etiqueta móvel; 64% dos pais rebatem e dizem que as escolas devem solicitar que os estudantes assistam a aulas sobre como e quando a tecnologia deve ser usada.

Sem nenhuma surpresa, 84% dos professores desejam que seus alunos pratiquem uma melhor etiqueta na sala de aula. As “mancadas móveis” foram apontadas por 82% dos professores como: estudantes digitando mensagens de texto (62%); ligações atendidas durante as aulas (33%) e cola durante as provas (19%).

Os professores concordam que a tecnologia é muito bem vinda nas salas de aula, porém, parte da educação móvel precisa ser melhorada e adaptada.

Tecnologia x relacionamento -  As crianças estão experimentando a tecnologia cada vez mais cedo. Um terço delas  diz preferir ficar sem as férias de verão a estarem sem seus aparelhos portáteis de comunicação.

A pesquisa detectou que 19% das crianças americanas entre 8 e 12 anos possuem dois ou mais dispositivos móveis. Elas passam três horas na frente de um notebook e 1,9 horas com seu celular. Já os adolescentes usam 3,7 horas do dia com note e 2,9 horas, no celular.

Noventa e quatro por cento dos pais têm consciência de que precisam dar bons exemplos para que seus filhos pratiquem boas maneiras móveis, mas 95% das crianças já testemunharam seus pais cometendo “infrações móveis”, incluindo o uso de dispositivos móveis na estrada (59%), no jantar (46%) e durante um filme ou concerto (24%). Quase metade das crianças americanas (49%) alega não ver nada de errado em utilizar a tecnologia na mesa durante o jantar.

A mobilidade tem afetado a vida em família. Cerca de 40% dos pais admitem que passam muito tempo usando algum dispositivo na frente de seus filhos e 42% das crianças pensam que os pais precisam se desconectar mais quando estão em casa.

Mobilidade e a vida pública - Ao mesmo tempo em que a conectividade na ponta dos dedos ajuda as pessoas a serem mais produtivas, as maneiras com que elas usam essa tecnologia em público pode gerar frustração. Noventa e dois por cento dos entrevistados concordam que as pessoas deveriam ter mais respeito ao usar seus dispositivos móveis em áreas públicas. Praticamente, um entre cada cinco adultos (19%) admite o seu mau comportamento móvel, mas continua agindo da mesma maneira porque “todo mundo se comporta igual”. O mesmo número também admite checar seu dispositivo móvel antes mesmo de sair da cama pela manhã. A falta de educação no que diz respeito aos dispositivos móveis atinge 73% dos entrevistados, que usam seus dispositivos enquanto dirigem, 65% que falam alto em lugares públicos e 28% que os usam enquanto caminham pela rua desatentos.
 
Metodologia - A pesquisa sobre a “Etiqueta Móvel” foi realizada online dentro dos Estados Unidos pela Ipsos a pedido da Intel, entre os dias 10 de dezembro de 2010 e 5 de janeiro de 2011 entre uma amostragem nacionalmente representativa de 2.000 adultos dos EUA com idade igual ou superior a 18 anos. A margem de erro da amostragem total é de aproximadamente 2,2% com um nível de confiança de 95%. O estudo incluiu as seguintes audiências: 212 professores (margem de erro de cerca de 6,7%) e 286 pais de crianças com idade entre 8 e 17 anos (margem de erro em torno de 5,8%), estando disponível no endereço www.intel.com/newsroom/mobileetiquette (em inglês).

quinta-feira, 24 de março de 2011

O fascinante e curioso universo da canalhice

Jornalista Márcio Vieira lança no próximo dia 9 de abril seu livro "Teoria do Canalha", na Livraria  Valer

Por César Augusto

A infidelidade masculina tanto é criticada quanto incompreendida. É essa compreensão que o jornalista Márcio Vieira, 32, buscou ao escrever "Teoria do Canalha" (editora Valer, 81 páginas, R$ 10), a ser lançado na livraria Valer - rua Ramos Ferreira, 1195, Centro - no próximo dia 9 de abril, às 10h.

Apesar dos arrepios que o adjetivo pode causar no sexo frágil (?), não se trata de um guia ou uma obra que exalte a infidelidade do homem, como bem o frisou o autor. "É uma investigação cômico-filosófica que busca investigar os motivos e fundamentos de homens infiéis, identificados como canalhas, a partir de observações cotidianas", explica Márcio. "Busquei abordar o tema de uma forma teórica, procurando identificar os fatores que contribuem para a formação de um canalha e ainda tentando mostrar o ponto de vista desse grupo humano frequentemente criticado, mas raramente compreendido historicamente", afirma.

Foi na Psicologia que o jornalista buscou o seu referencial teórico e em autores como Michel Foucault ("História da Sexualidade") e Ana Beatriz Barbosa Silva ("Mentes Perigosas"), além de revistas especializadas e filmes.

Até o ponto final em "Teoria do Canalha", houve uma série de pesquisas iniciadas em 2006 e conversas diretamente com a "fonte" do tema. "Conheço muitos [canalhas], embora eu não seja um deles", adverte, aos risos. Foi na própria família que Vieira buscou a inspiração. "Meu pai tinha duas famílias e pelo menos três amantes que eu me lembro, quando era pequeno", conta. O pai de Márcio Vieira já faleceu, mas seus familiares aprovaram a ideia. "Minha mãe gostou bastante. Meus irmãos aprovaram a iniciativa, porém não se envolveram", conta.

O fato de um assunto de família gerar um tema de estudo poderia ser uma espécie de "exorcismo"? Para Vieira, talvez sim. "Sempre me intrigava o comportamento do meu pai. Por isso decidi estudar o assunto, porém procurei apresentar um livro ao alcance de todos", afirma. "Não se trata de um ensaio sobre psicologia. É um estudo mais secular, nada sofisticado, por isso também dou um tom de humor", acrescenta.

Como dificuldade nos aproximadamente quatro anos de elaboração da obra, Márcio Vieira cita apenas a falta de literatura sobre o assunto na forma no qual foi abordado. "Não se trata de um manual. É um ensaio, uma impressão sobre o fenômeno 'canalhista'", frisa. Resistências a um assunto assim? Claro, era de esperar quando se trata de infidelidade masculina, mas nada preocupante ou desestimulante. "Apesar de o tema suscitar um machismo inevitável, poucas mulheres não têm uma história para contar sobre seus desenganos e decepções sentimentais", aponta.

Aprofundamento
O envolvimento com um assunto de certa forma delicado aprofundou bastante o conhecimento de Márcio Vieira. "Vi que o comportamento do homem canalha heteroerótico envolve uma série de variáveis biológicas e culturais. Também percebi que muitas vezes nós, homens, somos muito cruéis e injustos com nossas companheiras. Temos que ter mais respeito pelas mulheres", declara.

"Teoria do Canalha" é o segundo livro de Márcio Vieira, mas o primeiro lançado no mercado. O primeiro, "Reston: o Mecenas do Empreendedorismo", de 2008, foi um resgate da história do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no Amazonas e de um de seus fundadores, o empresário e economista José Carlos Reston, e ficou restrita ao sistema Sebrae no Brasil.

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e com passagens pelo jornal Diário do Amazonas e assessorias de imprensa diversas, Márcio Vieira é funcionário do Sebrae Amazonas desde 2007. Após a "Teoria...", está escrevendo um romance ambientado na periferia de Manaus, trabalho iniciado em 2006 mas agora em fase de conclusão. "Dei uma parada para fazer algumas pesquisas sobre violência urbana e li alguns livros reportagem para ter mais elementos de linguagem e simbólicos à disposição".

(Fotos: Divulgação)

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