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quinta-feira, 13 de julho de 2023

DOCUMENTÁRIO: A superfantástica história do Balão Mágico (2023)


Eu tinha 9 anos quando a Turma do Balão Mágico surgiu. Não me tornei um fã. Gostava das músicas, assistia aos desenhos do programa de TV que foi criado na esteira do sucesso (que eu só conseguia nas férias escolares, pois sempre estudei no turno da manhã). Quando o grupo acabou, eu já não tinha interesse, mas ficou aquela memória afetiva.

Quarenta anos depois, relembrar a trajetória de Simony, Tob, Mike e Jairzinho emociona e impressiona, pois veio a visão do pioneirismo que o grupo trouxe para a cultura musical infantil brasileira nos anos 1980, coisa que até então não existia, limitado a desenhos animados encaixados nas programações das emissoras de televisão, sem existir interação. E assim, na esteira do sucesso musical, a Turma do Balão Mágico inovou.

A série documental "A superfantástica história do Balão Mágico", exibido desde 12 de julho pelo streaming Star+, resgata em três capítulos a gênese, a trajetória e o fim do grupo infantil que até hoje é relembrado pelos nostálgicos daquela época pelos sucessos musicais marcantes. Enquanto o reencontro trouxe lembranças emocionantes aos seus agora maduros quatro integrantes, também trouxe recordações duras.


Há fatos que eu conhecia e dos quais se falou nos anos seguintes ao fim do grupo - que ainda teve outros três integrantes após a saída gradual dos membros originais. Simony, já maior de idade, posou para a revista Playboy e foi ridiculamente criticada por uma parte do público que parecia se recusar a desvincular sua imagem à da garotinha talentosa que encantou a todos. Entre as novidades, para mim, em suas histórias, Tob (pseudônimo de Vimerson Canavillas) e Mike Biggs sofreram bullying nas escolas onde estudavam, provocado pela inveja de outras crianças. Jairzinho, cuja entrada no grupo trouxe um ar de diversidade, teve que enfrentar distorções de informação em sua carreira, quando espalhou-se que ele se recusava o primeiro nome no diminutivo como nome artístico para ser desvinculado do pai, o saudoso cantor Jair Rodrigues.

O documentário traz também histórias tristes, mas de superação. Uma das coisas que  mais me tocou foi justamente quanto ao destino de Tob, o primeiro a sair do grupo em 1984, quando já passava pela mudança de voz comum à puberdade. A lembrança que eu tinha daquele menino de voz linda e sorriso aberto não condizia com a de uma criança tímida, que evidencia traços de sua timidez até hoje. Mike "torrou" tudo o que ganhou com o pai Ronald Biggs, de quem cuidou até o fim da vida, mas ainda assim se recuperou com uma visão de vida otimista e atitudes positivas.

Depoimentos mostram como o grupo marcou a infância de artistas como Lázaro Ramos, por exemplo. Mas também revelam a frieza de quem participou da história e não reconhece até hoje que as quatro crianças foram terrivelmente exploradas, praticamente sem aproveitar da maneira certa aquela fase da vida, e que na sua inocência viam uma grande diversão naquele trabalho extenuante. 

Rever a história do Balão Mágico é um encanto que se justifica na fala de um dos depoentes: Simony, Tob, Mike e Jairzinho eram os irmãos que filhos únicos, ou caçulas como eu, cuja irmã mais próxima de idade já era uma adolescente, gostariam de ter.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

TV: "O bem-amado" (1973)


Quando a novela "O bem-amado", escrita por Dias Gomes para a rede Globo em 1973, entrou para o catálogo do streaming Globoplay praticamente na íntegra (alguns capítulos foram reeditados por conta de problemas na recuperação de imagens), fiquei contente! Só me lembrava do seriado dos anos 1980, e pouca coisa, já que como criança não conseguia ficar acordado até altas horas para acompanhar as aventuras do ressuscitado Odorico Paraguassu (papel marcante na carreira do saudoso Paulo Gracindo) na pequena e fictícia cidade baiana de Sucupira, além do que, com pouco mais de 10 anos, eu não entendia muito daquele universo.

Um fato interessante que me fez ficar animado foi que a novela estreou na semana de meu nascimento (estreou na segunda, dia 22 de janeiro de 1973, e cheguei ao mundo na sexta-feira, dia 26). Não que haja um lado místico ou coisa que o valha. Simplesmente achei muito legal saber o que meus pais assistiam enquanto aguardavam meu nascimento. Coisas sentimentais, apenas.

Aos 49 anos, assisti os 178 capítulos da saga do corrupto, debochado e desumano recém eleito prefeito de Sucupira, Odorico Paraguassu, rumo ao cumprimento de uma bizarra promessa de campanha: a construção do primeiro cemitério da cidade, já que os eventuais sepultamentos aconteciam na localidade vizinha. Para isso, Paraguassu via oportunidades para inaugurar o campo santo até mesmo entre seus familiares, promovendo intrigas que certamente terminariam em confrontos e mortes, como atiçar a rivalidade entre as famílias Medrado e Cajazeiras, que se odiavam há gerações mas que haviam iniciado uma trégua.


Do lado do prefeito, seu fiel secretário e funcionário dos Correios de Sucupira, Dirceu Borboleta (nosso magnífico Emiliano Queiroz), facilmente manipulável, bobo, inseguro e virgem, às vezes chocado com as atitudes de Paraguassu mas com uma confiança cega no chefe do executivo municipal. Odorico também conta com apoio cego das três irmãs Cajazeiras - Judicéia ou Juju (Dirce Migliaccio), Dorotéia (Ida Gomes) e Dulcineia (Dorinha Duval). Metidas a moralistas, solteironas, as três são amantes de Odorico, mas sem que uma saiba da relação amorosa da outra com o prefeito.

A chegada a Sucupira do médico Juarez Leão (o saudoso Jardel Filho) para assumir o posto de saúde começa a girar as engrenagens dos conflitos na cidade: enquanto Odorico torce e encontra inúmeras oportunidades para causar mortes e inaugurar o cemitério, Leão o desafia lutando para atender a população e abastecer o local. No meio desse fogo cruzado, está a jovem filha de Odorico, Telma (a saudosa Sandra Bréa), a qual conhecera Juarez em Salvador após a morte da esposa dele, e se apaixonara, mas sendo repudiada pelo doutor, que bebe exageradamente por se sentir responsável pela perda da mulher, vítima de um erro médico.

As tramoias de Odorico ao longo da novela incluem, além das intrigas, tentar facilitar uma epidemia em Sucupira, deixar o sobrinho das Cajazeiras agonizar sem atendimento médico, incentivar tendências suicidas, estimular o pescador Zelão (Milton Gonçalves, um dos melhores personagens da televisão) de cumprir uma promessa e pular da torre da igreja com as asas que fabricou. De olho nas patifarias do prefeito está a família Medrado, com o patriarca Joca Medrado (Ferreira Leite), delegado em teoria, já que a função é exercida pela sua mulher Donana (Zilka Salaberry) desde que ele ficou paraplégico após um atentado, e tem apoio ainda de sua neta Anita (Dilma Lóes), namorada do jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), dono do único jornal de Sucupira e opositor ferrenho de Paraguassu. O ponto alto das safadezas do prefeito é manipular o justiceiro José Tranquilino, conhecido como Zeca Diabo (Lima Duarte), que apesar de temido é um analfabeto doce e de alguma forma ingênuo que não entende o medo que inspira, gerado por exageros nas histórias que o envolvem. Trazendo o pistoleiro para seu lado, Odorico pretende usá-lo para provocar mortes e, enfim, inaugurar o cemitério.

O fato de o enredo mostrar uma sátira ao Brasil dos anos 1970, ainda sob jugo da ditadura militar, não deixou o tema envelhecer. O que se vê na trama de Dias Gomes é uma crítica atemporal, a julgar que em quase 50 anos as únicas mudanças que houve da Sucupira setentista para o Brasil da segunda década do século 21 são relativas a tecnologias, modernização de veículos, comunicações e transportes. No resto, somos a mesma Sucupira hipócrita e manipulável por políticos de má-fé, desprovidos de conhecimento, negacionistas e irresponsáveis. E essa preservação da identidade sucupirana, apesar de triste, não deixa de ser fascinante por mostrar que, ainda, permanecemos estacionados na roda do progresso. O que não faltam, em todos os escalões dos governos, são Odoricos a serem desmascarados mas ainda adorados.

domingo, 15 de julho de 2012

Comentário: "Rede de intrigas" (Network, 1976)


Howard Beale (Peter Finch): de jornalista em colapso a atração bizarra da UBS


Faye Dunaway como Diana Christensen
Trinta e seis anos depois, "Rede de intrigas", de Sidney Lumet, é insuperável em sua crítica mordaz e até mesmo satírica ao circo da televisão. Adapta-se bem aos dias de hoje com a profusão de reality shows e programas de auditório de gosto questionável, que não são descartados enquanto manipulam emocionalmente (e escravizam e destroem cultural e psicologicamente) milhões de telespectadores em troca de audiência e muito, muito lucro.

O roteiro, por si só, é destruidor: ao saber que seria demitido do telejornal noturno da rede UBS, o apresentador Howard Beale (Peter Finch, vencedor do Oscar por esse papel) anuncia em alto e bom som, ao vivo, que iria cometer suicídio diante das câmeras dali a uma semana. Polvorosa nos corredores da grande emissora de televisão, mas para a vice-presidente de programação, Diana Christensen (Faye Dunaway,também ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, em um dos melhores papeis de seus filmes da década de 1970, ao lado da Evelyn Mulwray de "Chinatown"), o jornalista em gradual colapso psicológico é uma oportunidade de alavancar os índices de audiêcia da companhia.

William Holden interpreta Max Schumacher
Assim, Howard Beale passa de lunático a uma fonte de renda certa para os cofres da UBS, único objetivo de Diana, um tipo de mulher tão envolvida com a ambição de seu trabalho que não consegue se desligar nem mesmo quando está com seu amante Max Schumacher (William Holden), melhor amigo de Beale e ex-diretor de Jornalismo da emissora em quem ela passara a perna como meio de controlar a divisão jornalística e executar seu plano de transformar Howard na sua galinha dos ovos de ouro. Tal é a ganância e fascínio dessa workaholic que nem mesmo enquanto faz amor ela consegue parar de se vangloriar das tramoias por trás da luta pela audiência: o orgasmo para Diana é maior quando fala de suas vitórias pelo bem da emissora. Por seu lado, Schumacher deixa a esposa Louise (Beatrice Straight, merecidamente vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante naquele ano ao aparecer em praticamente uma cena) para viver com a executiva um romance do qual o final ele já conhece mas ainda assim não resiste: incapaz de suportar a falta de humanidade de Diana, acaba por abandoná-la.

Beatrice Straight como Louise Schumacher
Transformado em um profeta da mídia e influente que garante audiência, Beale enlouquece - ou finge enlouquecer - e passa a falar mais do que devia no programa em que, junto com outras atrações bizarras, como uma vidente, consegue liderar a audiência da UBS. Ao revelar negócios escusos da CCA, conglomerado que controla a UBS, passa a incomodar os executivos da emissora. Daí para o final apoteótico, em que Beale é assassinado ao vivo diante das câmeras, temos uma profusão de comportamentos atemporais de quem está do lado de lá do aparelho de televisão.

Além dos três Oscars citados, "Rede de intrigas" também conquistou o de melhor roteiro original, de Paddy Chayefsky. Ao derrubar os encantos aparentes dos grandes programas de entretenimento, escracha com a falsa seriedade com que os executivos de rede tocam sua programação. É um filme que permanece atraente, forte e reflexivo até hoje, valendo a pena sempre ser revisitado e analisado principalmente quando hoje em dia pulam nas telas espetáculos bizarros como "A fazenda" e "Big Brother" ou mesmo programas mais, digamos, de certa seriedade e competitivos, como "Top Chef" e "American Idol".

Há ainda duas curiosidades que percebi após ver o filme pela segunda vez: a presença não creditada de Lance Heriksen (da série de TV Millenium e o androide de "Aliens, o resgate") em uma cena e de Conchata Ferrell (a hilária e sarcástica Berta, empregada dos Harper em "Two and a half men") como integrante da equipe de Diana Christensen. E éramos todos jovens...

domingo, 11 de março de 2012

Quem merece um pé no traseiro?

Finalmente o ano começou aqui no blog, após o hiato do pós reveillon e da folia carnavalesca. E não poderia começar melhor, com um membro da Fifa falando que nosso país merecia um "pé na bunda" por conta do andor da procissão das obras para a Copa do Mundo de 2014.

Como era de se esperar, muita gente "se doeu", como se costuma dizer popularmente. Sem querer entrar no mérito do caráter do autor da frase que melindrou meia nação (ou sua quase totalidade), sou obrigado a reconhecer: se não pelas obras para a Copa de 2014, merecemos, sim, um belo coup de pied aux fesses.

Antes que eu seja chamado de reacionário ou seja alvo de adjetivos mais eloquentemente depreciativos, cabe-me frisar: só se ofende quem não gosta da verdade. Francamente, quem acha que o país está realmente preparado para sediar a Copa a esta altura? Ainda temos dois anos, mas muita coisa caminha a passos lerdos, emperrados pela incompetência burocrática ou pelo velho jogo de "vamos ver onde nós podemos lucrar mais". Minto? E isso refere-se somente à Copa!

A julgar pelos absurdos que vemos todos os dias em nosso Brasil, se cada golpe nas partes traseiras baixas fosse uma tentativa de botar nosso país nos eixos, sem dúvida as nádegas tupiniquins não poderiam conseguir um encosto tão cedo. Temos paradoxos monstruosos em nossas leis. Honestidade ainda parece a muitos coisa do outro mundo. Vidas humanas ceifadas por irresponsáveis no trânsito custam uma mísera fiança. Falta pouco para criarem um imposto sobre o ar respirado. Enquanto trabalhadores sofrem para ter um reajuste decente nos salários, uma cambada se aproveita para aumentar seus vencimentos e criar cada vez mais mordomias (e enquanto uns poucos se revoltam contra isso, outros da mesma classe ficam impassíveis e não se mexem para acabar com essa baderna). O incremento cultural hoje se evidencia pela louvação a uma música de parcos versos a exaltarem a masturbação ou um programa de situações suspeitas que é defendido como expressão da cultura popular (a minha, mesmo, não!). Falsos homens da lei são punidos com aposentadoria e vencimentos integrais. Ladrões de galinha ficam presos tempos a fio enquanto meliantes de terno, gravata e toga surrupiam a nação sem uma demonstração de arrependimento. Gangues de marginais travestidos de torcedores de times de futebol promovem uma verdadeira guerra civil, e ainda assim se libera o uso de bebida alcoólica nos estádios durante os jogos da Copa.

A lista de aberrações em nosso Brasil lindo e imenso, de povo alegre e hospitaleiro, de belezas naturais fantásticas, é muito extensa. A quem não se conforma com essa onda de violência, corrupção, idiotice e estagnação que corre o país de norte a sul, só resta lamentar, porque os tempos de revolução ficaram no passado, como registros nos livros de história. O que mais importa à nova geração é balada, Big Brother, a pobreza da cultura de massa e o umbigo de cada um. Agora, deixando de lado o comportamento nervosinho do Jerome Valcker, merecemos ou não um pé na bunda?

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Comentário: Holocausto (1978)


Há mais de três décadas, a minissérie “Holocausto” (Holocaust: the story of the family Weiss, 1978) foi um marco na história da televisão. Até então, não se tinha conhecimento de produção tão realística sobre a perseguição sofrida pelos judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial por obra do nazismo. Ainda que posteriormente tenham surgido filmes mais fortes baseados no tema, como “A lista de Schindler”, “Cinzas da guerra” e “O pianista”, “Holocausto” ainda hoje é referência por haver sintetizado toda a história das perseguições antissemitas que culminaram com a política de extermínio batizada de “Solução Final” do Terceiro Reich.

A trama começa em Berlim e se divide entre as famílias Weiss, de judeus, e Dorf, de alemães, a partir de 1935, com o casamento entre o pintor Karl Weiss (James Woods) e a cristã Inga Helms (Meryl Streep), um pouco antes das primeiras leis de Nuremberg proibirem casamentos mistos, com o partido nazista em plena ascensão.  Erik Dorf (Michael Moriarty) é um advogado desempregado, casado com Marta e pai de dois filhos. Paciente do dr. Josef Weiss (Fritz Weaver), Dorf acaba ingressando no partido nazista por insistência da esposa, como forma de sustentá-los. A partir daí, graças a sua inteligência e dedicação cega, começa a ascender e tomar parte ativa no programa de extermínio dos judeus europeus, incluindo a família Weiss.
Inga (Meryl Streep) e Karl Weiss (James Woods)
 A ascensão de Dorf é pontuada por vários momentos históricos do domínio nazista, como a Solução Final e o estabelecimento dos campos de extermínio em substituição aos massacres de populações judias por fuzilamento (os Einzatsgruppen), a criação dos guetos e a manipulação das informações para tentar tornar o genocídio politicamente aceitável. Suas atitudes frias e olhar igualmente apático diante das atrocidades que determina e testemunha são em parte incentivadas pela mulher Marta, interessada em tirar proveito da guerra para sobrevivência de sua família, mesmo que isso signifique a destruição de outras pessoas. Em um momento, Erik Dorf parece fraquejar diante dos massacres, mas a esposa se impõe para incentivá-lo, mesmo sabendo que no futuro poderão responder pela barbárie. Assim é que supervisiona os pelotões de fuzilamento na Rússia, as câmaras de gás e crematórios de Auschwitz, sem demonstrar um pingo de incômodo ou pena com o destino dos “inimigos do Reich”.
Anna Weiss (Blanche Baker)
 De outro lado, o destino da família Weiss ilustra cada degrau das perseguições. Josef Weiss é proibido de clinicar, mas ainda atende cidadãos judeus e alemães (ou arianos, como se tornou expressão corrente daqueles tempos). Sua insistência em driblar a repressão em nome do profissionalismo e preocupação com o próximo acabam levando-o a ser deportado para a Polônia, seu pais de origem. Lá, com o irmão Moses (Sam Wanamaker), testemunha o surgimento do gueto de Varsóvia (que seria visto com mais propriedade e riqueza de detalhes em “O pianista”, de Roman Polanski, sobrevivente dessa época de terror), a mortandade provocada por epidemias e perseguições eventuais aos segregados, as deportações da população do gueto para Treblinka e outros campos de morte, a luta pela sobrevivência por meio do contrabando de alimentos e o início dos planos de resistência que culminariam no Levante do Gueto e seu extermínio em 1943. Antes da batalha, Josef é enviado a Auschwitz com a esposa Berta Weiss (Rosemary Harris, uma atriz de respeito), onde são mortos nas câmaras de gás.

Berta Weiss é uma mulher culta, filha de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial. Mesmo com a Kristallnacht (o pogrom incitado pelos nazistas em toda a Alemanha após o assassinato de um diplomata alemão por um jovem judeu em Paris, em 1938), na qual seus pais perdem a livraria (suicidando-se em seguida), a deportação de Josef para a Polônia e a prisão de Karl, o filho mais velho, e seu envio para o campo de concentração de Buchenwald, ela acredita em tempos melhores, até a noite em que a filha mais nova, Anna (Blanche Baker), foge de casa após uma discussão, é agarrada e estuprada por três nazistas. A adolescente de 16 anos fica retraída e enlouquece, sendo internada pela cunhada Inga em um hospital que era, sem que se soubesse, um centro de matança de doentes mentais e deficientes físicos, que eram agrupados em um depósito e asfixiados por monóxido de carbono, destino definido pela política nazista de purificação da raça. Sem Anna, Berta permanece com Inga até ser deportada para Varsóvia, onde reencontra o marido no gueto, ajuda a financiar a compra de armas para a resistência mas não a testemunha, sendo enviada com ele para Auschwitz.
Rudi Weiss (Joseph Bottoms) e Helena (Tovah Feldshuh)

Karl Weiss e Inga Helms são personagens cujos encontros tornam-se errantes no decorrer da trama. Inga protege a nova família contra a hostilidade de seus pais e irmão, contrários a que ela continue casada com Karl. Ele é preso, enviado a Buchenwald, um campo de trabalho forçado onde testemunha a execução de ciganos e sofre as maiores torturas. Graças a Inga, que precisa ceder ao assédio de um dos comandantes do campo e amigo da família Helms na tentativa de salvar o marido, Weiss vai para Theresienstadt, um “gueto modelo”, na verdade uma farsa armada pelos nazistas para tentar desviar a atenção dos tormentos sofridos pela população judia, onde pode exercer suas atividades de pintura. Inga consegue ser enviada para lá, acompanhando o marido. Ali, a indignação crescente com as perseguições transformam Karl em um artista engajado em mostrar a verdade ao mundo em desenhos que retratavam a brutalidade nazista, em contraponto às ilustrações fantasiosas as quais era obrigado, junto com outros dois prisioneiros, Weinberg e Frey, a fazer para os carrascos. Descobertos, os três são torturados para informar a localização de outros desenhos, resistindo até o fim.  Somente Karl sobrevive e, após ter as mãos quebradas, é mandado para Auschwitz, onde morre de fome.  Antes da deportação, Inga lhe conta que espera um filho, decidindo tê-lo mesmo sob os protestos de Karl, que não queria ver uma criança nascendo em um “lugar amaldiçoado” como Theresienstadt.
Erik Dorf (Michael Moriarty)

Os dois últimos membros da família Weiss marcam outros momentos da história do Holocausto. Rudi Weiss (Joseph Bottoms), filho do meio de Josef e Bertha, sempre temperamental, deixa Berlim após a deportação do pai para a Polônia. Em suas andanças fugindo dos nazistas, conhece a jovem judia Helena Slomova (Tovah Feldshuh) em Praga, tornando-a sua companheira. E é assim que ele testemunha a ocupação da Rússia pelos alemães e o massacre dos judeus da região em fuzilamentos em massa, como o de Babi Yar (setembro de 1941, quando perto de 34 mil judeus foram mortos a tiros e sepultados coletivamente em uma ravina). Presos em Kiev, Rudi e Helena são enviados para a morte, mas conseguem escapar da fila dos condenados e observam de longe o assassinato de homens, mulheres e crianças a tiros. A luta pela sobrevivência os leva a se unir à guerrilha de sobreviventes judeus liderados por tio Sacha. Em tantas batalhas, Helena acaba sendo morta após uma mal sucedida emboscada do grupo contra soldados nazistas, e Rudi, enviado para o campo de extermínio em Sobibor. Ali, participa da famosa rebelião que permitiu a fuga de muitos prisioneiros – poucos, no entanto, para a quantidade de vítimas fatais. Após a fuga, Rudi aguarda a libertação, quando chega a Theresienstadt e reencontra Inga com o filho de Karl, decidindo trabalhar para a Agência de Ajuda para a Palestina, que congrega sobreviventes do Holocausto. A essa altura, já soube do destino de sua família.

Depois da deportação de Josef e Berta para Auschwitz, Moses Weiss se junta ao grupo que organiza o Levante do Gueto de Varsóvia, combatendo durante três semanas contra os nazistas em sua própria prisão, com sucesso. O final do levante já é conhecido. Alguns escaparam, os sobreviventes foram enviados para a morte em Treblinka ou fuzilados após o fim da rebelião – é o que acontece com Moses e outros combatentes.
Josef e Berta (Fritz Weaver e Rosemary Harris)

Os últimos momentos de Erik Dorf condizem com a história dos carrascos nazistas que foram presos após a libertação e final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Capturado e interrogado, é posto frente a frente com provas do genocídio e, como outros líderes nazistas, comete suicídio para não enfrentar a justiça pelas barbáries cometidas. Em contraponto, há o seu tipo paterno, Kurt Dorf (Roberth Stephens), engenheiro que vê as atrocidades mas não consegue tomar uma iniciativa maior para combatê-las se não somente manter sob sua guarda e segurança prisioneiros judeus na construção de uma estrada nas proximidades de Auschwitz – entre eles, Josef Weiss. Após o suicídio de Erik, Kurt tenta desmascarar as atividades criminosas do sobrinho perante sua família. Mas nem Marta nem os dois filhos já crescidos de Dorf lhe dão ouvidos, repudiando suas declarações. O retrato dos alemães colaboracionistas, se não ingênuos.

A minissérie serviu e ainda serve como uma avaliação de atitudes quanto ao assunto, principiando uma abordagem maior ao tema. A atuação de personagens fictícios ao lado de outros reais – os nazistas Heinrick Himmler, Reinhard Heydrich e  Adolf Eichmann e um dos líderes da resistência no gueto, Mordechai Anielevitz – foi eficiente para o desenvolvimento da história. Como já citei, o desempenho de todo o elenco contribuiu para a magnificência da produção, sobretudo Michael Moriarty, interpretando um Erik Dorf de olhar gélido e impassível frente a cadáveres de judeus fuzilados ou prisioneiros a caminho das câmaras de gás.

Chocante até hoje, “Holocausto” teve críticas negativas também. Para alguns, suavizava os fatos. No entanto, nenhum filme específico conseguiu abranger a história das perseguições em todas as etapas com grande abrangência. Enquanto “A lista de Schindler”, “O diário de Anne Frank”, “O pianista”, “Cinzas da guerra” e “O último trem” tratam de situações e personagens específicas durante o Holocausto, a minissérie envolveu a história de todos os judeus europeus e seus algozes, representados pelas famílias Weiss e Dorf. Por isso, nada mais justo que mantê-la no posto de marco da televisão mundial. É quase como uma triste alegoria da vergonhosa história da humanidade.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Teledramaturgia em crise?


Alguns tweets trocados ontem à noite com as jornalistas Tricia Cabral e Cristiane Batista, mais alguns comentários no próprio Twitter e em meu Facebook a respeito da novela “Vale Tudo” confirmam o que eu mais suspeitava: a teledramaturgia brasileira, que se tornou produto de exportação, consagrou carreiras e posicionou a rede Globo no seu padrão de qualidade, está descendo a ladeira, acelerando a cada dia.

A reprise de um grande sucesso como “Vale Tudo” é diferente daquelas costumeiramente vistas no “Vale a Pena ver de Novo”. No canal Viva, a telenovela está sendo reexibida na íntegra, segundo eu verifiquei, sem aqueles cortes do programa vespertino global. O que também pesa a seu favor na audiência é a sua atualidade e, mesmo, a curiosidade de rever atores 22 anos mais jovens. .

Os comentários a que me referi revelavam saudades de outras telenovelas marcantes, como “Cambalacho”, “Rainha da Sucata”, “Que Rei sou Eu?”, “Vereda Tropical” e outras das décadas de 1970 a 1990, e também referências à trama de 1988 sobre desonestidade, corrupção e esperança de um país. Pudera: tínhamos tramas muito legais e atores de gabarito que as sustentavam. Esses estão partindo aos poucos, e dos que ainda estão na ativa, poucos são os que ganham papeis de destaque – nem todos tem a sorte de Fernanda Montenegro, Suzana Vieira e Renata Sorrah, por exemplo.

É bom rever Glória Pires, Antônio Fagundes, Regina Duarte, Beatriz Segall, Reginaldo Farias e outros do time de peso da dramaturgia em ação, já que o espaço hoje vem sendo ocupado por rostos bonitos mas inexpressivos e atuações sofríveis, que muitas vezes acabam esquecidas por conta do açougue televisivo de carnes em abundância escapando de trajes mínimos – quando estes existem. Sim, quem acha excelente a atuação de Marcos Pasquin e Humberto Martins? Alguém?

Da nova safra do final da década de 1980 e início de 1990, poucos escapam. Eu coloco nessa lista Giulia Gam, que anda meio apagada ultimamente. Os bem mais novos vieram de “Malhação”, uma série que, creio eu, mais idiotiza do que distrai.

Enfim, a lista de perdas é grande – Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Gracindo, Sandra Bréa, Norton Nascimento e outros. Fico feliz de ver que a grande Cleyde Yáconis está ali, firme, perfeita como atriz completa. Tem muito a ensinar a esses modelos que se metem a atuar (bem o disse Glória Pires, há alguns anos).

Quanto às tramas, bom... Refizeram “Ti-ti-ti” colocando um humor meio forçado para meu gosto, com abusos do ar de malandragem nos diálogos. As demais novelas repetem fórmulas antigas e abusam de clichês. Não há reviravoltas surpreendentes (por que não matam o personagem principal?), fica tudo ao gosto do público, o que lhes tira a autenticidade - quem não se lembra do casal de lésbicas de “Torre de Babel”, apagadas da trama porque a “família brasileira” não concordava com aquilo (mentalize: aí a mãe de família põe chifre no marido, que por sua vez caça travestis de madrugada, e o filho de ambos participa de rachas e depreda o patrimônio alheio)?

Aqui e ali ainda aparecem boas surpresas, como “Senhora do Destino” e uma ou outra novela do Manoel Carlos com suas Helenas ou de Glória Perez. De qualquer modo, há muito tempo deixei de gostar de telenovelas. Impossível voltar a gostar – com essa safra péssima de atores novos e tramas superficiais, não dá. O jeito é entrar na máquina do tempo. Mesmo sabendo há duas décadas quem matou Odete Roitmann (nova geração: assista para saber quem, como e o motivo), vale a pena ver de novo!

sábado, 13 de novembro de 2010

Réquiem para Monteiro Lobato


De vez em quando vasculho a internet em uma onda de nostalgia para ler sobre programas da minha infância, com a curiosidade típica de saber o que aconteceu com as pessoas que deles participaram. O "Sítio do Pica Pau Amarelo" é o meu preferido, pois me traz de volta toda aquela inocência, aquele período puro, onde nada era problema, somente novidade, uma época que, relembrada, sempre traz um sorriso autêntico de saudosismo.

No caso do "Sítio", nessas minhas viagens ao passado descobri que o ator Ivan Senna, que interpretava o João Perfeito, faleceu em maio do ano passado (http://centraldenoticias.wordpress.com/2009/05/25/obituario-ivan-senna/). Na foto acima, ele aparece à esquerda do Visconde de Sabugosa (André Valli, que também já nos deixou). A cada ator daquela maravilhosa série que partia, eu sentia que ia um pedaço da infância. As mortes das eternas tia Nastácia e dona Benta - respectivamente Jacira Sampaio e Zilka Sallaberry - me levaram às lágrimas. O mesmo quando morreu o Valli. Foram personagens marcantes para mim e com certeza para muitos na minha faixa etária.

Não há como não comparar o atual "Sítio" com o antigo. A versão atual não tem mais aquela ingenuidade. Não gosto porque mostra algo que me deixa triste: as crianças de hoje deixaram de ser tão puras. Desde cedo são bombardeadas com a violência dos desenhos atuais, dos videogames, dos filmes para adultos em que elas entram sem serem barradas e com a conivência dos pais...

Os desenhos que assistiamos quando criança tinham violência? Sim, tinham, mas uma violência caricata, exagerada ao extremo para ser imediatamente suavizada com nossas gargalhadas. A de hoje faz a criança querer reproduzir aquilo com o coleguinha, na escola... Quem sabe não foi por isso que aquele garotinho matou o colega a queima roupa, com um revólver que havia trazido de casa?

Dizer que elas têm a conivência dos pais para assistir filmes para adultos não é exagero. Comentei recentemente no Twitter, um dia após assistir o (maravilhoso) "Tropa de Elite 2", que fiquei pasmo pelo fato de haver uma criança de pelo menos 7 anos de idade na plateia... acompanhada dos pais. Da minha geração não o são, pois desta os filhos ainda são criados do mesmo modo como o fomos pelos nossos genitores.

Em nossa infância, não havia todo esse lixo que hoje temos, com grupos de pagode armados de gostosonas seminuas, letras sofríveis e coreografias libidinosas demais; nem pseudo funkeiros que divulgam a homofobia, o machismo, a promiscuidade e a violência gratuita. O que quer que pudesse haver nesse sentido, nossos pais tinham o controle. Aprendemos a respeita-los e desse modo passar adiante essa necessidade de respeito.

Como passei de uma lembrança de infância a uma observação sobre o comportamento infantil hoje? É porque fico pasmo de ver crianças manipulando seus pais, fazendo escândalos nos lugares públicos para ter alguma coisa, terem péssimo comportamento com a família e com estranhos, até mesmo agredindo seus genitores. Por isso, tento enxergar onde está a culpa disso tudo, então me lembrei do "Sítio", que me lembrou de minha infância, da forma como meus pais me criaram e da cultura de massa.

E ainda querem censurar Monteiro Lobato... Tenha dó!!!!

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...