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terça-feira, 13 de setembro de 2022

LIVROS: "O bom doutor de Varsóvia", de Elisabeth Gifford (2018)


Janus Korczak, pseudônimo de Henry Goldszmit, foi um pediatra, pedagogo e autor de livros infantis judeu com grande respeito na Polônia, que jamais abandonou as crianças de seu orfanato durante a ocupação nazista de Varsóvia até ser enviado com elas para a morte nas câmaras de gás de Treblinka em 5 de agosto de 1942, durante as grandes deportações do gueto da capital polonesa que resultaram no assassinato em massa de cerca de 300 mil judeus ali aprisionados, dos estimados 500 mil residentes.

A história de seus atos corajosos e destino trágico é contada paralelamente à de Misha e Sophia, jovem casal que se apaixona durante seu trabalho com Korczak, mas que veem sua vida mudar radicalmente com a invasão nazista e a criação do gueto de Varsóvia. Tentando ajudar as crianças cuidadas pelo pedagogo, eles também buscam manter suas famílias a salvo das atrocidades dos invasores alemães e tentar garantir seu próprio futuro no inferno criado pelo Terceiro Reich. É assim que o jovem casal sai da cidade, mas apenas para testemunhar os terrores que o povo judeu já estava sofrendo em outras localidades.

É um relato comovente que reproduz momentos já conhecidos de quem lê sobre o tema, como o violento pogrom de julho de 1941 em Lvov, então parte da Ucrânia, atrocidades testemunhadas por Misha e Sophia em sua fuga dos horrores da capital polonesa, e hoje registrado em fotos disponíveis na internet, e o drama de Adam Czerniakow, líder do Conselho Judeu de Varsóvia que sofreu terrores psicológicos dos nazistas e escolheu o suicídio quando foi obrigado a colaborar com a seleção de pessoas nas deportações para Treblinka.

A obra traz ainda um posfácio onde a autora narra os destinos de Misha, Sophia e de outros sobreviventes de suas famílias após a libertação, bem como do resgate da importância de Janus Korczak na história da resistência ao nazismo, ainda que sem final feliz.

terça-feira, 30 de junho de 2020

LIVROS: "Treblinka", de Jean François Steiner (1967)

Em pouco mais de um ano de atividade a partir de julho de 1942, o campo de extermínio nazista de Treblinka, na Polônia, teve de 800 a 900 mil seres humanos assassinados nas suas câmaras de gás, a maioria esmagadora de judeus deportados dos guetos na execução da Solução Final. 

Quando o campo estava prestes a ser liquidado, ocasião em que os prisioneiros foram obrigados a exumar e incinerar os milhares de cadáveres das vítimas, um grupo iniciou uma revolta que deixou algumas centenas de sobreviventes que lograram escapar para as florestas, mas dos quais apenas 40 chegariam vivos ao final da guerra. 

É essa história que Steiner nos conta com base em entrevistas e pesquisas, trazendo a nosso conhecimento o funcionamento cotidiano de Treblinka, o desafio de sobreviver naquele inferno, os horrores testemunhados, a carnificina diária e a fantasia bizarra de um mundo novo que o comando do campo tentou criar, representado pelo falso relógio que marcava eternamente 3 horas na entrada do lugar. 

Steiner também nos revela toda a complexidade maligna dos "técnicos" da Solução Final em ludibriar e manipular suas vítimas nos guetos - o de Vilna é tomado como ilustração -, o uso dessa "fórmula" em Treblinka e como surgiram os primeiros lampejos da revolta, organizada aos poucos, assimilada por um comitê e adiada por várias ocasiões, até finalmente eclodir.

O romance de não ficção traz, por meio dos orquestradores da  revolta, fatos que rebatem a antiga crença de que os judeus se deixaram massacrar passivamente durante as perseguições nazistas. Em vez disso, situações dramáticas testemunhadas pelos prisioneiros que recebiam os comboios de deportados faziam brotar o sentimento de lutar para tentar sobreviver e levar a história do Holocausto ao mundo. 

Nota 4.5/5 no Skoob (26/06/2020).

domingo, 10 de fevereiro de 2019

LIVROS: "Dois irmãos, uma guerra", de Ben Elton (2012)

Dramas ambientados durante o Holocausto sempre tem uma carga emocional intensa por resgatarem momentos sombrios e absurdos de nossa História, e o romance de Ben Elton (editora Jangada, 496 páginas) não foge a essa característica, mas parte de uma surpreendente premissa ainda não explorada (pelo menos até onde sei) pela ficção: a vida de dois irmãos alemães, um judeu e outro ariano adotado pela família de judeus, e as implicações que surgem desse fato com a ascensão do nazismo.

Inspirado em histórias de sua própria família, Ben Elton apresenta em "Dois irmãos, uma guerra" o casal Frieda e Wolfgang Stengel, ela (nascida Tauber) estudante de Medicina e prestes a se formar, ele um músico que batalha para sobreviver na Berlim boêmia de 1920, em uma Alemanha desolada pela derrota na 1ª Guerra Mundial. Grávida de gêmeos, Frieda perde um dos bebês no nascimento, mas, por sugestão do próprio médico, adota outro recém nascido cuja mãe morrera no parto, naquele mesmo momento. Assim começa a história de Otto e Paulus, que crescem como irmãos num período em que o nacional socialismo começa a ganhar paulatinamente corpo na Alemanha.

Durante os anos seguintes, a família Stengel vai enfrentar as dificuldades cada vez maiores por conta das restrições que os judeus começam a sofrer. Em meio a isso, Otto e Paulus criam fortes laços com Silke Krause, filha da empregada de seus pais, e Dagmar Fischer, herdeira de uma rica família de comerciantes judeus, desde a infância - esta última, alvo da paixão dos dois rapazes. E os dramas que se sucedem vão fortalecer os laços do "Clube dos Sábados", como as quatro crianças resolvem batizar o grupo.

O livro não trata do período do Holocausto em si, mas de seus antecedentes (a narrativa se concentra de 1920 e 1940) e os efeitos sobre a população judia alemã: os boicotes, as exclusões e perdas de direitos, as leis raciais de Nuremberg, as prisões arbitrárias e confinamento em campos de concentração, as torturas e, finalmente, a famigerada Kristallnacht.

A narrativa transita entre a linearidade da história dos Stengel desde o nascimento dos meninos e capítulos passados em Londres em 1956, quando um dos irmãos recebe a notícia da suposta sobrevivência de um dos membros do grupo após a guerra. Esse mistério da identidade tanto do irmão quanto do sobrevivente vai se revelando em meio a uma montagem da história das famílias Stengel e Fischer.

Mas se teve um ponto que me marcou muito nesse romance, foram as cicatrizes profundas que a guerra e a perseguição deixaram nas pessoas envolvidas: escolhas impensáveis, decisões corajosas, traições, mentiras, instinto de sobrevivência, ressentimento, vingança e, acima de tudo isso, a loucura do ser humano provocada por anos de violência sem sentido. As revelações finais mostram tudo isso em momentos comoventes, por vezes dolorosos, que nos fazem questionar a bestialidade humana. Para quem gosta de dramas de guerra, trata-se de uma boa dica!


domingo, 30 de setembro de 2018

LIVROS: "Babi Iar", de Anatoly Kuznetsov (1966)

O escritor soviético Anatoly Kuznetsov (1929-1979) era quase um adolescente quando os alemães ocuparam sua cidade, Kiev, em 1941. As lembranças do jovem e das atrocidades cometidas pelos nazistas resultaram em "Babi Iar", um romance documentário de 1966 no qual Anatoly narra o sofrimento de seu povo durante os anos da invasão do exército de Hitler, principalmente a luta contra a fome e o medo constante de ser levado para o Babi Iar, uma ravina na qual aconteciam constantemente assassinatos de opositores e indesejáveis ao Terceiro Reich.

Babi Iar é conhecida como o local nos arredores de Kiev onde, nos dias 29 e 30 de setembro de 1941 - um mês após a invasão nazista -, 33.771 homens, mulheres e crianças judeus da cidade foram fuzilados metodicamente pelos Einsatzgruppen, tornando o lugar uma gigantesca vala comum. Mas opositores do regime e muitos cidadãos soviéticos foram também assassinados na ravina, fazendo com que o número total de vítimas nos dois anos de ocupação ficasse em torno de 200 mil pessoas.

Além do massacre dos judeus, narrado por Anatoly por meio do relato de uma sobrevivente, Dina Mirónovna, outro episódio relembrado foi o do time de futebol de Kiev, o Dínamo, chamado para disputar uma partida com o time alemão no verão de 1942. Os jogadores venceram os rivais, e por conta dessa vitória - que foi praticamente um ato de resistência contra os invasores -, foram levado ao Babi Iar e também assassinados.

A narrativa de Anatoly é forte, sobretudo quando expõe seus pensamentos de jovem diante dos invasores, uma mistura de raiva, medo e impotência, sua preocupação com o amigo judeu Churka Matza, com o pai no front e até mesmo com seu gato de estimação, Tito, e sua luta diária para sobreviver com sua família à escassez de alimentos.

Publicado no Brasil pela editora Civilização Brasileira, "Babi Iar" não teve relançamento mas pode ser encontrado em sebos.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

MINISSÉRIES: "Ventos da guerra" (The winds of war, 1982) e "Lembranças de guerra" (War and remembrance, 1988)


Elenco de "Ventos da guerra", que foi trocado em sua maior parte na sequência, "Lembranças de guerra"


A primeira vez que eu tive alguma visão dessa adaptação da volumosa obra de Herman Wouk foi quando, anos atrás, assisti a alguns trechos da minissérie "War and remembrance" (Lembranças de guerra") no documentário "Imaginary witness: Hollywood and the Holocaust", exibido pela HBO, cujo tema era o tratamento dado à perseguição e extermínio do povo judeu europeu pelo nazismo na produção cinematográfica após o final da Segunda Guerra Mundial. Eram cenas fortes pelo seu realismo: judeus (homens, mulheres e crianças) sendo fuzilados na ravina de Babi Yar, em Kiev, e o desespero de vários outros enquanto morriam dentro de uma câmara de gás em Auschwitz. Bastou isso para ter interesse em descobrir a obra completa.

Depois de muita pesquisa, consegui descobrir onde baixar a minissérie, tanto aquela dos trechos exibidos no documentário quanto sua predecessora, "Ventos da guerra" ("The winds of war"), as duas produzidas e dirigidas por Dan Curtis, com roteiro do próprio Herman Wouk. Não foi uma tarefa nada fácil. Ambas são produções hoje raras, indisponíveis em DVD /BD e streaming, encontradas apenas em sites de compra e venda. Até mesmo os livros dos quais foram adaptados só são encontrados em sebos (foi assim que os consegui).

"Ventos da guerra", exibido no Brasil pela rede Globo como "Sangue, suor e lágrimas", creio que em 1983 ou 1984, trazia um elenco muito bom, com atores veteranos e outros que estavam despontando para o sucesso naqueles anos: Robert Mitchum, Ali McGraw, Topol, Jan-Michael Vincent, Polly Bergen, Victoria Tennant e tantos outros. Entretanto, "Lembranças de guerra", a segunda parte da saga das famílias Henry e Jastrow, produzida cinco anos depois, trouxe mudanças em parte do elenco, o que, para quem só veio assistir tudo após quase três décadas da exibição original, causou um pouco de estranheza, uma vez que eu já havia me acostumado com os intérpretes anteriores. Mas são coisas da indústria do entretenimento, portanto, aceitáveis ainda que com restrições (nada a ver com o talento do elenco substituto, irrepreensível).
Jan-Michael Vincent como Byron Henry e Ali McGraw como Natalie Jastrow em "Ventos da guerra"

A minissérie toda é focada na trajetória de personagens de duas famílias do início ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os Henry (Victor, sua esposa Rhoda e seus filhos Byron, Madeline e Warren) são ligados à Marinha norte americana; os Jastrow (o escritor Aaron, sua sobrinha Natalie), são judeus que vivem em Siena, na Itália. Antes da invasão da Polônia pela Alemanha, que deflagra o conflito mundial, Byron Henry (Jan-Michael Vincent, substituído na sequência por Hart Bochner em razão de outros compromissos profissionais - segundo se diz) aceita trabalhar como assistente do professor Aaron Jastrow (John Houseman, que faleceu depois e foi substituído na sequência por John Gielgud). Na cidade italiana, conhece e se apaixona por Natalie Jastrow (Ali McGraw, substituída na segunda parte por Jane Seymour), sobrinha do professor, namorada do secretário da embaixada americana na Itália, Leslie Slotes (David Dukes). A história do envolvimento de ambos vai se misturar com os primeiros anos da guerra na Europa e a opressão gradual da população judaica em todo o continente.

Enquanto isso, o pai de Byron, Victor "Pug" Henry (Robert Mitchum) observa como oficial da Marinha os fatos que gradualmente levarão os Estados Unidos a entrarem na guerra. Ele é casado com Rhoda (Polly Berger) e pai também de Madeline (Lisa Elbacher, substituída depois por Leslie Hope) e Warren (Ben Murphy, trocado na sequência por Michael Woods), aviador. A relação familiar acaba ficando complicada pela guerra, gerando triângulos amorosos com Palmer Kirby (Peter Graves) e Pamela Tudsbury (Victoria Tennant), filha do jornalista Alistar Tudsbury (Michael Logan, substituído por Robert Morley na continuação).

Jane Seymour como Natalie Henry e John Gielgud como Aaron Jastrow em "Lembranças de guerra"

"Ventos da guerra" termina com o ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, e a entrada da nação norte americana na guerra contra Hitler. Além disso, mostra o início do Holocausto, com os fuzilamentos em massa de judeus da cidade de Minsk, na Bielorrússia então recém invadida pelos nazistas, fato documentado em fotos pelo judeu Berel Jastrow (Topol), primo de Natalie. Uma sequência não tão gráfica quanto aquelas vistas em "Imaginary witness", mas não menos chocantes.

"Lembranças de guerra" inicia justamente nos primeiros dias após o ataque à base naval norte americana, e a partir daí o pesadelo da guerra começa a atingir as famílias, provocando desencontros, sobretudo entre Byron, agora membro da frota de submarinos dos Estados Unidos, e Natalie, ambos casados e com o primeiro filho nascido, Louis. A partir daí as  histórias dos Henry e dos Jastrow correrão paralelas e em alguns momentos irão se cruzar em meio ao desenrolar da guerra, do aumento das perseguições nazistas, da execução do Holocausto e das tentativas de denunciá-lo ao mundo, das operações fracassadas para matar Hitler e dos conflitos amorosos e familiares de ambos os lados.

Com mais de 30 anos de idade, as duas produções ainda podem ser vistas atualmente como um ótimo trabalho de reconstituição de época, utilizando imagens de documentários e efeitos considerados hoje ultrapassados, principalmente miniaturas nas sequências de batalha no oceano Pacífico. Mas superando isso há também um elenco de apoio que parece ter sido escolhido a dedo para interpretar os personagens históricos reais: Ralph Bellamy como o presidente Franklin Roosevelt, Günter Meisner ("Ventos") e Steve Berkoff ("Lembranças") como Hitler, entre outros. Mas os que mais me chamaram a atenção, já na sequência "Lembranças da guerra", foram os atores Milton Johns como Adolf Eichmann, pela sua semelhança física com o executor do Holocausto, e Günther Maria Halmer, intérprete do comandante de Auschwitz, Rudolph Hoess - personagem que ele já havia interpretado antes em "A escolha de Sofia", de 1982.

As duas partes da minissérie servem como um importante registro histórico da Segunda Guerra Mundial, sobretudo o que se relaciona com o Holocausto, mostrando as engrenagens propulsoras de um dos crimes contra a humanidade mais horríveis já cometidos em razão de sua concepção e execução quase industrial. Vale a pena procurar pela internet os links disponíveis. Mais difícil, porém não impossível, é achar legendas compatíveis, principalmente para "Ventos da guerra", pois nos capítulos finais localizei apenas legendas sem sincronia ou divididas em dois arquivos, complicando assistir, pois cada capítulo tem a duração de um filme normal (alguns chegam a quase duas horas e meia). Mas o resultado vai ser satisfatório, no final das contas. É uma volta aos anos 1980 que vale muito a pena.

terça-feira, 11 de julho de 2017

FILMES: "O homem do prego" (The pawnbroker, 1964)

Sol Nazerman (Rod Steiger) é um judeu alemão de Leipzig que sobreviveu ao Holocausto, mas perdeu toda a família - a esposa Ruth, o casal de filhos e os pais. Vivendo agora com a cunhada em Nova York, na metade da década de 1960, ele sobrevive da loja de penhores que possui no Harlem. Fechado, frio e às vezes grotesco por conta de tanta insensibilidade com que lida com aqueles que procuram sua loja para "por no prego" algum bem em troca de algum dinheiro, ele usa essa crosta de desprezo para isolar e tentar esquecer o inferno que destruiu sua vida na Europa, um lugar que "fede", como ele retruca para a cunhada que o convida a passar um tempo de férias no Velho Mundo.



Esse é o fio condutor de "O homem do prego", um ótimo filme dirigido por Sidney Lumet que rendeu a Rod Steiger uma indicação ao Oscar - ele acabou levando o Bafta naquele ano. Nazerman o tempo todo é atormentado pelas lembranças mais terríveis do destino de sua família, que aparece logo no prólogo momentos antes de serem capturados e enviados a Auschwitz. O Harlem, como se percebe na sequência inicial onde Sol, após rejeitar o convite da família da cunhada para passar as férias na Europa, segue para sua pequena loja de penhores, lembra bastante os guetos europeus, com seu tráfego constante de pessoas, pedintes e vitrines repletas de calçados que remontam aos sapatos dos mortos reunidos no museu de Auschwitz.

Nesse ambiente, Nazerman utiliza a loja para lavar o dinheiro do mafioso Rodriguez (Brock Peters), sem saber exatamente sua origem. Ali também é visto como professor pelo latino Jesus Ortiz (Jaime Sánchez), seu jovem auxiliar dividido entre a oportunidade de aprender um novo ofício e o chamado do mundo da criminalidade. Outros personagens surgem em torno de Sol, os quais ele, em sua amargura e frieza, afasta com grosseria e desprezo, como Marylin Birchfield (Geraldine Fitzgerald), que flerta com o homem do penhor; Tessie (Marketa Kimbrell), outra sobrevivente do Holocausto com quem Nazerman mantém relacionamento e que na época do cativeiro fora esposa de um amigo dele, o qual não sobreviveu à perseguição; Mendel (Baruch Lumet), pai de Tessie, para quem a sobrevivência se tornou um fardo; e a prostituta namorada de Ortiz (Thelma Oliver), cujo assédio leva Nazerman a relembrar um dos momentos mais terríveis relacionados à sua esposa Ruth (Linda Geiser) durante sua captura e deportação - aliás, ambas as atrizes protagonizaram cenas de seios desnudos bem ousados para a época.

Tantas situações envolvendo criminosos e, posteriormente, um plano de assalto à loja de penhor orquestrado por Ortiz vão aos poucos minando a muralha de distanciamento e insensibilidade de Nazerman: ele testemunha um jovem negro tentar fugir de uma gangue, e isso lembra a morte do marido de Tessie em Auschwitz ao tentar fugir; a descoberta de uma das fontes de renda de Rodriguez dolorosamente lembra os estupros sofridos por Ruth logo após sua chegada ao campo de extermínio; e o metrô lhe força a imagem do vagão de gado onde foi mandado para Auschwitz com a família e centenas de outros judeus, onde acabou perdendo seu filho.


As lembranças vão se acumulando e surgindo em rápidos cortes, que aos poucos formam sequências inteiras. A partir daí fica mais compreensível a atitude de Nazerman, enquanto sobrevivente, em ser uma pessoa distante, na verdade um desiludido que parece existir por existir depois de tantos terrores. "Eu não sou discriminatório nem sectário. Preto, branco ou amarelo, são todos iguais... Escória. Rejeitados", afirma para seu auxiliar Ortiz, que o havia questionado sobre o fato de se referir a um cliente como "criatura" apenas por ele ser negro. Ou, como ele resiste com grosseria ao assédio da sra. Birchfield e esta lhe pergunta o motivo de ser tão amargo: "Eu sou um homem sem nenhuma raiva. Não tenho desejo de vingança pelo que foi feito comigo. Eu escapei das emoções. Estou salvo dentro de mim mesmo. Tudo que peço e quero é paz e tranquilidade"; "E por que não achou", pergunta Birchfield; "Porque as pessoas, como você, não me deixam!". Mas são as revelações da natureza involuntária do seu trabalho, entre outros fatores, que irão fazer ruir a muralha de frieza de Nazerman. Sem apelações nem clichês. Um filme forte e ao mesmo tempo sensível.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

FILMES: "O filho de Saul" (Saul fia, 2015)

De março a junho de 1944, aproximadamente meio milhão de judeus húngaros foram deportados pelos nazistas das cidades da Hungria para Auschwitz, onde foram assassinados nas câmaras de gás em um dos maiores e mais ágeis processos de extermínio já realizados pelo Terceiro Reich durante o Holocausto. Quem conhece esse fato histórico consegue identificar o período e o local em que se passa "O filho de Saul" (Saul fia), filme húngaro de 2015, dirigido por László Nemes, vencedor do Oscar de melhor filme daquele ano. Algumas imagens na película remetem a fotos bastante conhecidas daquele período, feitas clandestinamente e que mostrar o processo de assassinato de homens, mulheres e crianças em um ritmo desenfreado.


Diferente das demais produções centradas na perseguição e assassinato em massa da população judia europeia durante a Segunda Guerra Mundial, "O filho de Saul" concentra a trama em Saul (Géza Röhrig), judeu húngaro prisioneiro de Auschwitz, mantendo o foco em seu rosto na maior parte do tempo, enquanto o restante do cenário é propositalmente desfocado, mas de um modo que ainda se permite entender as ações ao redor do prisioneiro. Assim, logo nos primeiros minutos, descobrimos que Saul é um dos Sonderkommandos, judeus destacados para a indigesta missão de conduzir os deportados para os vestiários e câmaras de gás, encarregando-se depois de levar os cadáveres até os fornos crematórios.

É em meio aos mortos recolhidos nas câmaras que Saul encontra um menino ainda vivo, que acredita ser seu filho, do qual foi separado durante a deportação ao campo. Obviamente, o garoto é posteriormente executado por sufocamento por um dos carrascos nazistas para que seu cadáver seja enviado para as chamas junto com os demais. É aqui que começa o drama dentro do drama de Saul: crente que o menino era seu filho, ele quer resgatar o corpo para dar-lhe um enterro digno em meio ao inferno de Auschwitz, onde o tempo todo mais judeus chegam e são assassinados. Ele chega ao ponto de em desespero procurar um rabino entre as novas vítimas da Solução Final, literalmente despejadas no campo de extermínio.


A forma de Nemes contar a história de um homem que busca manter um pouco de dignidade em meio ao caos choca. São cenas quase documentais que na maior parte expõem a loucura e a violência de um processo insano sem apelar para o explícito. Há outras cenas reveladoras do local e da época da trama: em uma delas, um prisioneiro clandestinamente tira fotos, de dentro de uma das barracas de Birkenau, da queima dos cadáveres em fossas ao ar livre, imagens recorrentes nos livros sobre o assunto.

Até o final do filme, a saga de Saul vai revelar outros aspectos históricos do Holocausto, como a tentativa de rebelião em Auschwitz - já tratado especificamente em outro filme, "Cinzas da guerra" -, para a qual é "recrutado". Mas, para ele, o mais importante é permitir ao filho um descanso digno após ser sacrificado em uma vida na qual os nazistas impediram a dignidade até o momento da deportação e extermínio.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

FILMES: "O último trem" (De letzte zug, 2006)

O embarque para Auschwitz: 688 judeus alemães enviados para a morte 

 Em 19 de abril de 1943, 688 judeus remanescentes de Berlim, na Alemanha nazista, foram aprisionados e enviados em vagões de gado para o campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia ocupada. Essa viagem infernal com destino à morte é contada em “O último trem” (Der letzte zug), traduzido também como "O último trem para Auschwitz", produção alemã dirigida em 2006 por Joseph Vislmaier e Dana Vávrová.

O trajeto dessas centenas judeus de diversas origens e idades – famílias inteiras, casais jovens, idosos, bebês de colo – é marcado por privações terríveis e ignoradas (e mesmo incentivadas) pelos algozes nazistas, como falta de água e condições sanitárias nos vagões lotados – episódios que se repetiram por toda a Europa nazista durante a Segunda Guerra Mundial com a implementação da Solução Final. O que se passa durante a viagem fatídica é contado do ponto de vista de vários prisioneiros enfurnados em um dos últimos vagões – o jovem casal Henry e Lea Neumann (Gedeon Burkhard e Lale Yavas), sua filha Nina (Lena Beyerling) e o irmãozinho de colo; o ator idoso Jakob Noschik (Han-Jürgen Gilbermann) e sua mulher Gabrielle Hellman (Brigitte Grothum); o casal Albert Rosen (Roman Roth) e Ruth Zilberman (Sibel Kekilli), que tentam inutilmente fugir antes do embarque; o obstetra dr. Friedlich (Juraj Kukura) e sua filha Erika (Sharon Brauner) com o bebê desta; e vários outros personagens unidos pela mesma trágica sorte.

A viagem dos prisioneiros acaba se prolongando por cerca de uma semana, piorando as condições dentro do trem. Além da falta de alimentos e de higiene, a loucura começa a afetar alguns dos aprisionados. No vagão onde a trama se concentra, alguns prisioneiros tentam abrir um buraco no chão aproveitando as longas paradas do trem, na esperança de uma fuga aparentemente impossível, ideia incentivada por Albert Rosen ainda na plataforma de embarque, para a qual atrai Henry Neumann e outros judeus. Serrar as grades do vagão para tentar abrir a porta e permitir a fuga de todos também é uma tentativa desesperada, mesmo sob o risco de caírem sobre os trilhos ou serem baleados pelos guardas nazistas que vigiam os vagões. Em meio ao drama, eles relembram suas vidas antes das perseguições.

A cada estação, os pedidos de piedade são ignorados pela população – principalmente por medo dos nazistas – e levam diversão aos soldados que aproveitam cada apelo para revelar seu sadismo – sob efeito de bebida alcoólica, atiravam a esmo para dentro dos vagões lotados ou matando indistintamente quem se atrevesse a reclamar das privações. Em alguns casos, a água era conseguida quando os prisioneiros, através das brechas dos vagões ou pelas janelas, atiravam seus últimos pertences como forma de pagar pelo líquido.

A monstruosidade de um crime como o Holocausto, nesse filme, aponta fatos que acabam sendo, de um modo comovente, bizarros. Em uma cena, os prisioneiros veem, pelas grades do vagão, soldados armando forcas em uma das estações. Apavorados, aguardam pelo pior, mas ao verem que outros homens judeus foram escolhidos para serem mortos ali, abraçam-se em alegria, mesmo cientes do destino igual que os aguardava no final da linha. Ainda assim, continuam tentando abrir o buraco no chão do vagão após tentarem fugas infrutíferas ou fazerem escolhas terríveis para não enfrentarem as câmaras de gás de Auschwitz: suicídios e assassinato dos próprios familiares.

As viagens nos “trens da morte” durante o Terceiro Reich figuram apenas como sequências em outros filmes sobre o Holocausto, como “A lista de Schindler” e “O pianista”, mas aqui esse transporte macabro é o cenário permanente da história. Entram como personagens não apenas vítimas e algozes, mas pessoas que fizeram parte da engrenagem do extermínio. Um dos maquinistas, mesmo ciente da carga que transporta, parece se conformar, mesmo lamentando as condições às quais os judeus são submetidos, e seu colega, aborrecido, acaba por lhe revelar: fora apaixonado por uma judia que acabara sendo assassinada. Naqueles anos de loucura, até mesmo uma tragédia pessoal se tornava banal.


domingo, 19 de maio de 2013

Comentário: "A chave de Sarah" (Elle s'apelant Sarah/Sarah's Key, 2010)

Julie Zérac (Kristin Scoth-Thomas) no Museu do Holocausto: segredos em família
Em julho de 1942, Sarah Starzinsky (Mélusine Mayance) e seus pais foram presos pela polícia francesa que arrebanhava todas as famílias judias na Paris ocupada pelos nazistas para enfurná-los durante dois dias em condições deploráveis no Velódrome H’iver (Velódromo de Inverno), primeira parada antes do envio da capital francesa ao campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia invadida pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, a pequena leva consigo a chave do armário onde trancara o irmãozinho Michel, em uma atitude desesperada de salvá-lo de um destino até então desconhecido.
Imagem real dos judeus aprisionados no Velódrome H'iver, em 1942

É a história da menina judia, contada em “A chave de Sarah” (Elle s’apelant Sarah/Sarah’s key), do diretor Gilles Paquet-Brenner, que irá marcar, mais de 60 anos depois, a vida da jornalista Julie Zérac (Kristin Scoth-Thomas), empenhada em escrever uma reportagem sobre o episódio que mostrava o colaboracionismo francês para a execução do Holocausto. Suas pesquisas acabam mostrando que a tragédia de Sarah e sua família acaba, no final das contas, tendo uma ligação direta com a própria história de Julie, casada com o arquiteto Bertrand Zérac (Frédéric Pierrot) e mãe de uma adolescente, e agora prestes a descobrir uma gravidez inesperada em plena maturidade. 
 
O apartamento dos pais de Bertrand, Julie descobre, era ocupado pelos Starzinsky até serem presos e deportados. A partir dessa descoberta, a vida da jornalista se firma em uma obsessão na busca do destino de Sarah e seu irmão Michel – o casal Starzinsky, eventualmente, foi assassinado em Auschwitz com outros 75 mil judeus franceses durante a Segunda Guerra Mundial.

A família Starzinsky capturada em Paris: episódio vergonhoso
“A chave de Sarah” expõe, além do colaboracionismo francês com as perseguições nazistas, os traumas que ficaram para os sobreviventes – a exemplo de “A escolha de Sofia” (1980), de Alan Pakula – e para quem se envolve na história. Na busca pelo destino de Sarah, Julie acaba descobrindo vários segredos envolvendo a família do marido.

O filme não traz elementos comuns a outros com o mesmo tema. Somente as cenas do Velódrome, onde os 13 mil judeus franceses foram aprisionados, e do campo de transição de onde foram gradualmente enviados para Auschwitz – exibidas no prólogo e entrecortadas com a narrativa da busca de Julie - tratam diretamente do Holocausto. A reflexão aqui cabe não apenas ao papel dos franceses e suas autoridades com a Solução Final, mas também à necessidade de que a enormidade de um dos crimes mais monstruosos do século 20 não seja esquecida. Em uma das cenas, dois jovens jornalistas demonstram total desconhecimento a respeito do episódio do Velódrome, não documentado pelos nazistas. O esclarecimento vem da própria Julie: “não foram os alemães”. Ou seja, a barbaridade até então estranha ao comportamento francês começa a ser revelada. E isso vai afetar profundamente a vida de Julie.

Publicado no caderno Plateia, jornal Amazonas em Tempo de 19/05/2013

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Comentário: "A espiã" (Zwartboek, 2006)

Carice Von Houten como Rachel Stein


Carice como Ellis de Vries
Em um kibutz do recém criado Estado de Israel, em 1956, Ronnie (Halina Reijin), em viagem turística com o marido canadense, reencontra Rachel Stein (Carice Von Houten), a quem conhecera nos tempos da guerra na Europa como a cantora Ellis de Vries, e não esconde sua surpresa ao vê-la ali como professora de crianças e - mais surpresa ainda - assumindo sua origem judia. A partir da pergunta de Ronnie - "Como você veio parar aqui?" -, é contada em flashback a história de Rachel e da gênese de Ellis de Vries na Holanda ocupada pelos nazistas nos fins de 1944, nesse filme dirigido por Paul Verhoeven.


Com o desfecho da Segunda Guerra próximo e a derrota alemã tida como inevitável, os judeus holandeses ainda eram perseguidos. Umas poucas famílias ricas conseguem comprar sua fuga para territórios neutros onde poderão aguardar em segurança o fim do conflito - entre elas, Rachel, seu irmão caçula e os pais. Até então, ela vivia escondida no sótão de uma família cristã holandesa, tendo que tolerar comentários como "os judeus deveriam ter aceitado Cristo e não estariam passando por isso" em troca de segurança e um prato de comida. Porém, a casa é destruída em um bombardeio, e Rachel é levada por um amigo, Maarten (Xander Straat), para sua própria residência. Ali, são descobertos por Van Gein (Peter Blok), membro da Resistência, que aconselha a jovem cantora a fugir com um grupo de perseguidos em uma travessia de rio segura até a Bélgica. É no local de encontro que Rachel reencontra a família, levando Maarten junto para evitar retaliação contra o rapaz por haver escondido uma judia.

A viagem, no entanto, termina mal. O barco é interceptado por soldados alemães no meio do rio e os passageiros, entre eles Maarten e a família Stein, são fuzilados. Rachel é ferida de raspão e pula no rio, desaparecendo da vista dos carrascos e chegando à margem do rio, de onde, escondida, observa os nazistas surrupiando roupas, dinheiros e outros bens dos mortos. 

Ludwig Muntzen (Sebastian Koch)
É nessa fase que surge Ellis de Vries, transformação total de Rachel, que agora entra na Resistência a despeito do disfarçado antissemitismo de alguns integrantes do grupo, evidenciado por comentários ácidos. Essa metamorfose é radical: Rachel/Ellis torna seus cabelos louros, cor que estende aos pêlos pubianos, no afã de convencer seus inimigos da sua "pureza racial" e assim lutar não somente pela liberdade, mas para vingar o assassinato de sua família. Nesse rumo ela vai se infiltrar no lado inimigo ao aproximar-se do oficial Ludwig Muntzen (Sebastian Koch) e travar conhecimento com outro oficial, Gunther Franken (Waldemar Kobus), o qual ela reconhecerá como o líder do grupo que promoveu a matança de sua família, de Maarten e dos demais fugitivos. Em meio a isso, inclusive a uma súbita paixão por Muntzen, Ellis tem que lidar com Hans Akkermans (Thom Hoffman), membro da Resistência que lhe dá apoio e que eventualmente se insinua para ela.

Mostrados os personagens e o fio central da história, basta dizer que nem tudo é o que parece. Muitas surpresas acontecem na trama e alguns papéis se invertem. Ellis/Rachel participa de ações arriscadas e acaba se tornando, em certo momento, vítima da paixão genuína que sente por Muntzen e alvo da fúria da Resistência após uma fracassada tentativa de resgate de reféns.

O aspecto interessante é que "A espiã" não tem aqueles estereótipos de mocinhos e bandidos. Pelo contrário, iguala os dois lados quando o assunto é crueldade. A vingança dos holandeses mais exaltados contra os colaboracionistas dos nazistas não perde em selvageria para os atos dos algozes alemães: os traidores da pátria são trancafiados em gaiolas onde defecam e urinam em baldes e ainda são obrigados a mostrar seus genitais para escárnio de uma plateia de bêbados. Além disso, mulheres que se tornaram amantes de oficiais nazistas têm seus cabelos raspados e são espancadas (cena similar foi protagonizada por Monica Bellucci em "Malena", de 2000, filme brilhante de Giuseppe Tornatore que também merece um comentário). 

Finda a guerra, de volta à época do início do filme, Rachel, agora casada e mãe, longe dos ecos do Holocausto, parece não encontrar a resposta para uma pergunta que faz em um momento de desespero em meio ao terror nazista: "será que isso nunca acaba?". A cena final, no entanto, propõe para o espectador essa resposta. Basta assistir e compreender.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Comentário: "Amém" (Amen, 2002)

O oficial nazista Kurt Gerstein foi uma das testemunhas do processo de extermínio das populações "indesejáveis" (principalmente a judaica) da Europa sob ocupação do Terceiro Reich, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Seu depoimento escrito foi conhecido após o final do conflito e com a descoberta (aliás, confirmação) das atrocidades do regime de Adolf Hitler, principalmente a máquina genocida movida contra judeus, ciganos, homossexuais e outras minorias consideradas inferiores sob o ponto de vista da "raça ariana superior". Gerstein foi o responsável pelo desenvolvimento do Zyklon B, produto criado para utilização sanitária mas que teve o uso desviado para o assassinato em massa nos campos de extermínio. Diz a História, também, que o oficial tentou levar a conhecimento do Vaticano as barbaridades cometidas pelos carrascos após testemunhar o uso do produto nos campos de Belzec e Treblinka, dois dos centros de matança daquela época.

Kurt Gerstein (Ulrich Tukur, à direita)
A história de Kurt Gerstein e da inércia da Igreja Católica diante do Holocausto é contada no filme "Amém", dirigido por Costa-Gavras em 2002. Após ver a morte de famílias judias inteiras nas câmaras de gás de Belzec, o oficial, interpretado por Ulrich Tukur, tenta levar as informações sobre o fato ao Papa Pio XII (Marcel Iures), encontrando apoio no padre Ricardo Fontana (Mathieu Kassovitz). No entanto, interesses políticos impedem uma posição do Vaticano a favor dos perseguidos, e assim a Solução Final segue em andamento, até quando os judeus de Roma começam a ser arrebanhados para deportação aos campos de morte.

Ricardo Fontana (Mathieu Kassovitz)
Não há cenas típicas dos filmes sobre o tema do Holocausto, restringindo-se a trama às relações entre a Igreja Católica e o Terceiro Reich. O extermínio dos judeus é sugerido pelas imagens de trens de gado partindo fechados para os campos e retornando abertos e vazios, bem como da visão de Gersten, à distância e à noite, da tentativa dos criminosos de esconder os vestígios do assassinato em massa, desenterrando e queimando os cadáveres de suas vítimas. Porém, o filme ainda faz menção a um fato pouco explorado na história da ditadura nazista: o programa de "eutanásia" executado antes da Segunda Guerra Mundial na Alemanha, no qual milhares de cidadãos portadores de algum tipo de deficiência (mental ou física), independente de raça ou nacionalidade, foram eliminados em diversos centros médicos, asfixiados por monóxido de carbono, em nome da "purificação" da raça e como uma prévia ao que aconteceria anos depois em lugares como Auschwitz, Treblinka, Belzec, Chelmno e Sobibor. Enquanto houve posições enérgicas da Igreja Católica quanto às "mortes misericordiosas", o silêncio foi total quando a Solução Final estava a pleno vapor na década seguinte. 

O filme deixa em aberto uma espécie de cumplicidade da Igreja na cena final, com o passeio em uma tarde pós-guerra da liderança religiosa com o carrasco nazista. É o ponto em que Costa-Gavras alfineta a omissão do Vaticano, cujo impacto viria a ser minimizado décadas depois com o pedido de perdão do Papa João Paulo II à comunidade judaica pelas perseguições históricas executadas pelo Cristianismo, das quais a Inquisição e o Holocausto podem ser considerados os expoentes máximos.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Comentário: "Amarga sinfonia de Auschwitz" (Playing for time, 1980)

Em uma das cenas de "Amarga sinfonia de Auschwitz", Fania Fenelon (Vanessa Redgrave) grita para as outras prisioneiras que está cansada de rótulos e é apenas um ser humano. É um dos diversos momentos de destaque desse telefilme de sucesso de 1980, baseado nas memórias de Fania Fenelon (1908-1983), judia francesa e cantora deportada para Auschwitz no início de 1944, após ser denunciada também por ser membro da Resistência durante a ocupação nazista.
Vanessa Redgrave interpreta a cantora e membro da Resistência Fania Fenelon

Ao entrar no universo de vida e morte de Auschwitz, o mais famoso campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial, no sul da Polônia ocupada pelos nazistas, Fania passa a fazer parte da orquestra de mulheres (judias ou não) do local, que faz apresentações para seus carrascos e para os prisioneiros judeus recém chegados ao lugar e selecionados para a morte nas câmaras de gás. Os dilemas em nome da sobrevivência são muitos. Alma Rosé (Jane Alexander), a regente da orquestra, é uma mulher judia rigorosa com as companheiras a ponto de parecer em alguns momentos estar alheia à carnificina diária promovida pelos nazistas, e com quem eventualmente Fania tem diálogos duros sobre suas ações. Transportada juntamente com Fania para o campo, Marianne (Melanie Mayron) também entra para o grupo, mas recorre à prostituição para obter comida. Por se considerar meio judia pelo fato de sua mãe ser católica, Marianne dá-se o direito de usar meia estrela de Davi em sua roupa, como se fosse uma garantia ainda que insuficiente de sobrevivência, pelo que é criticada pelas demais prisioneiras.
Jane Alexander como Alma Rosé

O filme revela uma atmosfera meio que surreal do campo de Auschwitz, célebre pelas altas cifras de mortes de judeus, ciganos, opositores do regime nazista, homossexuais e outras minorias perseguidas. A líder do campo Maria Mandel (Shirley Knight, que apareceu recentemente como Phyllis, a sogra de Bree Van De Kamp, personagem de Marcia Cross em "Desperate housewives") é uma carrasca brutal que espanca os prisioneiros e toma para si o filho pequeno de uma judia condenada à câmara de gás. No entanto, é uma mulher que pessoalmente procura um par de sapatos que sirva para a recém chegada Fania, colocando-os em seus pés, e não esconde sua dor ao ser obrigada a entregar à morte o menino que tirara da mãe prisioneira. O dr. Mengele (Max Wright, conhecido pelo papel de William Tanner na telessérie da década de 1980, "Alf, o E.Teimoso") revela sentimentos de compaixão e amor, a despeito de o personagem real historicamente ser conhecido pelas experiências bárbaras realizadas em Auschwitz e também responsável pelas seleções para o extermínio. Sobressaindo-se a esse lado humanizado da figura do carrasco, seu caráter evidenciado pela História volta a surgir, ao determinar que a orquestra feminina ensaie uma apresentação musical para um grupo de prisioneiros formado por doentes mentais sob o pretexto de estudar as suas reações à música. Logo depois, todas as pessoas seriam executadas nas câmaras de gás.
Shirley Knight como Maria Mandel

É nessa luta pela sobrevivência que conflitos morais são colocados em evidência pelas prisioneiras em sua luta diária para terem suas vidas poupadas. Há momentos de grande esperança: em uma das cenas, um dos prisioneiros judeus aproxima-se de Fania e lhe mostra a palma da mão, onde está escrito "Os aliados desembarcaram na Normandia"; em outra, as prisioneiras comemoram a fuga de uma judia influente, Mala, interpretada por Maud Adams, de "007 contra Octopussy", crentes de que ela e seu amante Edek (Lee J. Nelson) poderiam revelar ao mundo as barbáries de Auschwitz. No entanto, tais esperanças logo são destruídas: aviões que sobrevoam a região são abatidos pela artilharia antiaérea nazista, e Mala e Edek são recapturados e enforcados em frente ao barracão das prisioneiras. O pesadelo se arrasta até a morte de Alma Rosé, envenenada por uma guarda nazista que preferiu matá-la a deixá-la sair de Auschwitz para o front onde cantaria para soldados alemães (pela afronta aos superiores, a guarda foi fuzilada). Única garantia de vida para todas as mulheres da orquestra, sua perda significava incerteza para o grupo, que passa a ter sua liderança disputada entre Fania e a polonesa Olga (Christine Baranski, que apareceu como mãe do nerd Sheldon em "The Big Bang Theory"). Parte das mulheres sobreviveu até o dia da libertação.
O elenco da orquestra de Auschwitz

Na história real de Fania Fenelon, Auschwitz foi evacuado com a aproximação dos aliados e as prisioneiras foram levadas a Bergen Belsen, onde a libertação chegaria em abril de 1945. Das cerca de 80 componentes do grupo, 47 sobreviveram ao Holocausto. Maria Mendel foi presa, condenada por crimes contra a humanidade e executada em Cracóvia, Polônia, em 1948. Fania escreveu suas memórias e morreu de câncer em Paris, em 1983. Sua história não é somente um retrato da brutalidade das perseguições na Europa nazista representada por Auschwitz e seu duro leque de dilemas, mas também de esperança e luta.


Onde baixar: Filmes Cult

quarta-feira, 14 de março de 2012

Anne Frank e as trevas da ignorância


No último dia 12, uma homenagem resgatou a data em que, em 1945, a adolescente Anne Frank, aos 15 anos, sucumbiu ao tifo e à inanição no campo de concentração de Bergen-Belsen, para onde havia sido mandada com sua irmã Margot, também vítima das condições insalubres do lugar, dias antes. A história da menina judia é bem conhecida de quem tem conhecimentos sobre literatura e cinema, pois o diário resgatado após o final da Segunda Guerra pelo pai de Anne e Margot, Otto (único sobrevivente da família Frank) foi levado a público e adaptado para o teatro, televisão e cinema.

A história de Anne Frank é apenas uma entre milhões de outras, sobre vidas ceifadas pela intolerância disseminada na Europa pelos nazistas em um dos episódios mais negros do século 20. Por seu caráter praticamente industrial, levado a extremos, o Holocausto (e aqui não incluo somente os judeus, mas também outras populações perseguidas e quase exterminadas em nome da "superioridade racial ariana", como os ciganos, os portadores de deficiência assassinados no programa de eutanásia, os homossexuais e outros) é o ápice da desgraça humana. Como uma pestilência, o antissemitismo e a intolerância com o diferente espalhou-se pela Europa nazista, mergulhando-a nas trevas. Escuridão essa que nunca dissipou totalmente.

Os crimes nazistas, ao mesmo tempo em que revoltaram o mundo, fizeram escola. Em várias partes do globo grupos de pessoas reverenciam a memória de Hitler, atacam seus semelhantes pelo simples prazer de fazer o mal sob a desculpa de uma falsa superioridade. Até mesmo no Brasil, em terras consideradas pacíficas, verdadeiros bandidos queimam, agridem, matam, mutilam, perseguem os que são diferentes. E mesmo entre os perseguidos, há os perpetradores de preconceitos contra seus semelhantes. 

Em seu diário, cuja versão em português tive a oportunidade de ler, assim como assistir à primeira versão cinematográfica de George Stevens, Anne narra os anos em que passou escondida com seus pais e sua irmã, e mais outra família judia, os Van Daan, em um sótão em Amsterdã, Holanda, durante a ocupação nazista. Enquanto vê o cerco se apertar sobre todos, registra seu cotidiano, suas descobertas de adolescente e as impressões sobre a guerra e a perseguição ao seu povo. Escondidos com a ajuda de amigos cristãos, isso não impediu que alguém entregasse o esconderijo e as famílias Frank e Van Daan tivessem o destino de outras milhões de famílias judias, enviadas às câmaras de gás ou trabalho escravo nos campos de concentração. Somente Otto Frank escapou da morte e conseguiu tornar o diário da filha um testemunho de vidas destruídas pela intolerância. 

Em vez de o mundo refletir com as palavras de Anne, preferiu seguir as trevas da ignorância. Tempos depois, nos Bálcãs, uma "limpeza étnica" resultou na morte de milhares. Em Ruanda, uma briga política resultou no genocídio de mais de 1 milhão de tutsis em menos de três meses, perpetrado pela maioria hutu. No Oriente Médio, palestinos, israelenses, curdos e todos os tipos de grupo humano matam e são mortos em nome de ideais egoístas e questionáveis. E esses são aqueles conflitos humanos de maior impacto. O que ocorre e não chega a nosso conhecimento, sim, ainda impede de se antever o quanto é grande a nossa monstruosidade.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Comentário: Holocausto (1978)


Há mais de três décadas, a minissérie “Holocausto” (Holocaust: the story of the family Weiss, 1978) foi um marco na história da televisão. Até então, não se tinha conhecimento de produção tão realística sobre a perseguição sofrida pelos judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial por obra do nazismo. Ainda que posteriormente tenham surgido filmes mais fortes baseados no tema, como “A lista de Schindler”, “Cinzas da guerra” e “O pianista”, “Holocausto” ainda hoje é referência por haver sintetizado toda a história das perseguições antissemitas que culminaram com a política de extermínio batizada de “Solução Final” do Terceiro Reich.

A trama começa em Berlim e se divide entre as famílias Weiss, de judeus, e Dorf, de alemães, a partir de 1935, com o casamento entre o pintor Karl Weiss (James Woods) e a cristã Inga Helms (Meryl Streep), um pouco antes das primeiras leis de Nuremberg proibirem casamentos mistos, com o partido nazista em plena ascensão.  Erik Dorf (Michael Moriarty) é um advogado desempregado, casado com Marta e pai de dois filhos. Paciente do dr. Josef Weiss (Fritz Weaver), Dorf acaba ingressando no partido nazista por insistência da esposa, como forma de sustentá-los. A partir daí, graças a sua inteligência e dedicação cega, começa a ascender e tomar parte ativa no programa de extermínio dos judeus europeus, incluindo a família Weiss.
Inga (Meryl Streep) e Karl Weiss (James Woods)
 A ascensão de Dorf é pontuada por vários momentos históricos do domínio nazista, como a Solução Final e o estabelecimento dos campos de extermínio em substituição aos massacres de populações judias por fuzilamento (os Einzatsgruppen), a criação dos guetos e a manipulação das informações para tentar tornar o genocídio politicamente aceitável. Suas atitudes frias e olhar igualmente apático diante das atrocidades que determina e testemunha são em parte incentivadas pela mulher Marta, interessada em tirar proveito da guerra para sobrevivência de sua família, mesmo que isso signifique a destruição de outras pessoas. Em um momento, Erik Dorf parece fraquejar diante dos massacres, mas a esposa se impõe para incentivá-lo, mesmo sabendo que no futuro poderão responder pela barbárie. Assim é que supervisiona os pelotões de fuzilamento na Rússia, as câmaras de gás e crematórios de Auschwitz, sem demonstrar um pingo de incômodo ou pena com o destino dos “inimigos do Reich”.
Anna Weiss (Blanche Baker)
 De outro lado, o destino da família Weiss ilustra cada degrau das perseguições. Josef Weiss é proibido de clinicar, mas ainda atende cidadãos judeus e alemães (ou arianos, como se tornou expressão corrente daqueles tempos). Sua insistência em driblar a repressão em nome do profissionalismo e preocupação com o próximo acabam levando-o a ser deportado para a Polônia, seu pais de origem. Lá, com o irmão Moses (Sam Wanamaker), testemunha o surgimento do gueto de Varsóvia (que seria visto com mais propriedade e riqueza de detalhes em “O pianista”, de Roman Polanski, sobrevivente dessa época de terror), a mortandade provocada por epidemias e perseguições eventuais aos segregados, as deportações da população do gueto para Treblinka e outros campos de morte, a luta pela sobrevivência por meio do contrabando de alimentos e o início dos planos de resistência que culminariam no Levante do Gueto e seu extermínio em 1943. Antes da batalha, Josef é enviado a Auschwitz com a esposa Berta Weiss (Rosemary Harris, uma atriz de respeito), onde são mortos nas câmaras de gás.

Berta Weiss é uma mulher culta, filha de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial. Mesmo com a Kristallnacht (o pogrom incitado pelos nazistas em toda a Alemanha após o assassinato de um diplomata alemão por um jovem judeu em Paris, em 1938), na qual seus pais perdem a livraria (suicidando-se em seguida), a deportação de Josef para a Polônia e a prisão de Karl, o filho mais velho, e seu envio para o campo de concentração de Buchenwald, ela acredita em tempos melhores, até a noite em que a filha mais nova, Anna (Blanche Baker), foge de casa após uma discussão, é agarrada e estuprada por três nazistas. A adolescente de 16 anos fica retraída e enlouquece, sendo internada pela cunhada Inga em um hospital que era, sem que se soubesse, um centro de matança de doentes mentais e deficientes físicos, que eram agrupados em um depósito e asfixiados por monóxido de carbono, destino definido pela política nazista de purificação da raça. Sem Anna, Berta permanece com Inga até ser deportada para Varsóvia, onde reencontra o marido no gueto, ajuda a financiar a compra de armas para a resistência mas não a testemunha, sendo enviada com ele para Auschwitz.
Rudi Weiss (Joseph Bottoms) e Helena (Tovah Feldshuh)

Karl Weiss e Inga Helms são personagens cujos encontros tornam-se errantes no decorrer da trama. Inga protege a nova família contra a hostilidade de seus pais e irmão, contrários a que ela continue casada com Karl. Ele é preso, enviado a Buchenwald, um campo de trabalho forçado onde testemunha a execução de ciganos e sofre as maiores torturas. Graças a Inga, que precisa ceder ao assédio de um dos comandantes do campo e amigo da família Helms na tentativa de salvar o marido, Weiss vai para Theresienstadt, um “gueto modelo”, na verdade uma farsa armada pelos nazistas para tentar desviar a atenção dos tormentos sofridos pela população judia, onde pode exercer suas atividades de pintura. Inga consegue ser enviada para lá, acompanhando o marido. Ali, a indignação crescente com as perseguições transformam Karl em um artista engajado em mostrar a verdade ao mundo em desenhos que retratavam a brutalidade nazista, em contraponto às ilustrações fantasiosas as quais era obrigado, junto com outros dois prisioneiros, Weinberg e Frey, a fazer para os carrascos. Descobertos, os três são torturados para informar a localização de outros desenhos, resistindo até o fim.  Somente Karl sobrevive e, após ter as mãos quebradas, é mandado para Auschwitz, onde morre de fome.  Antes da deportação, Inga lhe conta que espera um filho, decidindo tê-lo mesmo sob os protestos de Karl, que não queria ver uma criança nascendo em um “lugar amaldiçoado” como Theresienstadt.
Erik Dorf (Michael Moriarty)

Os dois últimos membros da família Weiss marcam outros momentos da história do Holocausto. Rudi Weiss (Joseph Bottoms), filho do meio de Josef e Bertha, sempre temperamental, deixa Berlim após a deportação do pai para a Polônia. Em suas andanças fugindo dos nazistas, conhece a jovem judia Helena Slomova (Tovah Feldshuh) em Praga, tornando-a sua companheira. E é assim que ele testemunha a ocupação da Rússia pelos alemães e o massacre dos judeus da região em fuzilamentos em massa, como o de Babi Yar (setembro de 1941, quando perto de 34 mil judeus foram mortos a tiros e sepultados coletivamente em uma ravina). Presos em Kiev, Rudi e Helena são enviados para a morte, mas conseguem escapar da fila dos condenados e observam de longe o assassinato de homens, mulheres e crianças a tiros. A luta pela sobrevivência os leva a se unir à guerrilha de sobreviventes judeus liderados por tio Sacha. Em tantas batalhas, Helena acaba sendo morta após uma mal sucedida emboscada do grupo contra soldados nazistas, e Rudi, enviado para o campo de extermínio em Sobibor. Ali, participa da famosa rebelião que permitiu a fuga de muitos prisioneiros – poucos, no entanto, para a quantidade de vítimas fatais. Após a fuga, Rudi aguarda a libertação, quando chega a Theresienstadt e reencontra Inga com o filho de Karl, decidindo trabalhar para a Agência de Ajuda para a Palestina, que congrega sobreviventes do Holocausto. A essa altura, já soube do destino de sua família.

Depois da deportação de Josef e Berta para Auschwitz, Moses Weiss se junta ao grupo que organiza o Levante do Gueto de Varsóvia, combatendo durante três semanas contra os nazistas em sua própria prisão, com sucesso. O final do levante já é conhecido. Alguns escaparam, os sobreviventes foram enviados para a morte em Treblinka ou fuzilados após o fim da rebelião – é o que acontece com Moses e outros combatentes.
Josef e Berta (Fritz Weaver e Rosemary Harris)

Os últimos momentos de Erik Dorf condizem com a história dos carrascos nazistas que foram presos após a libertação e final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Capturado e interrogado, é posto frente a frente com provas do genocídio e, como outros líderes nazistas, comete suicídio para não enfrentar a justiça pelas barbáries cometidas. Em contraponto, há o seu tipo paterno, Kurt Dorf (Roberth Stephens), engenheiro que vê as atrocidades mas não consegue tomar uma iniciativa maior para combatê-las se não somente manter sob sua guarda e segurança prisioneiros judeus na construção de uma estrada nas proximidades de Auschwitz – entre eles, Josef Weiss. Após o suicídio de Erik, Kurt tenta desmascarar as atividades criminosas do sobrinho perante sua família. Mas nem Marta nem os dois filhos já crescidos de Dorf lhe dão ouvidos, repudiando suas declarações. O retrato dos alemães colaboracionistas, se não ingênuos.

A minissérie serviu e ainda serve como uma avaliação de atitudes quanto ao assunto, principiando uma abordagem maior ao tema. A atuação de personagens fictícios ao lado de outros reais – os nazistas Heinrick Himmler, Reinhard Heydrich e  Adolf Eichmann e um dos líderes da resistência no gueto, Mordechai Anielevitz – foi eficiente para o desenvolvimento da história. Como já citei, o desempenho de todo o elenco contribuiu para a magnificência da produção, sobretudo Michael Moriarty, interpretando um Erik Dorf de olhar gélido e impassível frente a cadáveres de judeus fuzilados ou prisioneiros a caminho das câmaras de gás.

Chocante até hoje, “Holocausto” teve críticas negativas também. Para alguns, suavizava os fatos. No entanto, nenhum filme específico conseguiu abranger a história das perseguições em todas as etapas com grande abrangência. Enquanto “A lista de Schindler”, “O diário de Anne Frank”, “O pianista”, “Cinzas da guerra” e “O último trem” tratam de situações e personagens específicas durante o Holocausto, a minissérie envolveu a história de todos os judeus europeus e seus algozes, representados pelas famílias Weiss e Dorf. Por isso, nada mais justo que mantê-la no posto de marco da televisão mundial. É quase como uma triste alegoria da vergonhosa história da humanidade.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...