Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Amai-vos uns aos outros?

Todos os anos, em 27 de janeiro, o mundo relembra o assassinato sistemático de milhões de civis inocentes na Europa nazista entre 1939 e 1945. A Segunda Guerra Mundial superou a primeira não apenas pelo maior potencial bélico desenvolvido, mas pela revelação da crueldade com que os seres humanos podem tratar seus semelhantes por diferenças raciais, religiosas, sociais e ideológicas. 

Até então, o assassinato em massa da população armênia pelo Império Otomano em 1915 - e até hoje não reconhecido como genocídio pelas autoridades turcas - havia sido um exemplo triste de perseguições executadas por um Estado. Como esquecer ainda o terror afligido aos chineses pelos japoneses? Os judeus, em sua história, sofreram inúmeras perseguições, não raro encerradas em confiscos, expulsões e mortes. Podemos dizer que o nazismo não realizou nada de novo, porém inovou ao transformar o ódio em uma máquina estatal eficiente para aniquilar pessoas - judeus, poloneses, eslavos, ciganos, homossexuais e outras minorias marcadas como indesejáveis e inferiores.

A guerra acabou em 1945 com uma cifra impressionante de mortes por todo o mundo. A revelação das atrocidades contra a pessoa, nos anos posteriores, deveria servir como lição para a necessidade de tolerância e respeito de todas as diversidades. Mas as décadas seguintes mostraram a ineficiência dessa campanha. As barbaridades voltaram a acontecer, não da forma horrivelmente organizada e eficiente como no Terceiro Reich, mas igual em violência sem sentido. Chegamos a massacres isolados no Líbano, no Iraque, e com o passar dos anos chegamos a uma carnificina chocante em Ruanda, em 1994, e aos ataques a cristãos e muçulmanos em vários países. Mas a lição não surtiu efeito.

Estamos em 2017, e pelo menos há dois anos o mundo começou a enfrentar uma onda recrudescente de ódio irracional e cego. Xenofobia, falta de solidariedade, racismo, preconceito, perseguição a negros, mulheres e homossexuais... A semente do mal nunca morreu e tem encontrado, infelizmente, solo fértil, e pior de tudo: de uma forma absolutamente previsível. 

Na vasta literatura sobre o Holocausto - um fenômeno que impressionou pela organização eficiente de um crime "consentido" -, uma das causas da ascensão do nazismo até o seu ponto de expansão do domínio territorial e a consequente destruição de povos "não arianos" é apontada como sendo a crise econômica estabelecida na Alemanha desde o final da Primeira Guerra Mundial. Hoje não temos uma crise provocada por uma guerra devastadora em nível global, mas sim pela falência das instituições, pela falta de compromisso e ética dos poderes públicos, pela corrupção, pela injustiça social e pela manipulação ideológica (exatamente como Joseph Goebbels fez para ressuscitar o mais ferrenho antissemitismo e o ódio contra as minorias até nas nações conquistadas pelo Terceiro Reich). Na falta de confiança nos poderes que deveriam defender valores sociais de todos surge um campo vasto para oportunistas de discursos intolerantes.

Nos Estados Unidos, Trump foi eleito presidente e já começou a era dos desastres administrativos e diplomáticos em menos de um mês no que se refere ao tratamento com outras nações. É um discurso pífio semelhante ao divulgado na Europa com a corrente crescente de refugiados imigrantes. A prova dessa estupidez que anula a razão está no menino algemado em Washington D.C. por ser considerado uma "ameaça à segurança nacional" em seus cinco anos de idade - um raciocínio parecido foi usado pelos nazistas para justificar o massacre de criancinhas (inclusive bebês recém nascidos) judias e pelos hutus para trucidar com facões as crianças tutsis em Ruanda, para citar dois exemplos.

No Brasil a semente da intolerância sempre esteve meio adormecida, despertando aqui e acolá, principalmente no campo religioso. O maior expoente disso, até agora, havia sido o chute na estátua de Nossa Senhora Aparecida, desferido pelo "bispo" Sérgio von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus em um programa de televisão, em 1995. Aos poucos, o ódio alcançou os umbandistas e os católicos com a depredação de imagens de santos e de lugares de culto. Estimulados por uma onda "neomoralista" baseada nos valores abstratos da religião que agora ensaia uma teocracia excludente e assassina, esses tentáculos envolveram a população LGBT e, recentemente, transformaram as diferenças ideológicas políticas em guerra psicológica violenta, na qual falta pouco para surgirem cenas semelhantes às brigas de torcidas promovidas por marginais sem noção nos estádios de futebol, com resultados até fatais.

Parece não haver esquerda nem direita, nem seus extremos. Sob essa polaridade, há muitos guerrilheiros com sede de sangue, os quais se consideram pessoas de bem e respeitadores do próximo - desde que este concorde cegamente com suas ideias. Falta pouco para a selvageria se instaurar nas ruas. Enquanto os cidadãos se matam, no circo armado outros se dão muito bem com isso. E os discursos vazios e histéricos se sucedem reunindo mais e mais adeptos movidos pela insatisfação concebida pela incompetência justamente dos autores dos discursos. E nas beiradas estão os vendilhões da fé, praticantes de um estelionato imoral e gritante, mas transformado em fato normal e até objetivo de vida para muitos iludidos.

Não há exagero em afirmar que no ciclo de repetições da História o mundo está prestes a ingressar em uma nova Idade Média, a Era das Trevas. Os fatos ao longo dos anos comprovam isso. A tecnologia das redes sociais virou arma para calúnias transformadas em verdades inegáveis. Tudo por causa do ódio cego que está vencendo a capacidade de raciocínio e análise do ser humano. Enquanto isso, aquela lição do Cristianismo virou agora uma pergunta feita com ar de repulsa e incredulidade pelos "cidadãos de bem": "Amai-vos uns aos outros?".

sábado, 2 de março de 2013

Os babacas de Cristo

Jesus Cristo é unanimidade: foi o exemplo de humildade, amor ao próximo, compaixão, honestidade, respeito... enfim, de bom caráter. O Filho de Deus, qualquer que seja o sentido que se dê ao termo (literal ou figurado), marcou a história da humanidade com suas ações e seu sacrifício. Vendo por um prisma bem realista e - por que não? - ao mesmo tempo um tanto quanto fantasioso, eu poderia dizer que, nos dias de hoje, ele estaria extremamente decepcionado com a deturpação das lições que deixou.

Vou me deter em um fato do qual tomei conhecimento hoje pelo Facebook: no Rio de Janeiro, membros de uma igreja evangélica chamada Nova Geração de Jesus Cristo depredaram um centro umbandista, atrás dos "demônios" (não há menção à data do caso). Agrediram moralmente as pessoas, destruíram imagens e, como se diz no bom português brasileiro, "tocaram o terror". Quatro pessoas se acharam no direito de, usando o nome de Jesus, fazer uma espécie de "limpeza religiosa". Julgaram, como Cristo nos disse para não fazer. Odiaram o próximo, indo de encontro ao que o Filho de Deus ensinou. Praticaram a intolerância usando o nome do Pai em vão, contrariando os mandamentos. Foram violentos, atitude que Jesus nunca tomou em sua passagem por este plano. Agiram, isso sim, como inquisidores, nazistas, membros de facções criminosas, mafiosos... enfim, como a mais repulsiva organização criminosa.

O único termo adequado a esse tipo de gente é "babacas". Babacas de Cristo. A vergonha do Cristianismo. Agem como na época das Cruzadas, nos tempos da Inquisição, quando a religião foi utilizada - e infelizmente ainda é - como poder político e com arrogância criminosa. Fala-se em amar ao próximo, mas desde que este seja quem está ao seu lado no culto, na missa ou em qualquer reunião de caráter religioso. O diferente é "do demônio". Deus, por meio de Cristo, pregou o amor. Satanás (ou como quer que seja chamado) é a inversão disso. Então, não precisa ser intelectual para deduzir a quem esses fanáticos estão servindo.

Guerras e mais guerras acontecem hoje, algumas por conta da intolerância religiosa. Em qualquer religião, existem os péssimos religiosos. No catolicismo, existe corrupção, pedofilia, jogos de interesses. No protestantismo, idem. E em qualquer outra religião que é feita nos moldes do que o homem interpretou. A religião é do homem, a religiosidade é de Deus. Existem padres, pastores, espíritas e budistas corruptos, pedófilos, estelionatários. Mas na mente dos babacas de Cristo, sua igreja é a perfeição. Um tipo de ideia de superioridade que levou a fatos como a Inquisição, o Holocausto, o massacre dos curdos, o genocídio em Ruanda, as batalhas no Oriente Médio...

Lamento pela falta de inteligência dos quatro babacas de Cristo que tomaram essa triste e desrespeitosa atitude. Eles não têm noção do significado da expressão "livre arbítrio", a não ser quando devem pensar que por terem essa liberdade eles podem sair atacando quem é diferente. Essa ação terá uma reação, uma consequência aqui ou em outro plano. Eles acham que agiram em nome de Deus. Agiram como na cartilha do Mal.

Por conta dessas atitudes vergonhosas eu me desliguei da religião. Uso meu livre arbítrio para isso. Não gosto de rituais, de ouvir palavras que não são colocadas em prática. Nasci no catolicismo, tenho minhas críticas a ele, mas em se tratando de denominação, posso me dizer cristão. Leio doutrinas diferentes, pois acho que em cada uma há lições que tiramos para nossas vidas. Mas seguir as palavras do homem o qual supostamente é representante de Deus é outra história, que acaba tendo consequências como essa no Rio de Janeiro. Ou mostram como tem gente que enriquece às custas da fé alheia - isso inclui o Vaticano, mas deixemos isso para, talvez, um futuro post.

Difícil ficar quieto diante de tamanha babaquice. Mas, cada um que aja como sua consciência manda. E aceite as consequências disso.

(Foto reproduzida do Facebook)

sábado, 10 de novembro de 2012

Só faltou fogueira santa na Cidade Nova - ou: pequenos ditadores, futuros genocidas


Sexta-feira, 9 de novembro de 2012. Na escola estadual Senador João Bosco Ramos de Lima, no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, uma confusão armada por estudantes evangélicos (não se informou de qual igreja) vira notícia e chega a ser manchete hoje de um dos jornais locais. A questão era a seguinte: o estabelecimento educacional realizou um projeto chamado “Preservação da Identidade Étnico-Cultural Brasileira”, centrado na cultura agro-brasileira, mas a turminha achou que estava sendo obrigada a fazer trabalhos sobre “satanismo e homossexualismo” (sic). Propuseram um trabalho sobre missões evangélicas na África, totalmente fora do contexto temático, o que não foi aceito pela escola.

"O que tem de errado no projeto (da escola) são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo (sic de novo), que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia". Essas palavras vieram de uma estudante da escola. Além do mais, estudantes se recusaram a ler obras literárias brasileiras (“O guarani” e “Macunaíma”, para citar dois referidos por um professor entrevistado) que, segundo eles, falavam de homossexualismo (sic mais uma vez). Então vou tecer alguns comentários sobre a atitude desses estudantes:

1) o candomblé faz parte da cultura de nossos antepassados (os meus, pelo menos, que sou negro). Achar que isso é coisa do demo, contra as leis de Deus etc., é muito perigoso. Vamos buscar a essência de cada religião e encontraremos o mesmo Deus, não importam os rituais, se há santos ou não. Há denominações diferentes. A religião deve agregar as pessoas, não jogá-las umas contra as outras, mas há pseudolíderes indo pelo lado oposto. O candomblé é do mal? Pode haver correntes do mal, como em qualquer outra religião, inclusive essa que fecha os olhos de seus seguidores ao respeito às diferenças religiosas e até mesmo sociais e raciais. A religião que o homem criou e vem estabelecendo ao longo dos séculos é vergonhosa. Foi uma das razões pelas quais eu me afastei de todas e resolvi seguir o livre arbítrio dado pela força divina para discernir o bem do mal, coisa que falta, infelizmente, a esses alunos, que seriam muito bem vindos em uma organização similar à Juventude Hitlerista na época da Europa nazista. Não é exagero, isso eu posso garantir.  Assim se formam os pequenos ditadores e futuros genocidas. Todos sabem muito bem como terminou aquela babaquice toda sobre "os judeus são a nossa desgraça". Imagine se institucionaliza-se o "todo praticante de candomblé é satanista" ou "todo espírita tem conclave com o demônio".

(O demônio, aliás, é tão citado por esses grupos fanáticos que questiono se o dito-cujo não deve estar feliz por juntar seu rebanho tão facilmente neste plano)

2) pelo pouco que conheço, vejo a doutrina espírita como a única que tem essência pacífica (relação ser humano-ser humano e ser humano-natureza), filosófica e fundamentalmente cristã, baseado na lei da causa e efeito, não importando suas crenças em reencarnação, mundos invisíveis etc. Também ali há Deus e Jesus Cristo, e pelo que li até agora, não vi nada desabonador aos olhos do Pai. Não sou espírita, mesmo porque alguns dos seu argumentos eu questiono, mas seus princípios na busca de uma unidade humana são perfeitos. Esses alunos mostraram sua total falta de tato pra lidar com o mundo, seguindo certamente o exemplo de seus pais e “líderes”, pois se fecharam em sua própria mediocridade ao virar a cara para o irmão diferente.

3) coitados dos que não conhecem pelo menos algumas obras literárias por terem essa visão tão limitada e preconceituosa. Se fizessem realmente projeto baseado na Bíblia, como propuseram em opção ao tema lançado pela escola, deveriam fazer também trabalhos sobre incesto, ganância, fratricídio, homossexualidade e adultério. Há essas referências no Livro Sagrado, ele não trata dessas situações, então se for pela presença dos temas, vamos todos queimar todos os livros do mundo. A argumentação usada pela aluna só denota pura preguiça de estudar, essa é a verdade. Depois não se sabe de onde vem tanta ignorância.

(Só queria saber se os pais desses alunos, que apoiaram tal manifestação de intolerância, assistem Big Brother, guardam revistas pornográficas, têm amantes ou falam de seus pares pelas costas, espancam seus filhos, enganam seus vizinhos e ainda se acham acima do bem e do mal e protegidos pela “glória de Nosso Senhor”, o qual com certeza não é o Criador)

Não expresso minha indignação por serem evangélicos, mesmo porque existe tolerância, sim, de vários grupos de evangélicos que interagem com outras religiões. Esses acabam sofrendo com a generalização. Eu a expressaria do mesmo jeito se tais bizarrices fossem proferidas por católicos, ateus, espíritas, budistas e quaisquer outros religiosos. Esse pessoal confunde evangelização com militarização em prol de uma guerra santa, o que por si só já vai contra os princípios da religião. Só me resta lamentar que tal mentalidade exista em pleno século 21, tantos séculos após a Idade das Trevas. E pelo jeito, com tantos outros exemplos que aparecem, vejo que a regressão da raça humana é fato inevitável.

Quem planta, colhe. Cada um que, depois, carregue a cruz pelos seus atos estúpidos. A minha eu sei que irei carregar, com orgulho e consciente.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Anne Frank e as trevas da ignorância


No último dia 12, uma homenagem resgatou a data em que, em 1945, a adolescente Anne Frank, aos 15 anos, sucumbiu ao tifo e à inanição no campo de concentração de Bergen-Belsen, para onde havia sido mandada com sua irmã Margot, também vítima das condições insalubres do lugar, dias antes. A história da menina judia é bem conhecida de quem tem conhecimentos sobre literatura e cinema, pois o diário resgatado após o final da Segunda Guerra pelo pai de Anne e Margot, Otto (único sobrevivente da família Frank) foi levado a público e adaptado para o teatro, televisão e cinema.

A história de Anne Frank é apenas uma entre milhões de outras, sobre vidas ceifadas pela intolerância disseminada na Europa pelos nazistas em um dos episódios mais negros do século 20. Por seu caráter praticamente industrial, levado a extremos, o Holocausto (e aqui não incluo somente os judeus, mas também outras populações perseguidas e quase exterminadas em nome da "superioridade racial ariana", como os ciganos, os portadores de deficiência assassinados no programa de eutanásia, os homossexuais e outros) é o ápice da desgraça humana. Como uma pestilência, o antissemitismo e a intolerância com o diferente espalhou-se pela Europa nazista, mergulhando-a nas trevas. Escuridão essa que nunca dissipou totalmente.

Os crimes nazistas, ao mesmo tempo em que revoltaram o mundo, fizeram escola. Em várias partes do globo grupos de pessoas reverenciam a memória de Hitler, atacam seus semelhantes pelo simples prazer de fazer o mal sob a desculpa de uma falsa superioridade. Até mesmo no Brasil, em terras consideradas pacíficas, verdadeiros bandidos queimam, agridem, matam, mutilam, perseguem os que são diferentes. E mesmo entre os perseguidos, há os perpetradores de preconceitos contra seus semelhantes. 

Em seu diário, cuja versão em português tive a oportunidade de ler, assim como assistir à primeira versão cinematográfica de George Stevens, Anne narra os anos em que passou escondida com seus pais e sua irmã, e mais outra família judia, os Van Daan, em um sótão em Amsterdã, Holanda, durante a ocupação nazista. Enquanto vê o cerco se apertar sobre todos, registra seu cotidiano, suas descobertas de adolescente e as impressões sobre a guerra e a perseguição ao seu povo. Escondidos com a ajuda de amigos cristãos, isso não impediu que alguém entregasse o esconderijo e as famílias Frank e Van Daan tivessem o destino de outras milhões de famílias judias, enviadas às câmaras de gás ou trabalho escravo nos campos de concentração. Somente Otto Frank escapou da morte e conseguiu tornar o diário da filha um testemunho de vidas destruídas pela intolerância. 

Em vez de o mundo refletir com as palavras de Anne, preferiu seguir as trevas da ignorância. Tempos depois, nos Bálcãs, uma "limpeza étnica" resultou na morte de milhares. Em Ruanda, uma briga política resultou no genocídio de mais de 1 milhão de tutsis em menos de três meses, perpetrado pela maioria hutu. No Oriente Médio, palestinos, israelenses, curdos e todos os tipos de grupo humano matam e são mortos em nome de ideais egoístas e questionáveis. E esses são aqueles conflitos humanos de maior impacto. O que ocorre e não chega a nosso conhecimento, sim, ainda impede de se antever o quanto é grande a nossa monstruosidade.

sábado, 26 de março de 2011

Amazonas e Piauí: vítimas da ignorância brasileira

Recentemente, as redes sociais mostraram seu poder de repulsa dos seus membros em dois episódios de total aberração cultural. A pérola amplamente divulgada no You Tube do jovem Thomas, do grupo Restart (mais um grupelho de visual bizarro, uma mistura de emo, Teletubbies e letras cheias de lugares comuns e com destino – espero que rápido – ao ostracismo, como qualquer modismo), sobre gostar de fazer um show “em” Amazonas (sic) mas sem saber se aqui no Estado havia civilização causou uma onda de aversão tão grande dos amazonenses que nem mesmo uma retratação (mais tosca do que a infeliz declaração) ajudou, e o show do grupo, programado para 1º de abril próximo em Manaus, foi cancelado. A empresa promotora divulgou uma nota ligando a decisão ao receio de manifestações prejudiciais à integridade física do grupo, mas corre a boca pequena que, na verdade, o fracasso nas vendas de ingressos seria o real motivo.

O segundo episódio, do qual tomei conhecimento ontem pelo Twitter, aconteceu quando um comediante chamado Marauê Carneiro se referiu ao Piauí como o “cu do mundo” no Facebook. A mesma fúria tomou conta dos piauienses nas redes sociais, tendo como consequência o cancelamento do show do tal comediante em Teresina e uma nota de repúdio de um parlamentar daquele Estado. Nem mesmo dizer que a frase jocosa era de autoria do comediante Juca Chaves foi remédio. Os tempos são outros. Fazer troça dos irmãos brasileiros agora é coisa séria.

Parece incrível que Norte e Nordeste sejam sempre vítimas desse tipo de coisa. No Norte, somos chamados de incivilizados, vivemos no meio do mato, compartilhamos espaços com jacarés e onças e coisas do tipo. No Nordeste, os habitantes são batizados de preguiçosos, cabeças chatas, subdesenvolvidos e por aí vai. Como alguém citou no Twitter, existe uma “sudestelização” (mais ou menos assim é a expressão), onde o conceito de desenvolvimento é bastante equivocado.

Na região Norte, temos a maior floresta tropical, uma fauna exuberante e uma natureza maravilhosa, apesar de não sabermos ainda explorar esse potencial turístico (coisas de políticas públicas, mas um dia o passo acerta). Quem dera dividíssemos espaço pacificamente com onças, jacarés e outros animais. Melhor que dividir com ladrões, traficantes, corruptos e maus policiais, porém isso é uma utopia. O Norte é assim. O Brasil é assim. Quando somos chamados de índios, o fato em si não é o que causa revolta – pelo menos no meu ponto de vista. A História mostra que os indígenas tiveram suas terras roubadas, ou seja, o Brasil começou a partir de um crime. Eles são os verdadeiros donos da terra. São os antepassados de milhões de brasileiros, então não haveria sentido em nos sentirmos ofendidos com isso. O que ofende é a forma jocosa como usam o termo. E depois surge das trevas da “jumentice” um garoto deslumbrado com a fama declarar sua burrice em público (o que é pior, cometeu uma gafe que nem a entrevistadora fez menção de corrigir ou refutar – talvez fosse tão burra quanto ele) e achar que somos igualmente burros ao falar de uma “edição mal feita” no vídeo. Pelo visto, pela falta de cultura, o nível de desenvolvimento educacional do híbrido emo-teletubbie não indica nenhum pouco de civilização. Como eu perguntaria ao meu amigo jornalista Luiz Otávio Martins, “de que pântano isso surgiu?”.

O caso dos nossos irmãos piauienses é um pouco diferente na forma da agressão, mas tem a mesma essência da falta de respeito. O Piauí tem povo trabalhador como em qualquer outro Estado, tem lugares que valem a pena ser conhecidos (como em todo o maravilhoso Nordeste) e possui habitantes extremamente cordiais (não conheço ainda o Estado, mas declaro isso com base no que conheço dos nordestinos – um povo incrivelmente hospitaleiro, pacífico e animado. Tenho conhecimento de causa porque sou filho de cearenses que chegaram ao Amazonas sem nada, fugindo da seca e do descaso com aquela região, batalharam e criaram família sem nunca esquecer suas raízes ou fazer pouco caso do lugar que os acolheu). Se realmente Juca Chaves usou a infeliz expressão divulgada pelo tal ator, foi em um tempo em que esse tipo de galhofa não era tão repercutida. Não havia redes sociais nem interação imediata entre as pessoas.

Restart e Marauê (que nome, hein?) sentiram o efeito “Twitbook” de sua ignorância. Todos os que se manifestaram nas duas situações, seja de forma cautelosa ou revoltada, merecem parabéns. Para o garoto do primeiro, é bom levar a sério os estudos. Para o segundo, recomendo buscar uma linha de humor mais inteligente. A força das redes sociais deve ir mais além, pois além dos preconceitos, há também os erros, injustiças e atos corruptos que merecem ser repudiados, precisam gerar uma ação coletiva, algo exemplar como o que aconteceu no Egito. O caso dos “artistas” ignorantes pode parecer uma futilidade brasileira, mas pelo menos é um começo. Falta cada um reconhecer em si esse poder de mudança.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...