Mostrando postagens com marcador antissemitismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador antissemitismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de setembro de 2022

LIVROS: "O bom doutor de Varsóvia", de Elisabeth Gifford (2018)


Janus Korczak, pseudônimo de Henry Goldszmit, foi um pediatra, pedagogo e autor de livros infantis judeu com grande respeito na Polônia, que jamais abandonou as crianças de seu orfanato durante a ocupação nazista de Varsóvia até ser enviado com elas para a morte nas câmaras de gás de Treblinka em 5 de agosto de 1942, durante as grandes deportações do gueto da capital polonesa que resultaram no assassinato em massa de cerca de 300 mil judeus ali aprisionados, dos estimados 500 mil residentes.

A história de seus atos corajosos e destino trágico é contada paralelamente à de Misha e Sophia, jovem casal que se apaixona durante seu trabalho com Korczak, mas que veem sua vida mudar radicalmente com a invasão nazista e a criação do gueto de Varsóvia. Tentando ajudar as crianças cuidadas pelo pedagogo, eles também buscam manter suas famílias a salvo das atrocidades dos invasores alemães e tentar garantir seu próprio futuro no inferno criado pelo Terceiro Reich. É assim que o jovem casal sai da cidade, mas apenas para testemunhar os terrores que o povo judeu já estava sofrendo em outras localidades.

É um relato comovente que reproduz momentos já conhecidos de quem lê sobre o tema, como o violento pogrom de julho de 1941 em Lvov, então parte da Ucrânia, atrocidades testemunhadas por Misha e Sophia em sua fuga dos horrores da capital polonesa, e hoje registrado em fotos disponíveis na internet, e o drama de Adam Czerniakow, líder do Conselho Judeu de Varsóvia que sofreu terrores psicológicos dos nazistas e escolheu o suicídio quando foi obrigado a colaborar com a seleção de pessoas nas deportações para Treblinka.

A obra traz ainda um posfácio onde a autora narra os destinos de Misha, Sophia e de outros sobreviventes de suas famílias após a libertação, bem como do resgate da importância de Janus Korczak na história da resistência ao nazismo, ainda que sem final feliz.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Amai-vos uns aos outros?

Todos os anos, em 27 de janeiro, o mundo relembra o assassinato sistemático de milhões de civis inocentes na Europa nazista entre 1939 e 1945. A Segunda Guerra Mundial superou a primeira não apenas pelo maior potencial bélico desenvolvido, mas pela revelação da crueldade com que os seres humanos podem tratar seus semelhantes por diferenças raciais, religiosas, sociais e ideológicas. 

Até então, o assassinato em massa da população armênia pelo Império Otomano em 1915 - e até hoje não reconhecido como genocídio pelas autoridades turcas - havia sido um exemplo triste de perseguições executadas por um Estado. Como esquecer ainda o terror afligido aos chineses pelos japoneses? Os judeus, em sua história, sofreram inúmeras perseguições, não raro encerradas em confiscos, expulsões e mortes. Podemos dizer que o nazismo não realizou nada de novo, porém inovou ao transformar o ódio em uma máquina estatal eficiente para aniquilar pessoas - judeus, poloneses, eslavos, ciganos, homossexuais e outras minorias marcadas como indesejáveis e inferiores.

A guerra acabou em 1945 com uma cifra impressionante de mortes por todo o mundo. A revelação das atrocidades contra a pessoa, nos anos posteriores, deveria servir como lição para a necessidade de tolerância e respeito de todas as diversidades. Mas as décadas seguintes mostraram a ineficiência dessa campanha. As barbaridades voltaram a acontecer, não da forma horrivelmente organizada e eficiente como no Terceiro Reich, mas igual em violência sem sentido. Chegamos a massacres isolados no Líbano, no Iraque, e com o passar dos anos chegamos a uma carnificina chocante em Ruanda, em 1994, e aos ataques a cristãos e muçulmanos em vários países. Mas a lição não surtiu efeito.

Estamos em 2017, e pelo menos há dois anos o mundo começou a enfrentar uma onda recrudescente de ódio irracional e cego. Xenofobia, falta de solidariedade, racismo, preconceito, perseguição a negros, mulheres e homossexuais... A semente do mal nunca morreu e tem encontrado, infelizmente, solo fértil, e pior de tudo: de uma forma absolutamente previsível. 

Na vasta literatura sobre o Holocausto - um fenômeno que impressionou pela organização eficiente de um crime "consentido" -, uma das causas da ascensão do nazismo até o seu ponto de expansão do domínio territorial e a consequente destruição de povos "não arianos" é apontada como sendo a crise econômica estabelecida na Alemanha desde o final da Primeira Guerra Mundial. Hoje não temos uma crise provocada por uma guerra devastadora em nível global, mas sim pela falência das instituições, pela falta de compromisso e ética dos poderes públicos, pela corrupção, pela injustiça social e pela manipulação ideológica (exatamente como Joseph Goebbels fez para ressuscitar o mais ferrenho antissemitismo e o ódio contra as minorias até nas nações conquistadas pelo Terceiro Reich). Na falta de confiança nos poderes que deveriam defender valores sociais de todos surge um campo vasto para oportunistas de discursos intolerantes.

Nos Estados Unidos, Trump foi eleito presidente e já começou a era dos desastres administrativos e diplomáticos em menos de um mês no que se refere ao tratamento com outras nações. É um discurso pífio semelhante ao divulgado na Europa com a corrente crescente de refugiados imigrantes. A prova dessa estupidez que anula a razão está no menino algemado em Washington D.C. por ser considerado uma "ameaça à segurança nacional" em seus cinco anos de idade - um raciocínio parecido foi usado pelos nazistas para justificar o massacre de criancinhas (inclusive bebês recém nascidos) judias e pelos hutus para trucidar com facões as crianças tutsis em Ruanda, para citar dois exemplos.

No Brasil a semente da intolerância sempre esteve meio adormecida, despertando aqui e acolá, principalmente no campo religioso. O maior expoente disso, até agora, havia sido o chute na estátua de Nossa Senhora Aparecida, desferido pelo "bispo" Sérgio von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus em um programa de televisão, em 1995. Aos poucos, o ódio alcançou os umbandistas e os católicos com a depredação de imagens de santos e de lugares de culto. Estimulados por uma onda "neomoralista" baseada nos valores abstratos da religião que agora ensaia uma teocracia excludente e assassina, esses tentáculos envolveram a população LGBT e, recentemente, transformaram as diferenças ideológicas políticas em guerra psicológica violenta, na qual falta pouco para surgirem cenas semelhantes às brigas de torcidas promovidas por marginais sem noção nos estádios de futebol, com resultados até fatais.

Parece não haver esquerda nem direita, nem seus extremos. Sob essa polaridade, há muitos guerrilheiros com sede de sangue, os quais se consideram pessoas de bem e respeitadores do próximo - desde que este concorde cegamente com suas ideias. Falta pouco para a selvageria se instaurar nas ruas. Enquanto os cidadãos se matam, no circo armado outros se dão muito bem com isso. E os discursos vazios e histéricos se sucedem reunindo mais e mais adeptos movidos pela insatisfação concebida pela incompetência justamente dos autores dos discursos. E nas beiradas estão os vendilhões da fé, praticantes de um estelionato imoral e gritante, mas transformado em fato normal e até objetivo de vida para muitos iludidos.

Não há exagero em afirmar que no ciclo de repetições da História o mundo está prestes a ingressar em uma nova Idade Média, a Era das Trevas. Os fatos ao longo dos anos comprovam isso. A tecnologia das redes sociais virou arma para calúnias transformadas em verdades inegáveis. Tudo por causa do ódio cego que está vencendo a capacidade de raciocínio e análise do ser humano. Enquanto isso, aquela lição do Cristianismo virou agora uma pergunta feita com ar de repulsa e incredulidade pelos "cidadãos de bem": "Amai-vos uns aos outros?".

sexta-feira, 20 de junho de 2014

FILMES: "O último trem" (De letzte zug, 2006)

O embarque para Auschwitz: 688 judeus alemães enviados para a morte 

 Em 19 de abril de 1943, 688 judeus remanescentes de Berlim, na Alemanha nazista, foram aprisionados e enviados em vagões de gado para o campo de extermínio de Auschwitz, no sul da Polônia ocupada. Essa viagem infernal com destino à morte é contada em “O último trem” (Der letzte zug), traduzido também como "O último trem para Auschwitz", produção alemã dirigida em 2006 por Joseph Vislmaier e Dana Vávrová.

O trajeto dessas centenas judeus de diversas origens e idades – famílias inteiras, casais jovens, idosos, bebês de colo – é marcado por privações terríveis e ignoradas (e mesmo incentivadas) pelos algozes nazistas, como falta de água e condições sanitárias nos vagões lotados – episódios que se repetiram por toda a Europa nazista durante a Segunda Guerra Mundial com a implementação da Solução Final. O que se passa durante a viagem fatídica é contado do ponto de vista de vários prisioneiros enfurnados em um dos últimos vagões – o jovem casal Henry e Lea Neumann (Gedeon Burkhard e Lale Yavas), sua filha Nina (Lena Beyerling) e o irmãozinho de colo; o ator idoso Jakob Noschik (Han-Jürgen Gilbermann) e sua mulher Gabrielle Hellman (Brigitte Grothum); o casal Albert Rosen (Roman Roth) e Ruth Zilberman (Sibel Kekilli), que tentam inutilmente fugir antes do embarque; o obstetra dr. Friedlich (Juraj Kukura) e sua filha Erika (Sharon Brauner) com o bebê desta; e vários outros personagens unidos pela mesma trágica sorte.

A viagem dos prisioneiros acaba se prolongando por cerca de uma semana, piorando as condições dentro do trem. Além da falta de alimentos e de higiene, a loucura começa a afetar alguns dos aprisionados. No vagão onde a trama se concentra, alguns prisioneiros tentam abrir um buraco no chão aproveitando as longas paradas do trem, na esperança de uma fuga aparentemente impossível, ideia incentivada por Albert Rosen ainda na plataforma de embarque, para a qual atrai Henry Neumann e outros judeus. Serrar as grades do vagão para tentar abrir a porta e permitir a fuga de todos também é uma tentativa desesperada, mesmo sob o risco de caírem sobre os trilhos ou serem baleados pelos guardas nazistas que vigiam os vagões. Em meio ao drama, eles relembram suas vidas antes das perseguições.

A cada estação, os pedidos de piedade são ignorados pela população – principalmente por medo dos nazistas – e levam diversão aos soldados que aproveitam cada apelo para revelar seu sadismo – sob efeito de bebida alcoólica, atiravam a esmo para dentro dos vagões lotados ou matando indistintamente quem se atrevesse a reclamar das privações. Em alguns casos, a água era conseguida quando os prisioneiros, através das brechas dos vagões ou pelas janelas, atiravam seus últimos pertences como forma de pagar pelo líquido.

A monstruosidade de um crime como o Holocausto, nesse filme, aponta fatos que acabam sendo, de um modo comovente, bizarros. Em uma cena, os prisioneiros veem, pelas grades do vagão, soldados armando forcas em uma das estações. Apavorados, aguardam pelo pior, mas ao verem que outros homens judeus foram escolhidos para serem mortos ali, abraçam-se em alegria, mesmo cientes do destino igual que os aguardava no final da linha. Ainda assim, continuam tentando abrir o buraco no chão do vagão após tentarem fugas infrutíferas ou fazerem escolhas terríveis para não enfrentarem as câmaras de gás de Auschwitz: suicídios e assassinato dos próprios familiares.

As viagens nos “trens da morte” durante o Terceiro Reich figuram apenas como sequências em outros filmes sobre o Holocausto, como “A lista de Schindler” e “O pianista”, mas aqui esse transporte macabro é o cenário permanente da história. Entram como personagens não apenas vítimas e algozes, mas pessoas que fizeram parte da engrenagem do extermínio. Um dos maquinistas, mesmo ciente da carga que transporta, parece se conformar, mesmo lamentando as condições às quais os judeus são submetidos, e seu colega, aborrecido, acaba por lhe revelar: fora apaixonado por uma judia que acabara sendo assassinada. Naqueles anos de loucura, até mesmo uma tragédia pessoal se tornava banal.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Comentário: "A espiã" (Zwartboek, 2006)

Carice Von Houten como Rachel Stein


Carice como Ellis de Vries
Em um kibutz do recém criado Estado de Israel, em 1956, Ronnie (Halina Reijin), em viagem turística com o marido canadense, reencontra Rachel Stein (Carice Von Houten), a quem conhecera nos tempos da guerra na Europa como a cantora Ellis de Vries, e não esconde sua surpresa ao vê-la ali como professora de crianças e - mais surpresa ainda - assumindo sua origem judia. A partir da pergunta de Ronnie - "Como você veio parar aqui?" -, é contada em flashback a história de Rachel e da gênese de Ellis de Vries na Holanda ocupada pelos nazistas nos fins de 1944, nesse filme dirigido por Paul Verhoeven.


Com o desfecho da Segunda Guerra próximo e a derrota alemã tida como inevitável, os judeus holandeses ainda eram perseguidos. Umas poucas famílias ricas conseguem comprar sua fuga para territórios neutros onde poderão aguardar em segurança o fim do conflito - entre elas, Rachel, seu irmão caçula e os pais. Até então, ela vivia escondida no sótão de uma família cristã holandesa, tendo que tolerar comentários como "os judeus deveriam ter aceitado Cristo e não estariam passando por isso" em troca de segurança e um prato de comida. Porém, a casa é destruída em um bombardeio, e Rachel é levada por um amigo, Maarten (Xander Straat), para sua própria residência. Ali, são descobertos por Van Gein (Peter Blok), membro da Resistência, que aconselha a jovem cantora a fugir com um grupo de perseguidos em uma travessia de rio segura até a Bélgica. É no local de encontro que Rachel reencontra a família, levando Maarten junto para evitar retaliação contra o rapaz por haver escondido uma judia.

A viagem, no entanto, termina mal. O barco é interceptado por soldados alemães no meio do rio e os passageiros, entre eles Maarten e a família Stein, são fuzilados. Rachel é ferida de raspão e pula no rio, desaparecendo da vista dos carrascos e chegando à margem do rio, de onde, escondida, observa os nazistas surrupiando roupas, dinheiros e outros bens dos mortos. 

Ludwig Muntzen (Sebastian Koch)
É nessa fase que surge Ellis de Vries, transformação total de Rachel, que agora entra na Resistência a despeito do disfarçado antissemitismo de alguns integrantes do grupo, evidenciado por comentários ácidos. Essa metamorfose é radical: Rachel/Ellis torna seus cabelos louros, cor que estende aos pêlos pubianos, no afã de convencer seus inimigos da sua "pureza racial" e assim lutar não somente pela liberdade, mas para vingar o assassinato de sua família. Nesse rumo ela vai se infiltrar no lado inimigo ao aproximar-se do oficial Ludwig Muntzen (Sebastian Koch) e travar conhecimento com outro oficial, Gunther Franken (Waldemar Kobus), o qual ela reconhecerá como o líder do grupo que promoveu a matança de sua família, de Maarten e dos demais fugitivos. Em meio a isso, inclusive a uma súbita paixão por Muntzen, Ellis tem que lidar com Hans Akkermans (Thom Hoffman), membro da Resistência que lhe dá apoio e que eventualmente se insinua para ela.

Mostrados os personagens e o fio central da história, basta dizer que nem tudo é o que parece. Muitas surpresas acontecem na trama e alguns papéis se invertem. Ellis/Rachel participa de ações arriscadas e acaba se tornando, em certo momento, vítima da paixão genuína que sente por Muntzen e alvo da fúria da Resistência após uma fracassada tentativa de resgate de reféns.

O aspecto interessante é que "A espiã" não tem aqueles estereótipos de mocinhos e bandidos. Pelo contrário, iguala os dois lados quando o assunto é crueldade. A vingança dos holandeses mais exaltados contra os colaboracionistas dos nazistas não perde em selvageria para os atos dos algozes alemães: os traidores da pátria são trancafiados em gaiolas onde defecam e urinam em baldes e ainda são obrigados a mostrar seus genitais para escárnio de uma plateia de bêbados. Além disso, mulheres que se tornaram amantes de oficiais nazistas têm seus cabelos raspados e são espancadas (cena similar foi protagonizada por Monica Bellucci em "Malena", de 2000, filme brilhante de Giuseppe Tornatore que também merece um comentário). 

Finda a guerra, de volta à época do início do filme, Rachel, agora casada e mãe, longe dos ecos do Holocausto, parece não encontrar a resposta para uma pergunta que faz em um momento de desespero em meio ao terror nazista: "será que isso nunca acaba?". A cena final, no entanto, propõe para o espectador essa resposta. Basta assistir e compreender.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Comentário: "Amarga sinfonia de Auschwitz" (Playing for time, 1980)

Em uma das cenas de "Amarga sinfonia de Auschwitz", Fania Fenelon (Vanessa Redgrave) grita para as outras prisioneiras que está cansada de rótulos e é apenas um ser humano. É um dos diversos momentos de destaque desse telefilme de sucesso de 1980, baseado nas memórias de Fania Fenelon (1908-1983), judia francesa e cantora deportada para Auschwitz no início de 1944, após ser denunciada também por ser membro da Resistência durante a ocupação nazista.
Vanessa Redgrave interpreta a cantora e membro da Resistência Fania Fenelon

Ao entrar no universo de vida e morte de Auschwitz, o mais famoso campo de extermínio da Segunda Guerra Mundial, no sul da Polônia ocupada pelos nazistas, Fania passa a fazer parte da orquestra de mulheres (judias ou não) do local, que faz apresentações para seus carrascos e para os prisioneiros judeus recém chegados ao lugar e selecionados para a morte nas câmaras de gás. Os dilemas em nome da sobrevivência são muitos. Alma Rosé (Jane Alexander), a regente da orquestra, é uma mulher judia rigorosa com as companheiras a ponto de parecer em alguns momentos estar alheia à carnificina diária promovida pelos nazistas, e com quem eventualmente Fania tem diálogos duros sobre suas ações. Transportada juntamente com Fania para o campo, Marianne (Melanie Mayron) também entra para o grupo, mas recorre à prostituição para obter comida. Por se considerar meio judia pelo fato de sua mãe ser católica, Marianne dá-se o direito de usar meia estrela de Davi em sua roupa, como se fosse uma garantia ainda que insuficiente de sobrevivência, pelo que é criticada pelas demais prisioneiras.
Jane Alexander como Alma Rosé

O filme revela uma atmosfera meio que surreal do campo de Auschwitz, célebre pelas altas cifras de mortes de judeus, ciganos, opositores do regime nazista, homossexuais e outras minorias perseguidas. A líder do campo Maria Mandel (Shirley Knight, que apareceu recentemente como Phyllis, a sogra de Bree Van De Kamp, personagem de Marcia Cross em "Desperate housewives") é uma carrasca brutal que espanca os prisioneiros e toma para si o filho pequeno de uma judia condenada à câmara de gás. No entanto, é uma mulher que pessoalmente procura um par de sapatos que sirva para a recém chegada Fania, colocando-os em seus pés, e não esconde sua dor ao ser obrigada a entregar à morte o menino que tirara da mãe prisioneira. O dr. Mengele (Max Wright, conhecido pelo papel de William Tanner na telessérie da década de 1980, "Alf, o E.Teimoso") revela sentimentos de compaixão e amor, a despeito de o personagem real historicamente ser conhecido pelas experiências bárbaras realizadas em Auschwitz e também responsável pelas seleções para o extermínio. Sobressaindo-se a esse lado humanizado da figura do carrasco, seu caráter evidenciado pela História volta a surgir, ao determinar que a orquestra feminina ensaie uma apresentação musical para um grupo de prisioneiros formado por doentes mentais sob o pretexto de estudar as suas reações à música. Logo depois, todas as pessoas seriam executadas nas câmaras de gás.
Shirley Knight como Maria Mandel

É nessa luta pela sobrevivência que conflitos morais são colocados em evidência pelas prisioneiras em sua luta diária para terem suas vidas poupadas. Há momentos de grande esperança: em uma das cenas, um dos prisioneiros judeus aproxima-se de Fania e lhe mostra a palma da mão, onde está escrito "Os aliados desembarcaram na Normandia"; em outra, as prisioneiras comemoram a fuga de uma judia influente, Mala, interpretada por Maud Adams, de "007 contra Octopussy", crentes de que ela e seu amante Edek (Lee J. Nelson) poderiam revelar ao mundo as barbáries de Auschwitz. No entanto, tais esperanças logo são destruídas: aviões que sobrevoam a região são abatidos pela artilharia antiaérea nazista, e Mala e Edek são recapturados e enforcados em frente ao barracão das prisioneiras. O pesadelo se arrasta até a morte de Alma Rosé, envenenada por uma guarda nazista que preferiu matá-la a deixá-la sair de Auschwitz para o front onde cantaria para soldados alemães (pela afronta aos superiores, a guarda foi fuzilada). Única garantia de vida para todas as mulheres da orquestra, sua perda significava incerteza para o grupo, que passa a ter sua liderança disputada entre Fania e a polonesa Olga (Christine Baranski, que apareceu como mãe do nerd Sheldon em "The Big Bang Theory"). Parte das mulheres sobreviveu até o dia da libertação.
O elenco da orquestra de Auschwitz

Na história real de Fania Fenelon, Auschwitz foi evacuado com a aproximação dos aliados e as prisioneiras foram levadas a Bergen Belsen, onde a libertação chegaria em abril de 1945. Das cerca de 80 componentes do grupo, 47 sobreviveram ao Holocausto. Maria Mendel foi presa, condenada por crimes contra a humanidade e executada em Cracóvia, Polônia, em 1948. Fania escreveu suas memórias e morreu de câncer em Paris, em 1983. Sua história não é somente um retrato da brutalidade das perseguições na Europa nazista representada por Auschwitz e seu duro leque de dilemas, mas também de esperança e luta.


Onde baixar: Filmes Cult

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Comentário: Holocausto (1978)


Há mais de três décadas, a minissérie “Holocausto” (Holocaust: the story of the family Weiss, 1978) foi um marco na história da televisão. Até então, não se tinha conhecimento de produção tão realística sobre a perseguição sofrida pelos judeus europeus durante a Segunda Guerra Mundial por obra do nazismo. Ainda que posteriormente tenham surgido filmes mais fortes baseados no tema, como “A lista de Schindler”, “Cinzas da guerra” e “O pianista”, “Holocausto” ainda hoje é referência por haver sintetizado toda a história das perseguições antissemitas que culminaram com a política de extermínio batizada de “Solução Final” do Terceiro Reich.

A trama começa em Berlim e se divide entre as famílias Weiss, de judeus, e Dorf, de alemães, a partir de 1935, com o casamento entre o pintor Karl Weiss (James Woods) e a cristã Inga Helms (Meryl Streep), um pouco antes das primeiras leis de Nuremberg proibirem casamentos mistos, com o partido nazista em plena ascensão.  Erik Dorf (Michael Moriarty) é um advogado desempregado, casado com Marta e pai de dois filhos. Paciente do dr. Josef Weiss (Fritz Weaver), Dorf acaba ingressando no partido nazista por insistência da esposa, como forma de sustentá-los. A partir daí, graças a sua inteligência e dedicação cega, começa a ascender e tomar parte ativa no programa de extermínio dos judeus europeus, incluindo a família Weiss.
Inga (Meryl Streep) e Karl Weiss (James Woods)
 A ascensão de Dorf é pontuada por vários momentos históricos do domínio nazista, como a Solução Final e o estabelecimento dos campos de extermínio em substituição aos massacres de populações judias por fuzilamento (os Einzatsgruppen), a criação dos guetos e a manipulação das informações para tentar tornar o genocídio politicamente aceitável. Suas atitudes frias e olhar igualmente apático diante das atrocidades que determina e testemunha são em parte incentivadas pela mulher Marta, interessada em tirar proveito da guerra para sobrevivência de sua família, mesmo que isso signifique a destruição de outras pessoas. Em um momento, Erik Dorf parece fraquejar diante dos massacres, mas a esposa se impõe para incentivá-lo, mesmo sabendo que no futuro poderão responder pela barbárie. Assim é que supervisiona os pelotões de fuzilamento na Rússia, as câmaras de gás e crematórios de Auschwitz, sem demonstrar um pingo de incômodo ou pena com o destino dos “inimigos do Reich”.
Anna Weiss (Blanche Baker)
 De outro lado, o destino da família Weiss ilustra cada degrau das perseguições. Josef Weiss é proibido de clinicar, mas ainda atende cidadãos judeus e alemães (ou arianos, como se tornou expressão corrente daqueles tempos). Sua insistência em driblar a repressão em nome do profissionalismo e preocupação com o próximo acabam levando-o a ser deportado para a Polônia, seu pais de origem. Lá, com o irmão Moses (Sam Wanamaker), testemunha o surgimento do gueto de Varsóvia (que seria visto com mais propriedade e riqueza de detalhes em “O pianista”, de Roman Polanski, sobrevivente dessa época de terror), a mortandade provocada por epidemias e perseguições eventuais aos segregados, as deportações da população do gueto para Treblinka e outros campos de morte, a luta pela sobrevivência por meio do contrabando de alimentos e o início dos planos de resistência que culminariam no Levante do Gueto e seu extermínio em 1943. Antes da batalha, Josef é enviado a Auschwitz com a esposa Berta Weiss (Rosemary Harris, uma atriz de respeito), onde são mortos nas câmaras de gás.

Berta Weiss é uma mulher culta, filha de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial. Mesmo com a Kristallnacht (o pogrom incitado pelos nazistas em toda a Alemanha após o assassinato de um diplomata alemão por um jovem judeu em Paris, em 1938), na qual seus pais perdem a livraria (suicidando-se em seguida), a deportação de Josef para a Polônia e a prisão de Karl, o filho mais velho, e seu envio para o campo de concentração de Buchenwald, ela acredita em tempos melhores, até a noite em que a filha mais nova, Anna (Blanche Baker), foge de casa após uma discussão, é agarrada e estuprada por três nazistas. A adolescente de 16 anos fica retraída e enlouquece, sendo internada pela cunhada Inga em um hospital que era, sem que se soubesse, um centro de matança de doentes mentais e deficientes físicos, que eram agrupados em um depósito e asfixiados por monóxido de carbono, destino definido pela política nazista de purificação da raça. Sem Anna, Berta permanece com Inga até ser deportada para Varsóvia, onde reencontra o marido no gueto, ajuda a financiar a compra de armas para a resistência mas não a testemunha, sendo enviada com ele para Auschwitz.
Rudi Weiss (Joseph Bottoms) e Helena (Tovah Feldshuh)

Karl Weiss e Inga Helms são personagens cujos encontros tornam-se errantes no decorrer da trama. Inga protege a nova família contra a hostilidade de seus pais e irmão, contrários a que ela continue casada com Karl. Ele é preso, enviado a Buchenwald, um campo de trabalho forçado onde testemunha a execução de ciganos e sofre as maiores torturas. Graças a Inga, que precisa ceder ao assédio de um dos comandantes do campo e amigo da família Helms na tentativa de salvar o marido, Weiss vai para Theresienstadt, um “gueto modelo”, na verdade uma farsa armada pelos nazistas para tentar desviar a atenção dos tormentos sofridos pela população judia, onde pode exercer suas atividades de pintura. Inga consegue ser enviada para lá, acompanhando o marido. Ali, a indignação crescente com as perseguições transformam Karl em um artista engajado em mostrar a verdade ao mundo em desenhos que retratavam a brutalidade nazista, em contraponto às ilustrações fantasiosas as quais era obrigado, junto com outros dois prisioneiros, Weinberg e Frey, a fazer para os carrascos. Descobertos, os três são torturados para informar a localização de outros desenhos, resistindo até o fim.  Somente Karl sobrevive e, após ter as mãos quebradas, é mandado para Auschwitz, onde morre de fome.  Antes da deportação, Inga lhe conta que espera um filho, decidindo tê-lo mesmo sob os protestos de Karl, que não queria ver uma criança nascendo em um “lugar amaldiçoado” como Theresienstadt.
Erik Dorf (Michael Moriarty)

Os dois últimos membros da família Weiss marcam outros momentos da história do Holocausto. Rudi Weiss (Joseph Bottoms), filho do meio de Josef e Bertha, sempre temperamental, deixa Berlim após a deportação do pai para a Polônia. Em suas andanças fugindo dos nazistas, conhece a jovem judia Helena Slomova (Tovah Feldshuh) em Praga, tornando-a sua companheira. E é assim que ele testemunha a ocupação da Rússia pelos alemães e o massacre dos judeus da região em fuzilamentos em massa, como o de Babi Yar (setembro de 1941, quando perto de 34 mil judeus foram mortos a tiros e sepultados coletivamente em uma ravina). Presos em Kiev, Rudi e Helena são enviados para a morte, mas conseguem escapar da fila dos condenados e observam de longe o assassinato de homens, mulheres e crianças a tiros. A luta pela sobrevivência os leva a se unir à guerrilha de sobreviventes judeus liderados por tio Sacha. Em tantas batalhas, Helena acaba sendo morta após uma mal sucedida emboscada do grupo contra soldados nazistas, e Rudi, enviado para o campo de extermínio em Sobibor. Ali, participa da famosa rebelião que permitiu a fuga de muitos prisioneiros – poucos, no entanto, para a quantidade de vítimas fatais. Após a fuga, Rudi aguarda a libertação, quando chega a Theresienstadt e reencontra Inga com o filho de Karl, decidindo trabalhar para a Agência de Ajuda para a Palestina, que congrega sobreviventes do Holocausto. A essa altura, já soube do destino de sua família.

Depois da deportação de Josef e Berta para Auschwitz, Moses Weiss se junta ao grupo que organiza o Levante do Gueto de Varsóvia, combatendo durante três semanas contra os nazistas em sua própria prisão, com sucesso. O final do levante já é conhecido. Alguns escaparam, os sobreviventes foram enviados para a morte em Treblinka ou fuzilados após o fim da rebelião – é o que acontece com Moses e outros combatentes.
Josef e Berta (Fritz Weaver e Rosemary Harris)

Os últimos momentos de Erik Dorf condizem com a história dos carrascos nazistas que foram presos após a libertação e final da Segunda Guerra Mundial na Europa. Capturado e interrogado, é posto frente a frente com provas do genocídio e, como outros líderes nazistas, comete suicídio para não enfrentar a justiça pelas barbáries cometidas. Em contraponto, há o seu tipo paterno, Kurt Dorf (Roberth Stephens), engenheiro que vê as atrocidades mas não consegue tomar uma iniciativa maior para combatê-las se não somente manter sob sua guarda e segurança prisioneiros judeus na construção de uma estrada nas proximidades de Auschwitz – entre eles, Josef Weiss. Após o suicídio de Erik, Kurt tenta desmascarar as atividades criminosas do sobrinho perante sua família. Mas nem Marta nem os dois filhos já crescidos de Dorf lhe dão ouvidos, repudiando suas declarações. O retrato dos alemães colaboracionistas, se não ingênuos.

A minissérie serviu e ainda serve como uma avaliação de atitudes quanto ao assunto, principiando uma abordagem maior ao tema. A atuação de personagens fictícios ao lado de outros reais – os nazistas Heinrick Himmler, Reinhard Heydrich e  Adolf Eichmann e um dos líderes da resistência no gueto, Mordechai Anielevitz – foi eficiente para o desenvolvimento da história. Como já citei, o desempenho de todo o elenco contribuiu para a magnificência da produção, sobretudo Michael Moriarty, interpretando um Erik Dorf de olhar gélido e impassível frente a cadáveres de judeus fuzilados ou prisioneiros a caminho das câmaras de gás.

Chocante até hoje, “Holocausto” teve críticas negativas também. Para alguns, suavizava os fatos. No entanto, nenhum filme específico conseguiu abranger a história das perseguições em todas as etapas com grande abrangência. Enquanto “A lista de Schindler”, “O diário de Anne Frank”, “O pianista”, “Cinzas da guerra” e “O último trem” tratam de situações e personagens específicas durante o Holocausto, a minissérie envolveu a história de todos os judeus europeus e seus algozes, representados pelas famílias Weiss e Dorf. Por isso, nada mais justo que mantê-la no posto de marco da televisão mundial. É quase como uma triste alegoria da vergonhosa história da humanidade.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...