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sexta-feira, 31 de maio de 2024

VIAGEM: Cabaceiras, PB (06/04/2024)


Pela terceira vez viajei à Paraíba nas férias - e a primeira vez com meu marido Érico -, e essa foi a oportunidade de realizar um sonho, além de voltar aos lugares mais lindos do Nordeste e a uma terra que cogito ser meu futuro lar após a aposentadoria, dentro de pouco menos de nove anos: conhecer a Roliúde Nordestina, Cabaceiras, a cerca de três horas e meia de carro de João Pessoa.

A pequena Cabaceiras se tornou famosa por ser locação de várias produções do cinema nacional, sendo a mais notável "O auto da compadecida" (2000). Ela tem aquele colorido charmoso em meio à simplicidade, o clima pacato e o típico calor humano do nordestino. Para chegar até lá, fechamos um passeio privativo com a Luck Receptivo (R$ 1.080,00), que nos apanhou na hospedagem no Bessa, em João Pessoa, às 8h30 (depois soube que o melhor horário para aproveitar bastante seria antes das 8h). Já na rodovia BR-230, fizemos uma paradinha de 20 minutos para lanche e uso do banheiro na Tapiocaria do Irmão Firmino, cerca de uma hora e meia depois da saída da capital, passamos por Campina Grande e, finalmente, chegamos a Cabaceiras.

Chegando à cidade, já enxergamos seu grande marco: o letreiro da Roliúde Nordestina. É ponto obrigatório para tirarmos fotos nesse lugar mágico!


O primeiro local a ser visitado é o Museu Histórico de Cabaceiras, onde, além de um pouco da história da região, temos contato com a memorabilia das produções audiovisuais rodadas na cidade, como "Cinema, aspirina e urubus" (2005) e a série nacional "Cangaço novo" (2024), em exibição no streaming Prime Vídeo. São figurinos, equipamentos, cartazes e fotografias de diversos momentos das produções. Foi ali que conhecemos o "Xixi de Cabrita", um licor feito de aguardente, leite de cabra e baunilha, tão suave e gostoso que pode pegar desprevenido o biriteiro mais experiente. Foi criado para a Festa do Bode Rei, evento comemorativo da caprinocultura do Cariri paraibano que acontece todos os anos no início de junho, quase um abre alas para as festas juninas que pipocam por ali.


























Um passeio feito a pé nos leva aos locais onde foram gravadas as icônicas cenas de "O auto da compadecida", como a igreja na frente da qual ocorreu a "ressurreição" de Chicó e a padaria. Recomenda-se usar chapéu e protetor solar para enfrentar o calor.

Entre os pontos interessantes de Cabaceira, há o monumento ao Bode Rei e o "bode dos desejos", uma escultura do animal onde, reza a lenda, se você apalpar os testículos do bicho e realizar um pedido, ele se realizará. Claro que fizemos o registro fotográfico desse momento - eu, às gargalhadas, quase não consegui posar.

O LAJEDO

Encerrado o passeio em Cabaceiras, foi hora de conhecer o Lajedo de Pai Mateus, antes da entrada da cidade. É uma elevação datada de milhares de anos, com belas formações rochosas e pinturas ruprestes, recebendo esse nome por conta da história de um curandeiro chamado Mateus que teria por ali vivido séculos atrás.

Para chegar ao lajedo, precisamos passar pelo Hotel Fazenda Pai Mateus. Ali almoçamos e ficamos aguardando o momento de subir ao lugar (as saídas são em grupos e em horários determinados, tudo muito bem organizado). O ingresso é comprado no próprio restaurante, e custou cada um R$ 60 (abril/2024), e ainda em valor promocional (o normal é R$ 120, mas como nesse dia havia uma turma grande de estudantes que iria fazer o roteiro no mesmo horário, estenderam o benefício da meia entrada para nós - taí uma coisa que não acontece todo dia!). 

A experiência de visitar o Lajedo do Pai Mateus é única! Depois que o guia do local dá todas as explicações históricas e científicas, além das dicas de segurança para o passeio, a subida até o topo é muito tranquila e não exige tanto esforço físico, pois a estrutura não é muito íngreme. Uma vez lá em cima, conhecemos as formações rochosas de maior destaque, como a Pedra do Capacete, onde pai Mateus teria morado, e a Pedra do Sino, que ao ser golpeada com um objeto gera um som semelhante ao de um badalo.

A vista do topo do lajeado é gratificante, e a energia que emana daquela tranquilidade, daquele silêncio e de toda a beleza natural é algo que não se consegue exprimir em palavras, mas em sensações. Eu senti uma paz tão grande! Ficamos por ali cerca de 40 minutos, curtindo a paisagem belíssima.

Dizem que o melhor momento é o do por do sol, mas como tínhamos muita estrada pela frente de volta a João Pessoa - e muito engarrafamento por conta de obras de duplicação da rodovia BR-230 -, decidimos voltar antes que começasse a escurecer, e chegamos à hospedagem pouco antes das 20h. E assim acabou nosso gratificante dia de passeio a Cabaceiras. Um sonho realizado!

FUTURO

Claro que a experiência ainda não foi concluída, pois além do Lajedo de Pai Mateus, há outro chamado Saco de Lã, bem ao lado (antes era um complexo só, mas, segundo soubemos, um desentendimento entre os sócios causou a cisão do negócio, e agora cada um tem seu empreendimento). Para um bate e volta, fica difícil fazer os dois passeios, então esse, que promete ser tão belo e emocionante quanto o do Pai Mateus, ficará para nossa próxima visita.

Essa visita futura está inicialmente planejada para 2026, com um roteiro que começa em Juazeiro do Norte, no Ceará (outro sonho a ser realizado) e termina em João Pessoa, passando por Campina Grande e, claro, Cabaceiras!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

FILMES: "Creepshow" (1982)

Um diretor badalado, um escritor popular em ascensão e uma lenda dos efeitos de maquiagem. Esse encontro só poderia dar bons frutos.

Era 1981. George Romero colhia frutos na carreira cinematográfica após lançar um marco com "A noite dos mortos vivos" na década de 1960; Stephen King já caíra no gosto popular após ter suas primeiras obras adaptadas para o cinema: "Carrie, a estranha" (1976) e "O iluminado" (1980), além da minissérie para a TV "Os vampiros de Salem" (1978); e Tom Savini ganhava admiradores por conta de seu trabalho impressionante com maquiagem e efeitos visuais em "Sexta-feira 13" (1980). Os três se juntaram (Romero como diretor, King como roteirista e Savini nos efeitos visuais) e criaram "Creepshow" (1982), que pode não ser uma obra espetacular dirigida por Romero, mas fascina ainda hoje pela originalidade na abordagem das histórias episódicas, agora fazendo uma justa homenagem às deliciosas revistas de terror das décadas de 1960-70, ao estilo da saudosa "Cripta do Terror", itens raros de colecionador.

"Creepshow" reuniu um elenco de atores veteranos e outros ainda iniciantes naqueles anos. Vemos aqui Fritz Weaver, Hal Halbrook, Adrienne Barbeau, Leslie Nielsen e outros atuando ao lado dos jovens Ted Danson e Ed Harris em cinco histórias curtas de terror transpostas de uma HQ de horror tomada do menino Billy (Joe Hill, filho de Stephen King que anos depois seguiria os passos do pai na literatura fantástica e de terror) pelo seu pai intolerante, Stan (Tom Atkins), e jogada na lata de lixo. À medida que o vento arrasta a revista e move suas páginas, as histórias começam a se transformar em tramas com atores reais, sem abrir mão dos efeitos gráficos (fundos coloridos, efeitos de luz azul ou vermelha, caixas de texto). O resultado é nostálgico!


Depois do prólogo onde são apresentados a revista e o condutor das histórias - um esqueleto encapuzado -, somos apresentados à história "Dia dos Pais". Nela, a família Grantham se reúne para o jantar tradicional da data: Sylvia (Carrie Nye), seus sobrinhos Cass (Elizabeth Regan) e Richard (Warner Shook), além de Hank (Eddie Harris), marido de Cass. Todos esperam Bedelia (Viveca Lindfors), que sete anos anos, naquela mesma data, matara o próprio pai, o velho intolerante Nathan Grantham (John Lormer), golpeando-o com um pesado cinzeiro, após saber que ele fora o mandante do assassinato de seu noivo e depois de ele atormentá-la exigindo um bolo pelo Dia dos Pais. Antes de encontrar os demais familiares (ela é tia de Sylvia), Bedelia visita o túmulo do velho Grantham e tem uma péssima surpresa: o cadáver putrefato sai da sepultura em busca do tal bolo, acabando com todos que cruzam seu caminho, a começar pela filha assassina. Humor negro de revirar o estômago!


A segunda história, "A morte solitária de Jordy Verril",  é marcante porque é protagonizada pelo próprio Stephen King. Canastrão até não poder mais, ele interpreta o caipira fracassado Jordy Verril, que vê uma esperança de mudar de vida quando um meteorito cai em sua propriedade: ele já se imagina ganhando muito dinheiro com a descoberta. Ao apanhar o objeto espacial, entretanto, ele acaba libertando uma espécie de vegetação alienígena que começa a tomar conta do terreno e do próprio corpo do fazendeiro, levando-o ao desespero. As caras e trejeitos de King são muito engraçados, mas com a sua interpretação exagerada ele conseguiu gerar empatia por um ser humano cuja vida é tão marcada por fracassos que o tornou um conformista.


O terceiro episódio é o meu preferido: "Maré alta" (também traduzido como "Indo com a maré"). Nele, o empresário Richard Vickers (meu saudoso Leslie Nielsen) descobre a traição da mulher Rebecca (Gaylen Ross) com Harry (Ted Danson) e resolve vingar-se de uma maneira cruel: enterra os amantes na praia durante a maré baixa, deixando-os apenas com a cabeça fora da areia, e arma todo um equipamento para transmitir a morte lenta de ambos, assistindo seu afogamento na maré alta no conforto de sua própria casa. Entretanto, uma reviravolta vai colocar o vingativo marido em péssimos lençóis: o casal volta dos mortos para um acerto de contas.


"A caixa", a quarta história, me deixou muito assustado quando vi o filme pela primeira vez, em 1984. O zelador de uma universidade, Mike (Don Keefer) encontra por acaso uma caixa escondida sob uma escada num porão, datada de 1894. Ele comunica a sua descoberta ao professor Dexter Stanley (Fritz Weaver), crente de que pode ser algo de possível importância científica. Mas ao abrirem a caixa libertam uma criatura assustadora que devora carne humana. Mike e outro aluno, Charlie (Robert Harper), acabam sendo despedaçados e devorados pelo monstro. Stanley escapa e recorre ao seu amigo Henry Northrup (Hal Holbrook), também professor, que aproveita a situação para planejar uma revanche contra sua esposa Wilma (Adrienne Barbeau), uma mulher vulgar, alcoólatra, arrogante e debochada que sempre humilha o marido na primeira oportunidade. Uma excelente mistura de humor e medo.


O melhor fica para o episódio final! Em "Vingança barata" (também traduzido como "Elas rastejam sobre você"), E. G. Marshall intepreta Upson Pratt, um bilionário que se isolou do mundo em um apartamento totalmente estéril, cercado por alguns móveis e aparatos tecnológicos que estabelecem sua ligação com o resto da sociedade. Paranóico com limpeza e com pavor de germes, Pratt é uma péssima pessoa, um racista arrogante, capaz de tripudiar sobre o sofrimento alheio: ele comemora o suicídio de um de seus pares e faz pouco caso da viúva chorosa que lhe telefona para amaldiçoá-lo. Durante um blecaute, Pratt acaba encarando seu grande pavor: um verdadeiro batalhão de baratas que aparecem por todos os lados de seu apartamento. A cena final, com as baratas saindo do corpo de Pratt, foi chocante para a época e jamais me saiu da cabeça. Impressionante trabalho de Savini!


Além de King, Tom Savini também faz uma ponta no epílogo do filme, como um lixeiro que encontra a revista "Creepshow" de Billy e percebe que o cupom do pedido de um boneco vodu havia sido recortado dela. Más notícias para o pai autoritário do garoto!

No DVD relançado no final de 2017- um pack que traz também filmes roteirizados ou inspirados em obras de Stephen King "Creepshow 2", "A criatura do cemitério" e "Às vezes eles voltam" -, há um breve especial sobre a origem do filme e alguns bastidores. O melhor de tudo é ver que eu não estava imaginando coisas: o tal cinzeiro usado por Bedelia para matar seu pai aparece em todas as histórias! A imagem está perfeita, e vale a pena ter o lançamento como item de colecionador.


Depois do bom trabalho em "Creepshow", cinco anos depois Romero produziu sua continuação, "Creepshow 2", que acabou ficando muito aquém da qualidade do original, com histórias fracas, elenco sofrível (principalmente no episódio "A balsa", com atores ruins de doer) e falta da característica gráfica típica das HQs do primeiro. Totalmente dispensável.

sábado, 30 de dezembro de 2017

FILMES: "360" (2012)

Sempre gostei de filmes com aqueles loopings interessantes onde os destinos dos personagens se cruzavam e, de certa maneira, influenciavam uns aos outros, mostrando como a nossa existência é mais repleta de causas e consequências do que imaginamos, quase em uma precisão matemática. Assim foi com "Magnólia"(1999), de Paul Thomas Anderson, "Cenas da vida" (Short cuts, 1993), de Robert Altman, e "Babel" (2006), de Alejandro González Iñarritu. "360" (referência ao círculo de 360 graus), dirigido por Fernando Meirelles, vai por esse caminho, mas em vez de ser apenas outro filme com uma estrutura nada original, vem somar a esse universo de temas infindáveis relacionados às coincidências e encontros fortuitos nas vidas dos personagens.

O filme começa em Viena, com Mirkha (Lucia Siposová) fazendo seu book para se tornar mais uma garota de programa recrutada pelo cafetão Rocco (Johannes Krisch), sob o olhar reprovador da irmã mais nova Anna (Gabriela Marcinková), que mesmo assim compreende o esforço da mais velha para sustentar a família. Seu primeiro cliente deverá ser Michael Daly (Jude Law), um inglês casado com Rose (Rachel Weisz), a quem deixou em Londres. Na capital inglesa, Rose tem um caso com o fotógrafo brasileiro Rui (Juliano Cazarré), o qual viajara para a Inglaterra com a namorada Laura (Maria Flor) para juntos tentarem uma nova vida. Ao descobrir a traição de Rui, Laura volta para o Brasil, e na viagem de retorno via Estados Unidos conhece John (Anthony Hopkins), um senhor a caminho de reconhecer o corpo de uma mulher que poderia ser sua filha desaparecida tempos atrás, e Tyler (Ben Foster), recém colocado em liberdade condicional após prisão por abusos sexuais, e agora a caminho de sua casa e de um recomeço. Em Paris, Valentina (Dinara Dukarova) trabalha como assistente de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze). Este guarda uma paixão pela colega, mas o respeito à religião impede a aproximação, pois Valentina é casada com Sergei (Vladimir Vdovichenkov), que trabalha como motorista para um rico e arrogante empresário e arma para ele em Viena um encontro com uma prostituta: Mirkha, que usa o codinome Blanka.

Fechado o círculo de personagens, começa a série de encontros, desencontros e entrada em cena de outras pessoas. Cada diálogo e atitude vai interferir nos seus destinos, afetando também aos demais. Na noite em que vai encontrar Mirkha/Blanka, Michael é surpreendido por dois colegas, os quais veem a prostituta e fazem comentários desaprovadores, levando Daly a desistir do encontro e ligar para a esposa Rose, revelando sua saudade. Ao ouvir o recado do marido, Rose repensa sua relação com Rui e termina o caso após um último encontro. E essa fórmula vai se repetindo no decorrer do filme, com resultados felizes para alguns e infelizes para outros - mostra de que desencontros e medo de expor sentimentos acabam prejudicando mais ainda a pessoa. Ou seja, nada na nossa vida acontece por puro acaso.

Onde baixar: Filmes Cult

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

FILMES: "Corra!" (Get out, 2017)




Se você é negro, sente que vive em uma sociedade onde o racismo é disfarçado e por isso é "escaldado", vai entender a reação de desconfiança do jovem fotógrafo Chris Washington (Daniel Kaluuya) durante a festa tradicional que a família de sua namorada branca Rose Armitage (Allison Williams) promove anualmente em sua propriedade: só há pessoas brancas que o tratam com cortesia e gentileza extremas, e fora ele, os únicos negros são empregados dos Armitage - Georgina (Betty Gabriel), a copeira, e Walter (Marcus Henderson), o jardineiro. Rose o leva até o lugar para apresentá-lo ao pai neurocirurgião, Dean (Bradley Withford), e à mãe, Missy (Catherine Keener), a qual desenvolveu interessantes técnicas de hipnose que em um primeiro momento conseguem fazer Chris largar o hábito de fumar, instantaneamente. Além deles, há o irmão de Rose, Jeremy (Caleb Landry Jones), um tipo meio encrenqueiro. Está armada a trama de "Corra!", de Jordan  Peele, uma alegoria bem interessante sobre racismo velado e a hipocrisia das relações sociais entre brancos e negros.

No filme, os Armitage são uma família que diz repudiar o racismo, mas sua tentativa constante de afirmar isso, seja por palavras ("eu voltaria no Obama", diz Dean) ou atitudes, deixa Chris cada vez mais desconfiado. É para o amigo gente boa Rod (Lil Rel Howery), um divertido agente de segurança, que ele vai contar por celular suas suspeitas de que há algo muito errado naquele lugar, sobretudo pelas atitudes de Georgina e Walter, estranhamente conformados, como se fossem robôs ou houvessem passado por uma lavagem cerebral. As desconfianças vão se agravar após a chegada à festa de Sebastian (Keith Stanfield), outro negro, acompanhado de sua mulher, uma branca muito mais velha. A reação aparentemente agressiva de Sebastian ao flash do celular de Chris - foto que ele vai mandar para Rod posteriormente - faz disparar o alarme na mente do fotógrafo. Só que aí ele vai perceber que caiu em uma armadilha.

(SPOILERS A SEGUIR)
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O próprio espectador vai começar a ficar nervoso justamente com a chegada de Sebastian, pois vai reconhecer nele o jovem que, no prólogo do filme, é sequestrado por um homem encapuzado quando caminhava rumo a um suposto encontro. Ele, na verdade, é Andrew Logan, um conhecido de Rod e Chris, dado como desaparecido há meses, como o agente vai descobrir em sua investigação quando Chris não retorna do final de semana com os Armitage. A essa altura, o fotógrafo já descobriu da pior maneira possível quem é a família de sua namorada: perpetradores de uma técnica desenvolvida pelo patriarca, já falecido, que lhes permitia, por meio da hipnose, transformar pessoas negras em seres submissos, inclusive de forma sexual. Pior que isso: com uso de cirurgia, conseguem fazer uma espécie de transplante de consciência, tornando a vítima um tipo de hospedeiro. E, pior ainda: Chris será o próximo, leiloado em um silencioso evento entre todos os brancos na festa. Os momentos finais do filme, quando Chris consegue driblar os Armitage e iniciar sua represália para poder fugir, explicam as atitudes dos convidados com o fotógrafo.


"Corra!" também reserva uma crítica à suposta paranoia envolvendo o racismo, evidente na sequência em que Rod, extremamente preocupado com o sumiço do amigo e quase próximo da verdade após descobrir o desaparecimento de Andrew, procura a polícia para contar suas suspeitas e é recebido com incredulidade e risadas dos policiais - dois dos quais são negros. Ou seja, o racismo muitas vezes é tomado como exagero - uma forma de minimizar um problema não só grave como repulsivo: até declarações públicas racistas (seja como piada ou como exposição de estereótipos) tendem a ser relevadas por conta de "exageros" de quem se sente ofendido.

Interessante é saber que o final do filme, quando Chris mata todos os algozes (o que me vez vibrar a cada contra ataque) e descobre a verdade sobre Georgina e Walter (para os quais foram transplantadas as lembranças dos pais de Dean), havia sido modificado por conta da má reação da plateia em exibições prévias. No original, depois de estrangular Rose, a última que ainda o perseguia, Chris é preso. Na cadeia, condenado, revela a Rod que está tranquilo, pois conseguira parar a loucura dos Armitage. Na versão dos cinemas, é Rod quem aparece e resgata Chris. Ambos vão embora e deixam Rose, que fora baleada por Walter num instante de lucidez (que o leva a se matar depois), sangrar até a morte na estrada (eu, particularmente, passaria com o carro por cima da vadia, tamanha a revolta que aquela trama imoral me provocou).

Longe de ser apenas um filme de terror psicológico, "Corra!" é uma reflexão sobre as considerações feitas sobre o racismo hoje e a condenação do "politicamente correto" quando o assunto é ofensa racial. É para isso que serve a situação absurda mostrada por Peele na trama: nada é tão absurdo e inacreditável que não possa se tornar, em algum momento, uma verdade pavorosa.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

FILMES: "No mundo de 2020" (Soylent green, 1973)




Na abertura de "No mundo de 2020" (Soylent green, 1973), dirigido por Richard Fleischer, em apenas dois minutos, é mostrada a desagregação do planeta Terra em vários fotogramas que aceleram conforme a passagem do tempo, dos tranquilos ambientes do século 19 até a loucura moderna com poluição, superpopulação, calor extremo e miséria. É nesse ambiente, projetado no ano 2022 em uma Nova York de 40 milhões de habitantes e altas temperaturas, que o policial Robert Thorne (Charlton Heston) é encarregado de investigar o assassinato de um rico empresário, William Simonsen (Joseph Cotten), morto a golpes de gancho sem oferecer nenhuma resistência ao seu algoz, um jovem recrutado entre a população miserável que lota as ruas da metrópole.
 
O autor do crime e o mandante são logo revelados, mas o mistério é saber tanto a motivação do assassinato quanto a razão da inércia de Simonsen diante da própria execução. Para isso, Thorne  conta com a ajuda de um amigo investigador, Sol Roth (Edward G Robinson, em seu último filme e uma participação emocionante), já idoso, que conhecera as belezas do mundo de outrora. Ao mesmo tempo, acaba se envolvendo com Shirl (Leigh Taylor Young), uma "mobília" de Simonsen - uma espécie de empregada-amante que faz parte do aluguel do apartamento, do mesmo jeito que várias outras mulheres. É ela quem vai dar algumas pistas para Thorne, que se recusa a abandonar a investigação mesmo com a determinação de seu chefe Hatcher (Brock Peters), este já devidamente pressionado pelo pessoal do governador Santini (Whit Bissell), ligado à empresa Soylent, que fornece alimentos para a população - na verdade, uma espécie de comida sintética produzida na forma de barras a partir de plânctons dos oceanos. A resolução do mistério é surpreendente e sinistra, explicando tanto a atitude de Simonsen diante de seu assassino quanto dos demais personagens que descobrem o segredo mortal. Mas até chegar à solução, Thorne terá que enfrentar ameaças à sua própria vida.

O filme é uma distopia chocante que se fia nas piores previsões malthusianas sobre o futuro da humanidade. A escassez de alimentos naturais - encontrados agora apenas a preços exorbitantes para classes ricas - leva à produção de comidas sintéticas, dadas diariamente a multidões nas ruas de Nova York. O próprio Robert se aproveita da investigação para surrupiar alimentos e produtos de limpeza do apartamento da vítima. As pessoas miseráveis se aglomeram em escadas, corredores e igrejas pela falta de imóveis. Água quente é um dos privilégios dos ricos. Os mortos não são sepultados, mas descartados em uma espécie de estação de tratamento. Além disso, morre-se também quando se deseja, em uma espécie de eutanásia assistida na qual as pessoas podem se encantar com imagens coloridas e belas do passado do planeta. Um universo totalmente deprimente e decadente, onde seres humanos são divididos entre os ricos e poderosos e os miseráveis e abandonados, quase uma fábula sobre um futuro alternativo muito real e talvez mais próximo do que se imagina.

"No mundo de 2020" é baseado no romance "Make a room! Make a room!", escrito por Harry Harrison e publicado em 1966.

terça-feira, 11 de julho de 2017

FILMES: "O homem do prego" (The pawnbroker, 1964)

Sol Nazerman (Rod Steiger) é um judeu alemão de Leipzig que sobreviveu ao Holocausto, mas perdeu toda a família - a esposa Ruth, o casal de filhos e os pais. Vivendo agora com a cunhada em Nova York, na metade da década de 1960, ele sobrevive da loja de penhores que possui no Harlem. Fechado, frio e às vezes grotesco por conta de tanta insensibilidade com que lida com aqueles que procuram sua loja para "por no prego" algum bem em troca de algum dinheiro, ele usa essa crosta de desprezo para isolar e tentar esquecer o inferno que destruiu sua vida na Europa, um lugar que "fede", como ele retruca para a cunhada que o convida a passar um tempo de férias no Velho Mundo.



Esse é o fio condutor de "O homem do prego", um ótimo filme dirigido por Sidney Lumet que rendeu a Rod Steiger uma indicação ao Oscar - ele acabou levando o Bafta naquele ano. Nazerman o tempo todo é atormentado pelas lembranças mais terríveis do destino de sua família, que aparece logo no prólogo momentos antes de serem capturados e enviados a Auschwitz. O Harlem, como se percebe na sequência inicial onde Sol, após rejeitar o convite da família da cunhada para passar as férias na Europa, segue para sua pequena loja de penhores, lembra bastante os guetos europeus, com seu tráfego constante de pessoas, pedintes e vitrines repletas de calçados que remontam aos sapatos dos mortos reunidos no museu de Auschwitz.

Nesse ambiente, Nazerman utiliza a loja para lavar o dinheiro do mafioso Rodriguez (Brock Peters), sem saber exatamente sua origem. Ali também é visto como professor pelo latino Jesus Ortiz (Jaime Sánchez), seu jovem auxiliar dividido entre a oportunidade de aprender um novo ofício e o chamado do mundo da criminalidade. Outros personagens surgem em torno de Sol, os quais ele, em sua amargura e frieza, afasta com grosseria e desprezo, como Marylin Birchfield (Geraldine Fitzgerald), que flerta com o homem do penhor; Tessie (Marketa Kimbrell), outra sobrevivente do Holocausto com quem Nazerman mantém relacionamento e que na época do cativeiro fora esposa de um amigo dele, o qual não sobreviveu à perseguição; Mendel (Baruch Lumet), pai de Tessie, para quem a sobrevivência se tornou um fardo; e a prostituta namorada de Ortiz (Thelma Oliver), cujo assédio leva Nazerman a relembrar um dos momentos mais terríveis relacionados à sua esposa Ruth (Linda Geiser) durante sua captura e deportação - aliás, ambas as atrizes protagonizaram cenas de seios desnudos bem ousados para a época.

Tantas situações envolvendo criminosos e, posteriormente, um plano de assalto à loja de penhor orquestrado por Ortiz vão aos poucos minando a muralha de distanciamento e insensibilidade de Nazerman: ele testemunha um jovem negro tentar fugir de uma gangue, e isso lembra a morte do marido de Tessie em Auschwitz ao tentar fugir; a descoberta de uma das fontes de renda de Rodriguez dolorosamente lembra os estupros sofridos por Ruth logo após sua chegada ao campo de extermínio; e o metrô lhe força a imagem do vagão de gado onde foi mandado para Auschwitz com a família e centenas de outros judeus, onde acabou perdendo seu filho.


As lembranças vão se acumulando e surgindo em rápidos cortes, que aos poucos formam sequências inteiras. A partir daí fica mais compreensível a atitude de Nazerman, enquanto sobrevivente, em ser uma pessoa distante, na verdade um desiludido que parece existir por existir depois de tantos terrores. "Eu não sou discriminatório nem sectário. Preto, branco ou amarelo, são todos iguais... Escória. Rejeitados", afirma para seu auxiliar Ortiz, que o havia questionado sobre o fato de se referir a um cliente como "criatura" apenas por ele ser negro. Ou, como ele resiste com grosseria ao assédio da sra. Birchfield e esta lhe pergunta o motivo de ser tão amargo: "Eu sou um homem sem nenhuma raiva. Não tenho desejo de vingança pelo que foi feito comigo. Eu escapei das emoções. Estou salvo dentro de mim mesmo. Tudo que peço e quero é paz e tranquilidade"; "E por que não achou", pergunta Birchfield; "Porque as pessoas, como você, não me deixam!". Mas são as revelações da natureza involuntária do seu trabalho, entre outros fatores, que irão fazer ruir a muralha de frieza de Nazerman. Sem apelações nem clichês. Um filme forte e ao mesmo tempo sensível.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...