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sábado, 30 de dezembro de 2017

FILMES: "360" (2012)

Sempre gostei de filmes com aqueles loopings interessantes onde os destinos dos personagens se cruzavam e, de certa maneira, influenciavam uns aos outros, mostrando como a nossa existência é mais repleta de causas e consequências do que imaginamos, quase em uma precisão matemática. Assim foi com "Magnólia"(1999), de Paul Thomas Anderson, "Cenas da vida" (Short cuts, 1993), de Robert Altman, e "Babel" (2006), de Alejandro González Iñarritu. "360" (referência ao círculo de 360 graus), dirigido por Fernando Meirelles, vai por esse caminho, mas em vez de ser apenas outro filme com uma estrutura nada original, vem somar a esse universo de temas infindáveis relacionados às coincidências e encontros fortuitos nas vidas dos personagens.

O filme começa em Viena, com Mirkha (Lucia Siposová) fazendo seu book para se tornar mais uma garota de programa recrutada pelo cafetão Rocco (Johannes Krisch), sob o olhar reprovador da irmã mais nova Anna (Gabriela Marcinková), que mesmo assim compreende o esforço da mais velha para sustentar a família. Seu primeiro cliente deverá ser Michael Daly (Jude Law), um inglês casado com Rose (Rachel Weisz), a quem deixou em Londres. Na capital inglesa, Rose tem um caso com o fotógrafo brasileiro Rui (Juliano Cazarré), o qual viajara para a Inglaterra com a namorada Laura (Maria Flor) para juntos tentarem uma nova vida. Ao descobrir a traição de Rui, Laura volta para o Brasil, e na viagem de retorno via Estados Unidos conhece John (Anthony Hopkins), um senhor a caminho de reconhecer o corpo de uma mulher que poderia ser sua filha desaparecida tempos atrás, e Tyler (Ben Foster), recém colocado em liberdade condicional após prisão por abusos sexuais, e agora a caminho de sua casa e de um recomeço. Em Paris, Valentina (Dinara Dukarova) trabalha como assistente de um dentista muçulmano (Jamel Debbouze). Este guarda uma paixão pela colega, mas o respeito à religião impede a aproximação, pois Valentina é casada com Sergei (Vladimir Vdovichenkov), que trabalha como motorista para um rico e arrogante empresário e arma para ele em Viena um encontro com uma prostituta: Mirkha, que usa o codinome Blanka.

Fechado o círculo de personagens, começa a série de encontros, desencontros e entrada em cena de outras pessoas. Cada diálogo e atitude vai interferir nos seus destinos, afetando também aos demais. Na noite em que vai encontrar Mirkha/Blanka, Michael é surpreendido por dois colegas, os quais veem a prostituta e fazem comentários desaprovadores, levando Daly a desistir do encontro e ligar para a esposa Rose, revelando sua saudade. Ao ouvir o recado do marido, Rose repensa sua relação com Rui e termina o caso após um último encontro. E essa fórmula vai se repetindo no decorrer do filme, com resultados felizes para alguns e infelizes para outros - mostra de que desencontros e medo de expor sentimentos acabam prejudicando mais ainda a pessoa. Ou seja, nada na nossa vida acontece por puro acaso.

Onde baixar: Filmes Cult

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

FILMES: "Westworld - onde ninguém tem alma" (Westworld, 1973)

As décadas seguintes à hecatombe que determinou o fim da Segunda Guerra Mundial marcaram uma evolução incrível na produção cinematográfica norte americana. Até meados da década de 1980, os temas geraram filmes marcantes e obras primas de nível, como a Guerra Fria ("O dia seguinte", 1983) e o anticomunismo ("Vampiros de almas", 1956), só para citar alguns. Foi nesse meio onde se testemunhou a rapidez do desenvolvimento tecnológico que Michael Crichton escreveu e dirigiu "Westworld", uma ficção sinistra sobre as monstruosidades engendradas pelo ser humano no mundo da tecnologia.

Em um prólogo de aproximadamente três minutos, várias pessoas que aparentemente estão retornando de alguma viagem são entrevistadas por um repórter e falam das maravilhas do resort Delos, uma revolução no casamento entre diversão e tecnologia. Trata-se de uma propaganda que promete ao interessado disposto a pagar mil dólares diários uma emoção diferente e inovadora nas suas férias: um conjunto de três parques temáticos (Mundo Medieval, Mundo Romano e o Velho Oeste - a Westworld do título) onde turistas interagem com androides perfeitos e quase indistinguíveis dos humanos, exceto por uma pequena falha perceptível nas palmas das mãos. O apelo da Delos inclui até interação íntima com os personagens robóticos, prometendo domínio total sobre eles: os personagens podem ser mortos a tiros, mas logo são reprogramados para novas aventuras, e uma tecnologia impede que humanos sejam vitimados por engano (um dispositivo que trava as armas de fogo quando o alvo emite ondas de calor, no caso dos corpos humanos).
 
Peter Martins (Benjamin, à esq.) e John Blane (Brolin), os desafortunados amigos em Westworld
 No novo grupo de viajantes estão os amigos Peter Martin (Richard Benjamin) e John Blane (James Brolin) - o primeiro, estreante no resort, enquanto o segundo já conhecera o complexo de Delos em ocasião anterior. Ambos escolhem Westworld, com seus duelos, cabarés, foras da lei e belas prostitutas - o estereótipo romântico do Velho Oeste. A diversão começa. Algumas falhas são diagnosticadas, mas nada que preocupe a equipe de monitoramento do resort, uma vez que bastam uns ajustes para as "peças" se ajustem e voltem à interação com os humanos.

No entanto, em certo momento da aventura John é picado por uma cascavel - uma androide, obviamente, o que lhe causa apenas um pequeno ferimento. A equipe não descobre a falha na programação da falsa cobra. A situação começa a piorar gradualmente nos três espaços do complexo, e a gravidade do problema só é percebida tarde demais.

ALERTA DE SPOILERS A SEGUIR


ALERTA DE SPOILERS A SEGUIR

O filme traz como tema claro a impotência do homem diante dos abusos que comete por meio da tecnologia e a falta do domínio que tem sobre ela. Um dos personagens, membro da equipe controladora dos três mundos de Delos, admite que partes dos robôs foram criadas por outros robôs, de forma que ele desconhecia o que havia sido feito nesse processo. Ao querer criar seres artificiais à sua imagem e semelhança para poder dominá-los, o homem  inicia o caminho de autodestruição por pura ambição e arrogância. Crichton trataria do tema de novo anos mais tarde na literatura com "Jurassic Park".
 
O androide pistoleiro de Yul Brynner: olhar sinistro na caça aos turistas
Assim como na obra sobre os dinossauros recriados, em "Westworld" o descontrole - aqui provocada por pura falta de domínio da tecnologia, em vez da corrupção e da espionagem industrial na fábula jurássica - tem resultados fatais: no Mundo Medieval, um dos turistas é assassinado em um duelo com o androide Cavaleiro Negro pelo amor de uma Rainha; no Mundo Romano, os escravos resistem ao assédio sexual dos visitantes e em uma espécie de vingança os atacam e matam; e em Westworld, o terceiro encontro entre a dupla de amigos e o robô pistoleiro (Yul Brynner, em uma performance assustadora) termina mal, quando John é morto a tiros e Peter passa a ser perseguido pelo androide de olhar sinistro.


Nessa fuga desesperadora, Peter testemunha o massacre dos turistas nos outros complexos e a morte da equipe de monitores (no desespero para tentar conter os ataques, desligam a energia e acabam ficando irremediavelmente presos na cabine, onde perecem sufocados). No final, após conseguir deter seu algoz com ácido, e exausto, Peter senta-se na escada de saída do Mundo Medieval e observa, horrorizado, o resultado da tragédia. Em off, a voz do repórter da propaganda repete constantemente a promessa de férias inesquecíveis em Delos. Tragicamente irônico.

Enfim, não há uma explicação clara para o "disparo" da alteração dos androides, e é nisso que reside o maior horror de todos: há algo pior do que se sentir impotente por não se chegar à causa de um problema que acabou custando centenas de vidas? É a mesma lógica pavorosa do final de "Os pássaros", de Hitchcock: o desconhecido permanece desconhecido e, exatamente por isso, assustador.

Série - O canal HBO lançou no último domingo, 2, a série inspirada no filme de Crichton. O primeiro capítulo já dá uma prévia do pesadelo que os visitantes de Westworld enfrentarão em breve: os androides do lugar (agora com tema restrito apenas ao Velho Oeste) começam a apresentar falhas e, aparentemente, desenvolver atitudes espontâneas. A diferença aqui é que todo um universo foi criado para que os próprios seres artificiais (chamados "anfitriões") vivam sua "realidade": eles se relacionam entre si como familiares, amigos ou amantes, vivem uma rotina imutável a cada dia com pequenas alterações (de acordo com sua programação) e até "matam" uns aos outros em duelos, assaltos e brigas. A diferença bacana é que a série vai explorar algo que só foi visto de relance no filme original: a alma de Westworld, as pessoas que estão por trás da tecnologia, representadas principalmente pelo criador do parque, Robert Ford (Anthony Hopkins), a quem um dos anfitriões diz, com um tom ameaçador, quase no final do capítulo: "Você não sabe onde está? Você está na prisão de seus próprios pecados". Vale a pena revisitar o filme de Michael Crichton e acompanhar a série que tem na produção o nome de J. J. Abrams, responsável por obras como a série "Fringe" e o o filme "Cloverfield".

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Comentário: "Hitchcock" (2012)


Todo cinéfilo que admira a obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899-1980) sabe a grande parceira que o Mestre do Suspense teve em sua esposa Alma Reville (1899-1982). Graças a ela, uma das maiores obras-primas do gênero, “Psicose”, de 1960, por pouco não foi um tremendo fiasco que macularia a imagem do marido. É essa a história que Sacha Gervasi nos traz em “Hitchcock” (Hitchcock, 2012): a relação entre Alma e Alfred em um momento de crise criativa do cineasta – problema que se estende ao casamento que já durava três décadas.

No filme, logo após a festejada premiére de “Intriga internacional”, de 1959, Hitchcock (magnificamente “restaurado” fisicamente e pela interpretação impecável de sir Anthony Hopkins) é questionado por um repórter se, àquela altura, nos seus 60 anos de idade, não estaria na hora de “sair de cena”. Um pequeno salto de poucos anos nos traz o inglês em busca de uma nova história para levar às telas. É quando descobre o livro “Psicose”, de Robert Bloch, um relato sobre um assassino em série – escolha que faz a imprensa e os produtores torcerem o nariz.

Alma Reville (Helen Mirren, como sempre uma atriz de talento respeitável) também discorda do marido sobre sua decisão de transformar uma história muito violenta em filme. Nessas idas e vindas surge Whitfield Cook (Danny Huston), roteirista que tenta aproveitar o momento para aproveitar sua amizade com Alma e usá-la para “empurrar” um roteiro para Hitchcock.

O foco do filme, porém, não fica centrado nos bastidores de “Psicose”. Acima disso, está a relação estagnada entre Alfred e Alma – ele, obcecado pelas suas protagonistas lindas e louras como Grace Kelly e Kim Novak, guarda fotos delas em sua escrivaninha. A descoberta de Alma sobre essa paixão secreta – ela, já cansada dos flertes do marido com suas estrelas, como Janeth Leigh (Scarlett Johanson, perfeita), escolhida para ser a desafortunada protagonista de “Psicose” – acaba aproximando-a de Whitfield na ajuda em melhorar o seu roteiro. Alfred passa a questionar a fidelidade da esposa, gerando interferência até mesmo nas filmagens da futura obra-prima. 
 
O filme em si funciona até mesmo com uma homenagem a Hitchcock. O prólogo segue o estilo usado pelo cineasta na famosa série “Alfred Hitchcock apresenta”: uma situação que termina em crime, observada pelo inglês, que a partir dali narra – com seu sutil senso de humor negro - o que acontecerá em seguida. Os devaneios do personagem em seus diálogos imaginários com o assassino em série Ed Gein (Michael Wincott), inspirador de Bloch ilustram um pouco do processo criativo que resultou em um dos mais originais filmes da década de 1960 e um marco no cinema de suspense.

Mas a verdadeira heroína de “Psicose” acaba sendo, no final das contas, a própria Alma, que tomou para si a tarefa de reeditar a película para transformá-la, de fato, no espetáculo no qual se tornou. Foi o seu afeto ao marido, afinal, que imortalizou o atormentado Norman Bates na história da sétima arte. Emocionante, para dizer o mínimo!

Publicado no caderno Plateia, jornal Amazonas em Tempo, edição de 28/07/2013, sob o título "O amor por trás da obra-prima"

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...