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sexta-feira, 31 de maio de 2024

VIAGEM: Cabaceiras, PB (06/04/2024)


Pela terceira vez viajei à Paraíba nas férias - e a primeira vez com meu marido Érico -, e essa foi a oportunidade de realizar um sonho, além de voltar aos lugares mais lindos do Nordeste e a uma terra que cogito ser meu futuro lar após a aposentadoria, dentro de pouco menos de nove anos: conhecer a Roliúde Nordestina, Cabaceiras, a cerca de três horas e meia de carro de João Pessoa.

A pequena Cabaceiras se tornou famosa por ser locação de várias produções do cinema nacional, sendo a mais notável "O auto da compadecida" (2000). Ela tem aquele colorido charmoso em meio à simplicidade, o clima pacato e o típico calor humano do nordestino. Para chegar até lá, fechamos um passeio privativo com a Luck Receptivo (R$ 1.080,00), que nos apanhou na hospedagem no Bessa, em João Pessoa, às 8h30 (depois soube que o melhor horário para aproveitar bastante seria antes das 8h). Já na rodovia BR-230, fizemos uma paradinha de 20 minutos para lanche e uso do banheiro na Tapiocaria do Irmão Firmino, cerca de uma hora e meia depois da saída da capital, passamos por Campina Grande e, finalmente, chegamos a Cabaceiras.

Chegando à cidade, já enxergamos seu grande marco: o letreiro da Roliúde Nordestina. É ponto obrigatório para tirarmos fotos nesse lugar mágico!


O primeiro local a ser visitado é o Museu Histórico de Cabaceiras, onde, além de um pouco da história da região, temos contato com a memorabilia das produções audiovisuais rodadas na cidade, como "Cinema, aspirina e urubus" (2005) e a série nacional "Cangaço novo" (2024), em exibição no streaming Prime Vídeo. São figurinos, equipamentos, cartazes e fotografias de diversos momentos das produções. Foi ali que conhecemos o "Xixi de Cabrita", um licor feito de aguardente, leite de cabra e baunilha, tão suave e gostoso que pode pegar desprevenido o biriteiro mais experiente. Foi criado para a Festa do Bode Rei, evento comemorativo da caprinocultura do Cariri paraibano que acontece todos os anos no início de junho, quase um abre alas para as festas juninas que pipocam por ali.


























Um passeio feito a pé nos leva aos locais onde foram gravadas as icônicas cenas de "O auto da compadecida", como a igreja na frente da qual ocorreu a "ressurreição" de Chicó e a padaria. Recomenda-se usar chapéu e protetor solar para enfrentar o calor.

Entre os pontos interessantes de Cabaceira, há o monumento ao Bode Rei e o "bode dos desejos", uma escultura do animal onde, reza a lenda, se você apalpar os testículos do bicho e realizar um pedido, ele se realizará. Claro que fizemos o registro fotográfico desse momento - eu, às gargalhadas, quase não consegui posar.

O LAJEDO

Encerrado o passeio em Cabaceiras, foi hora de conhecer o Lajedo de Pai Mateus, antes da entrada da cidade. É uma elevação datada de milhares de anos, com belas formações rochosas e pinturas ruprestes, recebendo esse nome por conta da história de um curandeiro chamado Mateus que teria por ali vivido séculos atrás.

Para chegar ao lajedo, precisamos passar pelo Hotel Fazenda Pai Mateus. Ali almoçamos e ficamos aguardando o momento de subir ao lugar (as saídas são em grupos e em horários determinados, tudo muito bem organizado). O ingresso é comprado no próprio restaurante, e custou cada um R$ 60 (abril/2024), e ainda em valor promocional (o normal é R$ 120, mas como nesse dia havia uma turma grande de estudantes que iria fazer o roteiro no mesmo horário, estenderam o benefício da meia entrada para nós - taí uma coisa que não acontece todo dia!). 

A experiência de visitar o Lajedo do Pai Mateus é única! Depois que o guia do local dá todas as explicações históricas e científicas, além das dicas de segurança para o passeio, a subida até o topo é muito tranquila e não exige tanto esforço físico, pois a estrutura não é muito íngreme. Uma vez lá em cima, conhecemos as formações rochosas de maior destaque, como a Pedra do Capacete, onde pai Mateus teria morado, e a Pedra do Sino, que ao ser golpeada com um objeto gera um som semelhante ao de um badalo.

A vista do topo do lajeado é gratificante, e a energia que emana daquela tranquilidade, daquele silêncio e de toda a beleza natural é algo que não se consegue exprimir em palavras, mas em sensações. Eu senti uma paz tão grande! Ficamos por ali cerca de 40 minutos, curtindo a paisagem belíssima.

Dizem que o melhor momento é o do por do sol, mas como tínhamos muita estrada pela frente de volta a João Pessoa - e muito engarrafamento por conta de obras de duplicação da rodovia BR-230 -, decidimos voltar antes que começasse a escurecer, e chegamos à hospedagem pouco antes das 20h. E assim acabou nosso gratificante dia de passeio a Cabaceiras. Um sonho realizado!

FUTURO

Claro que a experiência ainda não foi concluída, pois além do Lajedo de Pai Mateus, há outro chamado Saco de Lã, bem ao lado (antes era um complexo só, mas, segundo soubemos, um desentendimento entre os sócios causou a cisão do negócio, e agora cada um tem seu empreendimento). Para um bate e volta, fica difícil fazer os dois passeios, então esse, que promete ser tão belo e emocionante quanto o do Pai Mateus, ficará para nossa próxima visita.

Essa visita futura está inicialmente planejada para 2026, com um roteiro que começa em Juazeiro do Norte, no Ceará (outro sonho a ser realizado) e termina em João Pessoa, passando por Campina Grande e, claro, Cabaceiras!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

FILMES: "Bye bye Brasil" (1980)

O Brasil estava nos últimos anos da ditadura militar e nos primeiros momentos da transição para a democracia quando "Bye bye Brasil" chegou aos cinemas. O filme de Carlos Diegues, simples, cru e carregado de humor, trouxe uma visão de um país dentro de outro país, onde a tecnologia da televisão ainda não chegara e onde as ilusões do progresso cobravam seu alto preço.

É essa nova realidade que a "Caravana Rolidei", formada pelos artistas ambulantes Lorde Cigano (José Wilker), a dançarina e prostituta eventual Salomé (Betty Faria) e o musculoso e mudo Andorinha (Príncipe Nabor) quando chegam a uma pequena cidade do sertão nordestino e percebem que o seu público diminuiu. A culpa, Cigano constata, é das "espinhas de peixe", como ele jocosamente se refere às antenas de televisão: o povo começa a despertar para a caixa de imagens, abandonando o espetáculo mambembe. Então a caravana parte em busca de lugares onde a nova tecnologia ainda nem existe, pelas estradas do sertão, em direção ao sonho de riqueza anunciado por um caminhoneiro (Carlos Kroeber) que cruza com o grupo: Altamira, no Pará, terra de progresso, por onde a nova rodovia Transamazônica passa e conduz diversos sonhadores.


A essa altura, junta-se ao grupo um casal do interior: o sonhador sanfoneiro Ciço (Fábio Júnior) e sua esposa grávida Dasdô (Zaira Zambelli), submissa ao marido e boa cozinheira. Paralelo à luta pela sobrevivência, com episódios que chegam a ser hilários (como quando Cigano explode uma televisão em praça pública para forçar a população da cidade a procurar diversão da caravana, levando à expulsão dos artistas), Ciço se apaixona por Salomé, enquanto Dasdô passa aos poucos a ser assediada por Cigano.


As aventuras da trupe são emocionantes, revelando um Brasil mais real e cruel: o país da miséria, da falta de perspectivas, do descaso, da ganância, das obras faraônicas e da depredação. Em meio a isso, Salomé se recusa a ceder ao amor de Ciço mesmo após uma noite de sexo entre ambos, enquanto Dasdô vai cedendo a Cigano. Quando a filha do casal nasce, em plena estrada, a dançarina dá mais um ultimato ao sanfoneiro: "pegue sua mulher e sua filha e volte para casa". Ciço fica.


Quando o grupo chega a Altamira, percebe que foi ludibriado pelo caminhoneiro: a Transamazônica existia há mais tempo que o informado pelo caminhoneiro e a cidade estava praticamente "inchada" de aventureiros em busca de dinheiro. Quando Cigano perde o caminhão da caravana e todos os bens do grupo em uma aposta de queda de braço entre Andorinha e um rival, Salomé é levada a se prostituir. Andorinha, que se culpa pela desgraça de todos, abandona o grupo e desaparece. 

No final do filme, Carlos Diegues dedica a obra ao povo brasileiro do século 21, e isso pode ser entendido com o epílogo da história: forçado por Salomé e Cigano, Ciço embarca com Dasdô e a filha em um ônibus rumo a Brasília, enquanto os artistas seguem para Belém. Anos depois, na capital federal, todos voltam a se encontrar: Ciço e Dasdô com um grupo de música nordestina, acompanhados da filha; Salomé e Cigano, que conseguiram ganhar muito dinheiro com contrabando,  com uma nova "Caravana Rolidei", mais moderna e com novos integrantes, em busca de novas aventuras pelas estradas do país. Ou seja, um povo que sobrevive às dificuldades com muita luta, ainda que muito difícil. "O sol nunca mais vai se por", diz Cigano, rumo a um destino incerto, como na música tema de Chico Buarque.


sábado, 9 de dezembro de 2017

FILMES: "Que horas ela volta?" (2015)


Val (Regina Casé) é a empregada doméstica com quem toda a família de classe média sonha. Mora há mais de dez anos no emprego, num quartinho dos fundos, onde até guarda eletrodomésticos para a casa onde um dia pretende morar. Nordestina, manda dinheiro todos os meses para a terra natal, onde sua filha Jessica é criada por tios. Afetuosa, cria com carinho o filho do casal de patrões, um menino praticamente ignorado pelos pais que desenvolve um elo afetivo muito maior com a empregada. Quando o menino se torna um jovem que conta com a cumplicidade de Val para driblar a atenção do pai e da mãe para recuperar um pacote de maconha e nas noites de insônia procura a criada para lhe fazer cafuné até conseguir dormir, vem a notícia: a jovem Jéssica (Camila Márdila) está a caminho de São Paulo, onde irá prestar vestibular para o curso de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) - a mesma onde o filho dos patrões irá fazer o exame. Aí a vida de Val se tornará uma verdadeira tempestade.

No filme de Anna Muylaert, Regina Casé faz uma interpretação comovente e divertida de Val, mulher simples, conformada com o pouco caso que a família rica lhe presta, apesar de ser tratada como parte dela - isso na visão dos patrões, um casal de posses mas medíocre: a mulher, Bárbara (Karine Telles) é uma fashion designer que disfarça o descaso com Val por meio de um falso carinho (em uma cena, Val lhe dá um jogo de xícaras e cafeteira de aniversário, ela agradece mas relega o presente para ficar guardado para uma "ocasião especial", que não será a festa daquela mesma noite, para espanto da empregada); o marido, Carlos (Lourenço Mutarelli), é um rico herdeiro solitário que dorme em quarto separado da esposa e, carente, se sente atraído por Jéssica; e Fabinho (Michel Joelsas) é o filho postiço: para ele, Val é a amiga confidente e cúmplice. Todos eles, no entanto, a despeito da relação de confiança e amizade com a pernambucana, deixam claro o limite entre patrão e serviçal.

A chegada de Jéssica, a quem Val não via há dez anos, começa a abalar essa relação, para horror da mãe da jovem: a garota é bem recebida por todos, mas deixa claro para a empregada que não gostou de saber que ficaria hospedada na casa dos patrões. Sua inteligência e forma sincera de lidar com as situações incomoda Bárbara, encanta Carlos e Fabinho. A jovem logo acaba ficando no quarto de hóspedes a convite de Carlos, o que aborrece Bárbara. Assim começará uma "guerrilha" na qual Val chegará a entrar em desespero: a filha a cutuca para abrir os olhos para a relação de exploração estabelecida pelos patrões, mas a mãe insiste em manter aquele status quo no qual mergulhara há muitos anos. Com o tempo e as reações da filha, que sempre a chama pelo nome, Val vai desenvolver uma reflexão que logo a fará enxergar na chegada de Jéssica - e na descoberta casual de um segredo da filha - a oportunidade de reparar seus erros e evitar que eles se repitam na vida da jovem.
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(SPOILERS A PARTIR DAQUI)
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Há um aspecto interessante no filme, que não se trata da eterna guerra de classes sociais, e sim na hipocrisia das relações artificialmente criadas para tentar esconder as desigualdades. Para poder criar sua filha e lhe garantir um futuro melhor, Val deixa Pernambuco e se emprega no Morumbi como babá e, posteriormente, criada. Logo seu papel vai além disso e ela é considerada membro da família, mas sempre a serviçal acostumada a levar água para seus patrões. Com a chegada de Jéssica, essa relação começa a se revelar em sua essência: o fato de a filha da empregada se candidatar a uma das faculdades mais concorridas é recebida pelos ricos com espanto e incredulidade, principalmente por Bárbara. O fato de Fabinho rir do sotaque pernambucano de Jéssica ("Olha, ela fala igual à Val") expõe um comportamento tanto estúpido quanto ignorante de uma geração sem empatia alguma. Apenas Carlos se propõe a pajear a jovem vestibulanda, querendo saber mais sobre seus estudos, mostrando-lhe a casa, levando-a a lugares da capital paulista onde há exemplos de arquitetura moderna, mas com segundas intenções.

No meio de tudo, a reaproximação entre Val e Jéssica parece mais complicada por conta da personalidade contestadora da jovem, que não admite ver a mãe tão submissa e conformada. Essa critica a filha por suas atitudes "sem noção" junto aos patrões. Então chega a descoberta do segredo: Jéssica tem um filho pequeno, José, a quem deixara em Pernambuco para tentar uma vaga na FAU, de certa forma repetindo o que Val fizera muitos anos antes. O ponto de ruptura começa quando Fabinho não passa no vestibular e Jéssica é aprovada. A forma como Bárbara e o rapaz reagem à notícia, com incredulidade e maus disfarçados sarcasmo e ressentimento, é um dos momentos mais cruéis do filme: o fato da filha da empregada alcançar a meta, enquanto o jovem de boa vida tem um desempenho pífio, gera comentários que não chocam Val em sua mansidão. Mas como uma forma de mostrar que "quem pode, pode", a família decide mandar Fabinho para a Austrália, onde fará intercâmbio por dois anos. Com a partida do rapaz, a quem criara quase como um substituto de Jéssica, o elo é quebrado, e Val pede demissão a uma surpresa Bárbara para morar com a filha em um pequeno apartamento, mandando-a buscar seu netinho para, enfim, em um recomeço, levarem a vida a que se negara por tantos anos.

O título é uma referência a uma frase repetida no início e quase no final do filme. No começo, Fabinho, ainda criança, está na piscina sob o olhar de Val, até um momento em que chega para a então babá e pergunta que horas a mãe voltaria. Perto do encerramento da trama, Jéssica revela à mãe que fazia a mesma pergunta em Pernambuco para a família, pois sentia falta dela. E assim, resolvida a situação, Jéssica passa a tratar Val por "mãe". É chegada a bonança.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

De Tamara a Xuxa: um mito distorcido

Nas décadas de 1970 e 1980, o cinema nacional teve momentos de altos e baixos. Era tempo das poucas condições técnicas que acabaram muitas vezes nivelando por baixo muitas produções cinematográficas, muitas das quais conseguiam destaque pela criatividade e pela ousadia. Eram tempos de ditadura militar, censura e posteriormente abertura política e o alvorecer democrático. Nesse contexto o filme "Amor, estranho amor", de Walter Hugo Khouri, passou como todas as obras do diretor: ousado, sensual, introspectivo e com elenco repleto de belíssimas atrizes.

Passaram-se 29 anos desde a exibição do filme e "Amor, estranho amor" acabou relegado injustamente ao posto de maldito e pornográfico, mas pelas razões erradas e motivos distorcidos  por uma pendenga entre uma coadjuvante, a então iniciante atriz Xuxa Meneghel, antes de se tornar a celebridade dos "baixinhos" daquela década, e a própria indústria do entretenimento, nos primeiros passos do sensacionalismo que acabou vitimando o cinema de Walter Hugo Khouri.

A história de "Amor, estranho amor" se desenrola ao redor do menino Hugo (Marcelo Ribeiro, na época com 13 anos), ambientada na cidade de São Paulo da década de 1930/40, a partir de suas lembranças, já adulto. Ele é deixado pela avó em frente a uma mansão na capital paulista, onde na verdade funciona um bordel de luxo de Laura (Íriz Bruzzi) no qual a mãe do menino, Ana (Vera Fischer) trabalha. É ali, em meio às belas meretrizes, que ele vai começar a descobrir aos poucos sua sexualidade, seja pelo assédio das mulheres ou pelas cenas protagonizadas por elas e seus clientes ricos.


Não é pelo elenco de primeira classe da época, que contava ainda com Tarcísio Meira e Mauro Mendonça, que o filme hoje ainda tem destaque, mas sim por conta da aludida pornografia, e de uma única e rápida cena, em que a personagem de Xuxa, Tamara, uma das garotas do bordel, que será rifada entre os clientes, assedia e seduz o garoto Hugo, mas é interrompida por Ana, que a agride para proteger o filho. Demais talvez para a época, pois um ator mirim protagonizou cenas consideradas picantes, com alguma nudez. Hoje, em termos de sensualidade, há coisas mais fortes mesmo na popularizada televisão, como recentemente se viu no remake da telenovela "O astro".

Cartas na mesa. A fama posterior de Xuxa como apresentadora de programas infantis foi a mina de ouro dos executivos da indústria de entretenimento que tentavam a todo custo lucrar. O filme, cujo protagonista era Marcelo Ribeiro ao lado de um elenco de peso, passou a ser o "filme proibido da Xuxa", o "filme pornográfico da Xuxa". O próprio Ribeiro, em entrevista à Ilustrada (Folha de S. Paulo) em 2007, contou como sentiu na pele essa barbaridade sensacionalista feita para aproveitar a fama de Xuxa e como isso acabou sepultando precocemente sua carreira de ator. Contou, também, como a então atriz principiante teve sua imagem colocada entre os protagonistas como chamariz para o "consumo" do filme (clique aqui para ler a entrevista de Marcelo Ribeiro na Folha On Line).


Ainda há hoje quem se refira ao filme como "o filme de sacanagem" da Xuxa, dando um sentido injusto à película de Khouri. Só quem pode se referir a essa obra desse modo são pessoas desprovidas de um mínimo de conhecimento sobre a arte cinematográfica. Tarcisio Meira, Vera Fischer, Iris Bruzzi, Matilde Mastrangi, Walter Forster e Mauro Mendonça também participaram de "Amor, estranho amor" e chegaram, alguns deles, a protagonizar cenas bastante sensuais, mas nem por isso se diz que foram um dia atores pornôs (inclusive, Fischer e Mastrangi também fizeram cenas audaciosas com o garoto, mas não foram condenadas). Em nome do sensacionalismo barato e ridículo com vistas somente aos lucros, seu trabalho foi jogado na vala comum do lixo e ganhou uma pecha injusta de maldito. A depravação, de fato, estava - e ainda está - na cabeça de quem ainda caça o filme como uma raridade pornográfica.

Há que se esclarecer que existe uma linha que separa o erotismo e a pornografia. "Amor, estranho amor" é um drama brasileiro com erotismo. Pornografia à brasileira era o que se produzia na finada Boca do Lixo com atores e atrizes hoje esquecidos (ou igualmente finados). Erotismo envolve sentimentos, sensualidade discreta, sexo simulado como todo grande ator sabe fazer. Pornografia é escracho, sexo explícito, o famoso "fast fucking" em que os minutos de "ação" valem dinheiro. Algumas vezes o limite entre ambos é ultrapassado, mas isso faz parte de uma outra mentalidade que eventualmente desponta no meio cinematográfico de hoje (Lars von Trier, por exemplo, que usou uma cena de sexo explícito em "Anticristo"). Mas não é aqui o caso.

Marcelo Ribeiro era um ator adolescente. Como naquela época foi possível que ele fizesse cenas sensuais, é outra história. O problema foi criado quando se resolveu confundir convenientemente a personagem Tamara à atriz e apresentadora em ascensão Xuxa Meneghel (a partir de então, não foi a jovem prostituta quem molestou Hugo, foi Xuxa que molestou Marcelo Ribeiro, na visão distorcida dos sensacionalistas). Qual a melhor forma de se vender um produto que não colocar a "rainha dos baixinhos", ex-namorada do jogador Pelé e modelo, em "posições comprometedoras"? Essa foi a mentalidade doentia de quem iniciou essa má (e, repito mais uma vez, injusta) fama do filme. Naquela época, a única referência a Big Brother era o livro (e o filme) "1984", de George Orwell. Mas desde já se delineava uma indústria repulsiva que hoje é praticamente idolatrada por muitos. Quem juntou Tamara e Xuxa foi o pioneiro da baixaria hoje tão comum na cultura de massa.

Vera Fischer

Em momento algum quero defender Xuxa. Não é essa minha intenção, nunca foi. Creio que ela teve também sua parcela de culpa nesse episódio ao tentar combater da pior forma possível esse sensacionalismo criado em torno de sua participação no filme: retirando todas as cópias de circulação no mercado de video. Se fosse mais inteligente, em vez de mostrar que queria "renegar o passado", tentando esconder algo que passou a achar vergonhoso, deveria partir para a briga de frente com essa situação toda. Suas atitudes somente aumentaram o interesse distorcido pelo "filme maldito". Além do mais, acabou dando mais corda para os que veem seu sucesso como resultado de pactos demoníacos - apenas para citar, pois não pretendo nem agora nem nunca entrar nesse mérito.

Quando ela começou a fazer sucesso entre as crianças, eu já era adolescente. Assisti "Amor, estranho amor" com olhos de cinéfilo, não de pervertido sexual. E assim me mantenho até hoje. Se Xuxa fez filmes realmente pornográficos antes ou depois de "Amor, estranho amor", isso de fato não me faz diferença. Todos os personagens envolvidos nessa novela eterna deveriam ter mais respeito ao cinema nacional, essa é a verdade!

Em tempo: recomendo a leitura de um texto de Walter Hugo Khouri publicado em 1982 na Penthouse brasileira, a respeito do filme (clique aqui).


sábado, 31 de março de 2012

Gênio, sim; tarado, nunca!


Lá se vão 100 anos desde que Nelson Rodrigues chegou a este mundo para fazer a diferença na história do teatro brasileiro. Sua vida pessoal, marcada por tragédias (maravilhosamente retratada na biografia "O anjo pornográfico", de Ruy Castro, que eu recomendo), foi a inspiração para seus contos e principalmente suas peças. Lógico, não demorou para suas obras servirem como fonte de histórias para o cinema.

Nem todas foram bem sucedidas. Algumas, em vez de aproveitarem a essência da obra, ficaram centradas na exposição gratuita de nudez e perversões sexuais chocantes. Outras conseguiram ir além e tiveram desempenho à altura de Nelson Rodrigues. Nas primeiras, o dramaturgo era apenas um tarado. Nas demais, teve reconhecida sua genialidade.

A seguir, o melhor e o pior das adaptações de Nelson Rodrigues que eu já assisti. Difícil é não se identificar de alguma forma com as características psicológicas de seus personagens. Nelson é Nelson e será sempre único em sua área.

Bonitinha, mas ordinária (1963), de J. P. Carvalho
A história de Edgar (Jece Valadão), que recebe do patrão, o dr. Werneck (Fregolente), a proposta de casar-se com Maria Cecília (Lia Rossi), filha de família rica que é estuprada por cinco negros, teve um toque bem sutil nessa adaptação. Rapaz íntegro e com problemas financeiros, Edgar é procurado por Peixoto, outro empregado de Werneck, oferecendo-lhe, em nome do patrão, dinheiro para aceitar o casamento e salvar a honra de Maria Cecília. No entanto, fica dividido entre o matrimônio de fachada e o amor de Ritinha (Odete Lara, lindíssima), jovem que se prostitui para sustentar as três irmãs e a mãe louca. Não há nada explícito e a adaptação deixou um pouco de lado a linguagem teatral, algo que ficaria impregnado em várias adaptações de outras obras de Nelson. Vi no Canal Brasil e gostei muito.

Bonitinha, mas ordinária (1983), de Braz Chediak
Apesar de ter Lucélia Santos (Maria Cecília), José Wilker (Edgar), Vera Fischer (Ritinha) e Milton Moraes (Peixoto), essa segunda versão da peça deixou a desejar, apesar de, no mínimo, simpática. A cena do estupro da personagem pelos negros, que acabou se revelando uma armação da própria "vítima" para satisfazer uma tara, foi bem realista, mas hoje em dia há coisas muito mais cruas na própria televisão. Faltou uma adaptação melhor dos diálogos extremamente teatrais. Ainda assim, confesso que gostei.

A dama do lotação (1978), de Neville de Almeida
A felicidade do casal Carlos (Nuno Leal Maia) e Solange (Sônia Braga, no auge da beleza) acaba logo após o casamento, quando ele a possui a força na noite de núpcias. A partir de então, a mulher evita o marido mas, durante o dia, arranja parceiros sexuais durante suas viagens de ônibus. Nessa obsessão por sexo com estranhos acaba envolvendo até mesmo seu sogro (Jorge Dória). O resultado disso tudo é uma tragédia em família, bem ao gosto do dramaturgo. Essa talvez seja a melhor adaptação de um conto de Nelson Rodrigues, reunido na obra "A vida como ela é". Gostei demais!

Álbum de família (1981), de Braz Chediak
Uma família que se reúne para a tradicional foto de álbum é marcada por relações incestuosas e perversões. Senhorinha (Dina Sfat) tem paixão pelo filho caçula Nonô (Geraldo José), louco que corre nu pela fazenda. Ela também é desejada pelo filho Edmundo (Carlos Gregório), que por conta dessa paixão não consuma o casamento com a esposa. O marido de Senhorinha, Jonas (Rubens Correa), é apaixonado pela própria filha, Glória (Lucélia Santos), que o idolatra. Esta é amada pelo outro irmão Guilherme (Marcos Alvisi), o qual entra em um seminário para fugir à paixão incestuosa. No meio de tudo está a irmã de Senhorinha, Ruth (Wanda Lacerda), apaixonada pelo cunhado a ponto de levar-lhe adolescentes virgens para que ele as deflore, satisfazendo dessa forma o desejo pela própria filha. Toda essa confusão terá resultados trágicos. A adaptação acabou gerando um filme chato, com talentos desperdiçados e roteiro fraquíssimo. Este, sim, valia uma refilmagem.


O casamento (1975), de Arnaldo Jabor
Baseado em romance de Nelson Rodrigues, é uma das melhores adaptações da década de 1970. Conta a história do empreiteiro Sabino (Paulo Porto), apaixonado platonicamente pela própria filha, Glorinha (Adriana Pietro, lindíssima, que morreria naquele ano). A poucos dias do casamento de Glorinha, é avisado pelo médico Camarinha (Fregolente) que este havia flagrado o futuro genro do empreiteiro aos beijos com o enfermeiro Zé Honório (André Valli). A garota relembra fatos recentes, como seu envolvimento com o filho de Camarinha, Antônio Carlos (Érico Vidal), até o instante do casamento. Enquanto isso, Sabino envolve-se com sua secretária, Eudóxia (Mara Rúbia). 

Perdoa-me por me traíres (1980), de Braz Chediak
Outra peça de Nelson Rodrigues que trata de adultério, loucura, prostituição e aborto conseguiu uma boa adaptação (Chediak já havia feito outros filmes sem muito impacto). Glorinha (Lidia Brondi) é confrontada pelo tio Raul (Rubens Corrêa), irmão de seu pai Gilberto (Nuno Leal Maia), após ser descoberta saindo do prostíbulo de Madame Luba (Henriete Morineau), para onde havia sido levada pela colega de escola Nair (Zaira Zambelli). Nesse confronto, Raul acaba contando a história de Gilberto e Judite (Vera Fischer), mãe de Glorinha que havia cometido suicídio quando Glorinha era criança. Nessa retrospectiva são lembradas as traições de Judite, que acaba sendo perdoada pelo marido louco, e a paixão platônica de Raul pela cunhada. Mediano, mas interessante! Vale a pena.

Engraçadinha (1981), de Haroldo Lima Barbosa
Adaptado da primeira parte do romance "Asfalto Selvagem", de Nelson Rodrigues, é uma boa realização de Haroldo Lima Barbosa. Conta a história de Engraçadinha (Lucélia Santos) a partir de suas lembranças narradas a um padre logo após o enterro de seu pai suicida. Nessa retrospectiva, surgem fatos obscuros sobre sua relação com Sílvio (Luiz Fernando Guimarães), noivo de sua prima Letícia (Nina de Pádua), que por sua vez é apaixonada por Engraçadinha. Essa parte da história trata somente da juventude da personagem principal. A melhor exposição de todo o conjunto aconteceria anos depois, com a adaptação para a televisão.

Toda nudez será castigada (1973), de Arnaldo Jabor
Depois da morte da esposa, Herculano (Paulo Porto) entra em depressão. Por obra do cunhado Patrício (Paulo César Pereio), que está de olho em sua fortuna, o empresário conhece a prostituta Geni (Darlene Glória), mulher de bom coração e obcecada pelo medo de desenvolver câncer no seio. Ambos se apaixonam e se casam, mesmo com a oposição das tias de Herculano (as saudosas Henriqueta Brieba e Elza Gomes) e da outra prima (a também saudosa Isabel Ribeiro). Com o casamento, o filho de Herculano, Serginho (Paulo Sacks), fica revoltado, se embebeda e é preso. Na cadeia, é estuprado por um ladrão boliviano. Depois do fato e ao sair da cadeia, torna-se amante de Geni por imposição. Mas tudo não passa de uma armação do jovem para se vingar do pai pelo que ele acha ser desonra à memória da falecida mãe. Outra boa adaptação de Nelson Rodrigues, carregada de humor e com final trágico quase comum a todas as suas obras. Também vale rever sempre!




SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...