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quinta-feira, 13 de julho de 2023

DOCUMENTÁRIO: A superfantástica história do Balão Mágico (2023)


Eu tinha 9 anos quando a Turma do Balão Mágico surgiu. Não me tornei um fã. Gostava das músicas, assistia aos desenhos do programa de TV que foi criado na esteira do sucesso (que eu só conseguia nas férias escolares, pois sempre estudei no turno da manhã). Quando o grupo acabou, eu já não tinha interesse, mas ficou aquela memória afetiva.

Quarenta anos depois, relembrar a trajetória de Simony, Tob, Mike e Jairzinho emociona e impressiona, pois veio a visão do pioneirismo que o grupo trouxe para a cultura musical infantil brasileira nos anos 1980, coisa que até então não existia, limitado a desenhos animados encaixados nas programações das emissoras de televisão, sem existir interação. E assim, na esteira do sucesso musical, a Turma do Balão Mágico inovou.

A série documental "A superfantástica história do Balão Mágico", exibido desde 12 de julho pelo streaming Star+, resgata em três capítulos a gênese, a trajetória e o fim do grupo infantil que até hoje é relembrado pelos nostálgicos daquela época pelos sucessos musicais marcantes. Enquanto o reencontro trouxe lembranças emocionantes aos seus agora maduros quatro integrantes, também trouxe recordações duras.


Há fatos que eu conhecia e dos quais se falou nos anos seguintes ao fim do grupo - que ainda teve outros três integrantes após a saída gradual dos membros originais. Simony, já maior de idade, posou para a revista Playboy e foi ridiculamente criticada por uma parte do público que parecia se recusar a desvincular sua imagem à da garotinha talentosa que encantou a todos. Entre as novidades, para mim, em suas histórias, Tob (pseudônimo de Vimerson Canavillas) e Mike Biggs sofreram bullying nas escolas onde estudavam, provocado pela inveja de outras crianças. Jairzinho, cuja entrada no grupo trouxe um ar de diversidade, teve que enfrentar distorções de informação em sua carreira, quando espalhou-se que ele se recusava o primeiro nome no diminutivo como nome artístico para ser desvinculado do pai, o saudoso cantor Jair Rodrigues.

O documentário traz também histórias tristes, mas de superação. Uma das coisas que  mais me tocou foi justamente quanto ao destino de Tob, o primeiro a sair do grupo em 1984, quando já passava pela mudança de voz comum à puberdade. A lembrança que eu tinha daquele menino de voz linda e sorriso aberto não condizia com a de uma criança tímida, que evidencia traços de sua timidez até hoje. Mike "torrou" tudo o que ganhou com o pai Ronald Biggs, de quem cuidou até o fim da vida, mas ainda assim se recuperou com uma visão de vida otimista e atitudes positivas.

Depoimentos mostram como o grupo marcou a infância de artistas como Lázaro Ramos, por exemplo. Mas também revelam a frieza de quem participou da história e não reconhece até hoje que as quatro crianças foram terrivelmente exploradas, praticamente sem aproveitar da maneira certa aquela fase da vida, e que na sua inocência viam uma grande diversão naquele trabalho extenuante. 

Rever a história do Balão Mágico é um encanto que se justifica na fala de um dos depoentes: Simony, Tob, Mike e Jairzinho eram os irmãos que filhos únicos, ou caçulas como eu, cuja irmã mais próxima de idade já era uma adolescente, gostariam de ter.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

FILMES: Koyaanisqatsi (1982)


A primeira vez em que assisti "Koyaanisqatsi: uma vida fora de equilíbrio", de 1982, foi durante uma aula da disciplina "Expressão Oral e Escrita I", do segundo período do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas, em 1992, ministrada pelo saudoso professor Dalcyr Pereira Braga. Foi uma sensação inesquecível.

Até então, eu já tinha conhecimento sobre o documentário de Godfrey Reggio, graças aos guias lançados periodicamente pela editora Nova Cultural nas bancas, com relação de filmes lançados em VHS (que ainda era popular na época mas que logo iria começar a perder espaço para o DVD). Esse contato na faculdade foi um caso de amor à primeira vista.

"Koyaanisqatsi" - palavra que no dialeto do povo americano Hopi significa "vida fora de equilíbrio" - inovou o gênero documentário ao nos apresentar uma série de imagens aparentemente aleatórias, sem nenhum diálogo ou narração, costuradas pela trilha sonora excepcional criada por Godfrey Reggio que promove um elo perfeito entre imagem e som, como a própria música coreografasse as cenas, repletas de fast forwards, slow motions e fusões que atestam a grandiosidade da obra.




Começamos com desenhos e inscrições feitas pelo povo Hopi em pedras, passando pela natureza intocada e seu equilíbrio, sua beleza, até que surge a transição gradativa para a interferência humana, com máquinas trabalhando em extração de pedras, usinas nucleares, o ritmo intenso da vida urbana e as interações sociais, tudo isso em melodias que geralmente começam calmas e depois aceleram aos poucos, comprovando esse "balé" da vida humana.

Todas as imagens foram feitas no próprio território americano em meados da década de 1970, o que define a diferença entre "Koyaanisqatsi" e seus sucessores, "Powaqqatsi: a vida em transformação" (1988) - que abrangia os países do Hemisfério Sul e Ásia -, e "Naqoyqatsi" (2002) - onde se retrata o mundo digital e beligerante.

O grande mérito de "Koyaanisqatsi" é ser compreendido nos dias atuais como retrato de uma vida que pouco ou quase nada mudou em 40 anos, apesar das diferenças dos avanços tecnológicos ocorridos nesse interim. Não que o documentário seja datado, sendo este um adjetivo impensável para um documentário que revela aquele contexto temporal, mas sim reafirma nossa existência como um turbilhão de interferências que afetam a sociedade e a natureza como um todo, provocando sobretudo desequilíbrio em todas as suas formas, seja com nossa relação com a natureza, com o que ela nos oferece e como dela extraímos nosso modo de vida de forma predatória, seja com a relação entre nós, animais racionais que praticamente não agem dentro do conceito da racionalidade, destruindo e transformando em eternas apostas para sobrevivência - aqui há uma parte do documentário que coroa isso, ao abordar o projeto do complexo habitacional Pruitt-Igoe, um fiasco executado na cidade de Saint Louis, Estados Unidos, que resultou na demolição, em 1976, de vários edifícios de apartamentos numa área tomada pelo abandono e pela violência.

Quando revejo "Koyaanisqatsi", eu revivo aquela primeira sensação vivenciada na graduação. Começa com uma paz imensa, uma coisa bem naturalista, que aos poucos começa a acelerar até fazer você ofegar ou ficar tonto. Como disse na época nosso professor Dalcyr, "é um espelho", o qual até hoje nos oferece uma imagem crua do desequilíbrio presente em nossas vidas.


SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...