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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Bizarros e estúpidos

Há umas três semanas acabei me deparando com três vídeos compartilhados no Facebook com cenas chocantes. No primeiro, uma mulher jovem era cercada por uma multidão em uma tentativa de linchamento. Bastante machucada, ela teve fogo ateado a uma parte de seu tórax e caiu no chão, gemendo de dor. Como se não bastasse tamanha violência, um homem passou com um balde e jogou seu conteúdo sobre a jovem caída no chão, que instantaneamente explodiu em chamas, que ainda atingiram superficialmente algumas pessoas mais próximas. Era gasolina.

O segundo e terceiro vídeos mostraram torturas e mortes de animais. Em um, um cidadão segurava um gato siamês, imobilizando-o, enquanto outro atingiu o pobre animal com uma ferramenta pesada. O agressor ainda fez sinal de positivo com o polegar para a câmera enquanto o gatinho se contorcia, depois deu-lhe mais dois golpes que o mataram. No outro vídeo, aparentemente gravado escondido, um homem aproxima-se de um cachorro amarrado (provavelmente em seu quintal), agarra-o pela coleira e atira-o violentamente contra a parede. Enquanto o animal se contorce em agonia, o assassino apanha uma garrafa e a quebra contra a cabeça do cachorro, matando-o não sem antes causar-lhe terríveis sofrimentos.

Acabei sendo induzido a ver tais vídeos bárbaros pelas declarações de quem os compartilhou - e meu castigo foi ficar deprimido por vários dias. Um dizia apenas que a mulher havia torturado um cachorro com um maçarico até a morte e foi espancada por uma multidão revoltada – fatos que, descobri depois, não guardavam nenhum tipo de relação. Os outros dois vídeos seguiam o estilo “compartilhe para denunciar e achar o criminoso”. O grau de violência mostrado me levou a deixar de seguir as pessoas que o compartilhavam ou denunciar o vídeo – algo inútil, em várias situações.

As redes sociais deixaram de ser meio de relacionamento para adquirirem tons de barbaridade gratuita sem que muitas vezes as pessoas o percebam. A atitude de denunciar por fotos ou vídeos pode parecer nobre, mas esconde em diversos casos o desejo bizarro de popularidade virtual: “manda bem” quem tem mais “likes” e compartilhamentos. Pura tolice.

Quando se compartilha um vídeo de agressão (seja contra animais ou outros humanos), não há ajuda alguma – aquela conversa de “cada clique vale um real para ajudar” é conversa de desocupado. Quem quer ajudar, em vez de compartilhar nas redes sociais, entrega a a tal evidência às autoridades competentes, podendo, dentro de seu direito como cidadão, cobrar providências. Por outro lado, não checar a procedência de tais vídeos acaba tornando o internauta um grande otário, pois muitos desses vídeos e fotos são antigos (ou de casos já solucionados) e os fatos não são o que parecem. O compartilhamento acaba sendo inútil, um gasto estúpido de tempo, ou o fato revelador de que seu amigo virtual não passa de um tolo – tipo aquele que compartilha memes do tipo “se fosse putaria seria compartilhado” (ah, a maldita imposição sobre a consciência alheia!). Não se pode, ainda, comparar tais desejos de “denunciar” às campanhas que mostram animais ou pessoas feridos, em situação de risco social – nesses casos, a causa pode ser nobre, desde que comprovada sua veracidade, pois espertalhões proliferam também na web.

Aqui em Manaus, em 2014, houve uma situação semelhante. O cadáver de um homem, esquartejado, foi encontrado dentro de uma mala, nas margens do rio Negro, provavelmente um crime relacionado ao tráfico de drogas. Logo pipocaram vídeos compartilhados, principalmente via Whatsapp, mostrando a suposta tortura e morte do homem. Tudo foi conversa fiada. O tal vídeo, descobrimos quando eu ainda trabalhava em redação, era provavelmente a execução de uma pessoa na guerra do tráfico em algum país latino-americano que não o Brasil - era fácil ouvir as falar em espanhol.

Há também as famosas montagens, desvendadas apenas com um pouco de bom senso e exame detalhado – isso vale para fotos e vídeos. Fácil lembrar o caso da mulher que supostamente estaria apontando uma arma para um bebê, há uns dois ou três anos. Bastou um olhar mais detalhado para se perceber a farsa. No lugar do revólver, na verdade, havia um papagaio, e a jovem apenas mostrava para a criança segura em seu outro braço – alguém fez a alteração com alguma intenção sombria. O mal havia sido feito, mas não chegou perto da fatalidade da mulher apontada em um vídeo como sequestradora de crianças: uma inocente acabou sendo linchada, e a gravação de seu assassinato virou atração nas redes sociais.

Não se trata de ser politicamente correto, chato defensor dos bons costumes ou fiscal de etiqueta das redes sociais, e sim de usar o bom senso e tirar a cortina do ódio insano da frente dos olhos. Então, antes de compartilhar qualquer vídeo de violência ou mesmo de acusações contra uma pessoa, é bom checar a origem e a veracidade. Compartilhamento sem responsabilidade, além de ser uma estupidez, pode provocar cumplicidade em crimes.

Para finalizar, é justo eu colocar esclarecimentos sobre os vídeos citados no início do post. O caso da jovem linchada aconteceu na Guatemala, no ano passado. A mulher era filha de um traficante de drogas e estaria envolvida, com outras pessoas, no assassinato de um taxista. A população, revoltada, fez "justiça" com as próprias mãos, e nem a polícia conseguiu livrar a garota de um assassinato cruel - portanto, fato sem relação com a mulher que torturou e matou um animal usando um maçarico (ao que consta, tal crueldade aconteceu nas Filipinas ou algum outro país asiático). O vídeo do assassinato do gato siamês levou à captura do criminoso, um ex-presidiário no Acre, também no ano passado. Já o da morte do cãozinho... esse ainda não consegui descobrir a real procedência.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A web... ah, a web!!!!!!

Há pouco mais de um ano descobri o significado de “deep web”, o lado negro da internet, o espaço virtual onde se compartilha o que há de mais indigno, selvagem, bizarro, pervertido e cruel do ser humano na rede. São os sites de pedofilia, racismo, snuff movies, assassinato e todo o possível e impensável do comportamento humano. Observando as redes sociais, vi que a deep web está a um passo de deixar de existir ou de ser uma lenda urbana: para que esse conceito se esse lado obscuro está por todos os lados e a linha que separava o útil/fútil da perversidade está acessível a qualquer um agora?

Vejamos se estou errado: podemos começar sobre a banalização dos selfies. Recentemente, uma notícia compartilhada no Facebook indicava os selfies mais bizarros e inconvenientes já vistos nas redes sociais. Era gente fazendo selfie em velório, em locais de incêndio, em enterros... Quando não são os autorretratos, são as fotos de gosto duvidoso, como a garota fazendo poses em túmulos (até aí, poderia se dizer que era um trabalho artístico, uma digamos licença poética, não fossem os termos vulgares utilizados pela aspirante a modelo de filmes pornôs) ou aquela senhorita (qual mesmo o nome dela?) que tirou fotos nos locais arrasados pelo furacão Katrina em 2007.

Outro dia, no trabalho, comentei que esse excesso de selfies inconvenientes e fora de foco está se tornando babaquice. Claro que pelas costas devo ter sido chamado de reacionário, antipático, frustrado, mal amado, essas coisas. Foda-se quem vestiu a carapuça e não prestou atenção nas palavras “excesso”, “inconvenientes” e “fora de foco”. Claro, é legal registrar e compartilhar momentos com amigos, familiares, em baladas, viagens, roupas novas, com colegas de trabalho, ao lado de artistas que admira, em jantares, almoços e confraternizações. Faz bem à alma e ao ego. A merda começa quando o ego acaba sendo muito valorizado. Daí surgem os selfies “after sex”, as fotos em velórios (lembram-se do velório do então candidato à presidência da República, Eduardo Campos?), os registros durante a exibição de filmes no cinema (coisa que enterrou de vez minha paixão por esses lugares) e por aí vai.

O que tem isso a ver com a deep web? A falta de noção caracteriza o lado obscuro. A pessoa banaliza o egoísmo e o sofrimento alheio, deixa de ajudar alguém ferido para registrar o fato e compartilhar o mais rápido possível na busca de uma popularidade virtual que talvez não tenha na vida real a velha história de “quanto mais 'likes' e 'curtir', melhor”. Aí desaparece o limite do racional. E tudo começa com o excesso de selfies absurdos.

Aí chegamos à rede social como um todo. As ferramentas que em teoria deveriam ser úteis acabam criando verdadeiros idiotas no sentido de perderem sua individualidade e o contato com a realidade. O Facebook serve para compartilhar ideias, fotos, opiniões, desabafos, indiretas e piadas é uma imensa mesa de bar virtual, então não adianta torcer o nariz e chamar de “muro das lamentações”. Tem sua utilidade enquanto não é dominado pelo povo sem noção candidato a ingressar na deep web. Contra esse, existem as possibilidades de excluir e bloquear. O problema maior está na dependência criada de tal modo que tudo se transforma em verdade, não há desejo em se aprofundar na informação. 

Existe o atendimento a um anseio que uma simples frase ou uma foto montada se torna a Verdade, quando nas entrelinhas há a distorção. Exemplo recente é a fotografia compartilhada na qual uma mulher aponta uma arma na direção de uma bebê que carrega no colo. Qualquer olho astuto perceberia que se tratava de uma montagem quase perfeita. Na foto original, ela mostra para a criança um papagaio em sua outra mão. Na montagem, a ave foi substituída por um revólver. Bastou uma pesquisa para revelar a armação. Entretanto, a maioria dos internautas tomou aquilo como verdade e os compartilhamentos condenaram a vítima. Algo parecido e com resultado trágico aconteceu em Santa Catarina, quando uma mulher foi linchada sob acusação difundida no Facebook de que seria responsável pelo desaparecimento de crianças para rituais de bruxaria.

As redes sociais se tornaram júris morais. Então, na dúvida, melhor primeiro checar se o que está sendo divulgado é verdadeiro. Até os "três dias de luto por Marcos Archer", supostamente decretados pela presidente Dilma Rousseff, foram tomados como verdade, e no final das contas eram meros boatos. Todo cuidado é pouco.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

E o Instagram "facebookizou" pra valer

Por Marcos Hiller*

Nos primeiros dias de vida, o Instagram era apenas quatro funcionários, incluindo seus dois cofundadores, e que trabalhavam amontoados nos primeiros escritórios do Twitter no bairro de South Park de San Francisco. E o Instagram, mais uma start-up da Califórnia e que não tem receita, fez brilhar os olhos de Mark Zuckerberg, que desembolsou um bilhão de dólares no ano passado e está debruçado em saber como capitalizar em cima dessa fascinante rede social de fotos - assim como o Google, há alguns anos, comprou o YouTube e o transformou no segundo maior site de buscas do mundo. Por trás da aquisição do Instagram percebe-se uma visível intenção do Facebook em se tornar ainda mais forte nos dispositivos móveis e deixar promissores aplicativos longe das garras do Google.

O Instagram é uma criação concebida puramente para o universo mobile. Quem o usa entende o magnetismo que essa rede social gera. O conceito é simples e genial ao mesmo tempo, pois faz com que pessoas se comuniquem por meio de imagens. A psicologia cognitiva talvez nos ajude a entender o fascínio por essa rede social, pois ela prega que seres humanos gostam mais de imagens do que de textos. Por esse motivo que praticamente todas as marcas do mundo sempre adotam um símbolo ou um mascote para acentuar sua aproximação aos consumidores. O conceito é simples: o Instagram é fundamentalmente uma rede social concebida em torno da fotografia e disponibilizado apenas para uso em celulares (apenas para iPhone da Apple, e agora já disponível também para o “patinho nada feio” Android, o sistema operacional da Google), onde as pessoas adicionam belíssimos efeitos em suas fotos produzidas com a câmera do celular e compartilham com os amigos. O Instagram já tem dezenas de concorrentes, mas nenhum outro aplicativo teve uma ascensão tão rápida.

No entanto, o que alguns fãs do Instagram mais temiam aconteceu. Semanas atrás, ao inserir a possibilidade de se postar vídeos de 15 segundos, o Instagram começa a perder a sua originalidade e suas peculiaridades. Assim como falavam que o Facebook “orkutizou” depois que classes mais emergentes descobriram o site azul de rede social, evidenciamos que o Instagram inicia lentamente um processo de “Facebookização”.

Novas características são incorporadas a cada mês. Essa última mudança então foi muito significativa. Você está lá descendo com o dedo polegar a sua timeline do Instagram e olhando suas fotos, comentando, curtindo e, de repente, um vídeo começa a ser executado. Eu achei esquisito e até me assustei algumas vezes. Parecia que as fotos ganharam vida. Muito em breve podemos esperar games no Instagram? Ou a possibilidade de se cutucar o outro? Só o tempo nos dirá. Mas nada disso me surpreenderia. O que se espera é um processo de "moneitização" do aplicativo. Afinal, hoje ele não gera receita. E assim como fez no Facebook no ano passado, começando a cobrar para que posts ganhem alcance maior (hoje mais de 1 milhão de clientes injetam dinheiro no site de Mark Zuckerberg), é muito previsível que esse movimento neoliberal aconteça também no nosso saudoso Instagram. Aproveite enquanto ele (ainda) é grátis!

* Marcos Hiller é coordenador do MBA Marketing, Consumo e Mídia Online da Trevisan Escola de Negócios e autor do livro Branding: A Arte de Construir Marcas, da Trevisan Editora.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...