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domingo, 2 de setembro de 2012

Minha vida de repórter: os abusados e os arrogantes

De vez em quando, na vida de repórter, você dá de cara com alguém abusado, daqueles que gostam de perguntar "sabe com quem está falando?" ou se acham com o direito de meter o bedelho em assuntos fora de seu domínio. Encarei vários assim, mas em nome da boa relação tive que engolir "sapos".

Ainda no Jornal do Norte, já não tão foca, tive esse tipo de experiência com Nelson Ned, aquele cantor nanico que, para recuperar sua carreira decadente, virou evangélico e passou a renegar o passado de luxúria. Só se esqueceu de que arrogância também é pecado. Fui escalado para cobrir duas apresentações naquela noite de 1996, e uma delas era a desse cidadão. No entanto, comecei pelo outro show, programado para iniciar mais cedo. Acontece que demorou demais e, quando nossa equipe chegou ao Nostalgia Clube, no bairro Cachoeirinha, zona sul de Manaus, local de apresentação de Nelson Ned, ele já estava terminando seu falatório. O jeito era esperar. Quando acabou tudo e ele saiu do palco, fomos ao seu camarim para conversar. Cumprimentei-o educadamente. O objetivo da matéria, expliquei, era mostrar como o novo modo de vida havia modificado o cantor. Ele simplesmente, do seu metro e parcos centímetros de altura, somente me olhou e disse:

- Não vou falar nada. Contei tudo em minha apresentação.

Tentei argumentar, pedi desculpas pelo atraso por causa da pauta anterior, mas não teve jeito. Aquele boneco de ventríloquo afirmou que não iria repetir tudo e ponto final. Tive vontade de mandá-lo pegar toda aquela arrogância e socar naquele lugar onde o sol não bate, mas suspirei, chamei o fotógrafo e demos meia volta. Gastar meu verbo com esse tipo de gente? Não, obrigado. E o desgraçado ainda falou (eu não ouvi. O Rodrigo Pacheco Araújo, que acompanhou nossa equipe naquela noite, ouviu e me contou depois), quando cruzamos a porta do camarim:

- Que cara folgado!

Essa atitude arrogante mereceu uma nota de escracho na edição seguinte do jornal. Por onde anda esse sujeito hoje, não sei nem quero saber. Já não era grande coisa, sem trocadilhos, talvez agora não seja nada.

Outro caso de que me lembro aconteceu no jornal Amazonas em Tempo, por volta de 2001. O editor me passou uma pauta no bom estilo drama humano: um radialista (faz tempo, então esqueci seu nome) estava passando por necessidades, sem trabalho e doente, então fomos lá falar com o homem. Ele deveria ter uns 50 e poucos anos e sua pele era completamente amarela. Usava óculos escuros porque tinha fotofobia. Morava em uma casa inacabada de tijolos em um bairro da periferia de Manaus. Por causa da hepatite, seu fígado estava praticamente destruído. Não conseguia mais trabalho devido ao seu estado. Situação terrível, mesmo.

Escrevi a matéria, saiu no dia seguinte. Qual não foi minha surpresa ao receber uma ligação do referido cidadão. Reproduzo suas exatas palavras:

- Olha, César. A matéria ficou legal, mas se fosse paga, eu teria que pagar de novo, porque tu não colocou o número da minha conta para o pessoal depositar dinheiro.

Fiquei boquiaberto. Em nenhum momento da entrevista ele falou de conta, de campanha para ajuda nem nada disso. Ao espanto seguiu-se a irritação. Como no caso do Nelson Ned, por pouco não disse ao cidadão o que deveria fazer com a sua conta bancária. Ele teve que se contentar com o que havia sido publicado. A essa altura do campeonato, deve ter morrido.

E assim nossa vida nada fácil vai seguindo. Não foram os primeiros arrogantes e abusados a cruzarem os caminhos dos jornalistas, e provavelmente não serão os últimos. Haja paciência, então!

Minha vida de foca: os Mamonas Assassinas

Cobrir shows para o caderno Radar era uma das minhas pautas frequentes no Jornal do Norte. Em janeiro de 1996, lá fui eu cobrir o show dos Mamonas Assassinas no Studio 5. Eu não gostava do estilo do grupo, apesar das letras engraçadas e tolas. Continuo não gostando até hoje. Mas eles eram notícia, estouravam nas rádios, o sucesso era estrondoso e não havia como negar isso.

Esse trabalho de cobertura é legal, mesmo sendo de um estilo musical que não lhe agrada (mas depois de um tempo fica enfadonho, portanto deduzi que não era o tipo de pauta que me animava). Fui ao Studio 5 com a repórter fotográfica Ana Cláudia Jatahy. Gente saindo pelo ladrão, principalmente crianças, o público que os cinco rapazes do Mamonas Assassinas mais atraia. Entrevistei algumas, vi uma parte do show, observei o comportamento do público, a organização, a produção e a interatividade de Dinho e seus amigos com a plateia.

O show fora numa sexta-feira ou sábado, não lembro bem. No dia seguinte, fui ao jornal escrever a matéria. Não pude deixar de usar sarcasmo (contido, claro) para contar como fora a apresentação. Letras sem pé nem cabeça, tolas até, mas que encantavam aquela garotada. Fazer o quê? Pensando bem, ainda eram melhores que essas porcarias que fazem sucesso agora. Os Mamonas Assassinas faziam música para divertir. Não existe mais isso hoje.

O tempo passou. Quase dois meses depois, chego em um domingo para o plantão no jornal e a editora Tania Celidonio me recebe com a bomba: na noite anterior, o avião com os cinco integrantes dos Mamonas Assassinas caira na serra da Cantareira, em São Paulo, quando voltavam de sua apresentação em Brasília. Curioso como eu fizera a matéria do show e agora fora escalado para fazer um retrospecto da carreira meteórica do grupo até o acidente. E lá fui eu, com o amigo Ricardo Nixon, ouvir algumas pessoas para aquele velho feijão-com-arroz que se segue à morte de alguma celebridade e pesquisar toda a sua história. A novidade é que nós regionalizamos o impacto do desaparecimento prematuro dos jovens artistas, em vez de somente reproduzir matérias de agências.

Foi uma comoção muito grande. Em tom de brincadeira, muitos colegas falaram que eu estava sendo castigado por ter detonado (exagero, claro, pois nunca tive intenção de bancar o crítico) a apresentação do grupo (pior ainda foi o show de Maurício Mattar no mesmo Studio 5, que reuniu pouco mais de 20 mulheres, em um dos maiores fiascos que já testemunhei. Mesmo assim, o cara foi uma simpatia com aquele minúsculo fã-clube). O que importava, entretanto, era o encanto que aqueles cinco rapazes bobos levaram àquela geração. Vendo tanta porcaria que faz sucesso hoje, devo confessar que éramos felizes, mas não sabíamos. Aí é para lamentar realmente a perda daqueles jovens talentos.

domingo, 26 de agosto de 2012

Minha vida de foca: baixaria no Katikero

Era uma noite de domingo em 1996. Plantão no Jornal do Norte. Lembro que eram quase 21h e eu já estava de saída para casa quando o diretor de redação Hiel Levy me chamou. Confusão no bar Katikero, maior quebradeira, briga e blá-blá-blá. Fui à missão acompanhado do repórter fotográfico Alberto César Araújo.

O bar Katikero existe até hoje. Fica localizado na avenida Floriano Peixoto, Centro de Manaus, a poucos metros do cruzamento com a rua José Paranaguá, nas proximidades do antigo quartel da Polícia Militar. Não chega a ser um lugar mal frequentado: é um dos raros pontos de encontro ainda resistentes no Centro, reunindo trabalhadores daquela área para um happy hour, e até funciona como restaurante salvo engano.

Naquela noite em questão, ao nos aproximarmos, o cenário era bem diferente. Em vez de polícia, curiosos, mesas jogadas, garrafas quebradas e tudo o que possa lembrar um campo de batalha urbano, só havia um homem parado em frente ao bar. E este estava fechado. Não entendi mais nada, porém fomos até o cidadão e vimos que se tratava do Celso, na época editor executivo do Jornal do Norte.

Celso estava parado na calçada do Katikero, em pé. Aos seus pés, um pequeno maço de dinheiro - notas de R$ 10, R$ 5 e R$ 1, se bem me lembro. Ele havia ligado para a redação. O problema: depois de ter tomado uma ou duas cervejas, ele dera uma nota de R$ 50 para pagar. No entanto, o troco viera incompleto. Faltavam exatos 25 centavos!

Era isso. O circo estava armado por causa de 25 centavos que faltavam para completar o troco. Inacreditável que eu e Alberto estávamos ali por conta da birra do colega. Em vez de gente ferida, garrafas quebradas e todo tipo de dano que uma baderna em boteco pode gerar, estava o editor do jornal inconformado em não receber míseros 25 centavos de troco. Ainda fossem R$ 25, eu até entenderia. Mas vida de foca é uma desgraça: fosse hoje, eu daria ao chefe o tão choramingado dinheirinho para encerrar aquela papagaiada. O jeito era esperar para ver.

Mas a pauta idiota não foi nada. Pior foi a baixaria que se seguiu. O dono do bar morava no prédio onde funciona o Katikero (não sei se hoje ele ainda reside lá ou se permanece proprietário do boteco) e viu, lá de cima, a movimentação do cliente chato e da equipe de repórteres. Ele já desceu com 200 pedras na mão, esculhambando todo mundo. Eu fiquei de braços cruzados observando a cena. Sobrou para o Alberto, coitado. O cidadão, que tinha quase uns dois metros de altura, achou que o fotógrafo havia tirado fotos dele, agarrou-o pelos braços e o sacudiu, ameaçando-o caso fosse publicado algo, apesar de Alberto haver garantido não ter feito fotografia alguma. Foi um corre daqui e dali para acalmar o elemento, até a esposa dele se meteu para acalmar a besta fera. Enquanto isso, Celso somente dava um sorriso debochado. Satisfeito em ter irritado o cidadão, recolheu seu rico dinheirinho e foi embora. Voltamos para a redação, eu e o Alberto, fulos da vida, contamos o que havia acontecido e pronto. Muitas risadas, nada de matéria, nada de fotos, nada de nada. Plantão encerrado.

Nem preciso dizer que essa aventura frustrada foi a gozação da semana para mim e para o Alberto, que quase apanha por causa do falso alarme criado pelo nosso chefe maluco. Nunca havia sequer entrado no Katikero, mas depois daquela palhaçada toda nem fiz questão. Quanto ao Celso, algum tempo depois foi demitido ou pediu demissão do jornal, não lembro ao certo. Eu só pude dizer: "já vai tarde". E levou minha vontade de esganá-lo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Minha vida de foca: tiros no bairro São Jorge

Em uma conversa com um amigo virtual no Facebook, um estudante de Jornalismo, relembrei alguns momentos cômicos do meu início de carreira de redação, em 1995. Ele falava sobre a ansiedade, o receio de fazer a primeira matéria para veículo impresso (eu havia pedido sua ajuda com umas matérias para a revista para a qual escrevo) e a decepção de ter sido praticamente humilhado ao fazer um teste de trabalho e também a dificuldade de conseguir uma oportunidade para aprendizado no mercado.

Eu não tive essa dificuldade naquela época, felizmente. Tinha uma experiência iniciante na área de assessoria de imprensa, estava no quinto período da faculdade e uma amiga me convidou para fazer parte da equipe do Jornal do Norte, hoje extinto. Comecei como radioescuta e logo passei para repórter assim que pintou uma vaga no caderno Radar, de cultura e variedades. Era um foca perfeito, empolgado com o primeiro trabalho em redação, paralelo à faculdade (que acabei precisando trancar parcialmente, mas sem nenhum arrependimento hoje), querendo aprender muito.

Claro, apareceram os micos pelos quais os focas precisam passar. E foi assim que resgatei um episódio ocorrido por volta de 1996. Lembro que era um final de semana (creio que domingo) e eu estava no plantão no Jornal do Norte quando no início da noite houve uma ocorrência no bairro São Jorge, zona oeste de Manaus. Uns cidadãos estavam se embriagando e aconteceu uma discussão cujo ponto alto foi troca de tiros. Uma menina de uns 6 ou 7 anos acabou levando a pior: foi atingida por um tiro no rosto, que lhe entrou pela bochecha. Foi o estopim de uma revolta dos moradores locais, que começaram um quebra-quebra na casa dos encachaçados. Acho que a Mônica Santaella era a chefe de redação naquela época e me passou a bola. E lá fui eu cobrir a história. 

Era a primeira vez que eu ia cobrir algo mais significativo da área policial, mais que as rondas com prisão de bêbados desordeiros e ladrõezinhos. Chegamos ao local (não consigo lembrar quem era o fotógrafo que estava comigo, e nem o nome da rua) e a confusão estava armada. Estilhaços de vidro por todos os cantos, gente falando alto, mulheres histéricas, polícia tentando acalmar os ânimos... A garotinha ferida havia sido levada ao hospital. Fui atrás da história. Um morador me contou uma coisa, outro já aumentou mais a história, dizendo que a menina tinha morrido, e um me disse que os sujeitos eram traficantes.

Um senhor me chamou e apontou para um certo cidadão.

- Ele viu tudo, ele pode contar o que aconteceu!, disse, e depois chamou o fulano.

- Vem cá, conta pra imprensa!, pediu.

O cidadão só olhou para nós (estava visivelmente alterado) e disse:

- Quero que a imprensa vá se "fudê"!

Fiz ouvidos moucos. Só suspirei, irritado. "Caramba, será que ninguém pode me contar a história direito?". Foi então que fui cercado por uns dez moradores, falando ao mesmo tempo, querendo contar sua versão da história. Eu fiquei perdido no meio daquele povo, bloco e caneta na mão, tentando pegar as versões simultâneas de cada um, quase a ponto de explodir e mandar todo mundo calar a boca para botar ordem na baderna.

Foi então que soou o tiro. Um policial apareceu e atirou para o alto. A turma que me cercava praticamente evaporou. Fiquei sozinho, parado na rua do mesmo jeito que antes, o bloco cheio de anotações rabiscadas, nada assustado. Sério, nem susto peguei com o estampido. Muito pelo contrário: estava mais do que aliviado por ter me livrado daquela turba maluca. Qualquer coisa era melhor que várias pessoas falando ao mesmo tempo (e certamente um ou outro iriam inventar mais coisas para queimar mais ainda o filme dos acusados). Aí então, com a "paz" restabelecida, cheguei perto de um policial e obtive, finalmente, a tão esperada história dos bebuns que se estranharam e trocaram tiros, e uma bala perdida havia acertado a garotinha, já encaminhada e tratada no hospital. A polícia precisou intervir para que os vagabundos não fossem linchados pelos moradores revoltados.

Agradeci, chamei o fotógrafo e voltamos para a redação para escrever a matéria. Depois, eu só conseguia rir me lembrando da situação vexatória, com aquela turba enfurecida, cada um querendo dar sua versão da história, e eu me controlando para não perder a compostura com os histéricos. Coisas que parecem só acontecer na vida de um foca.

E esta é apenas a primeira história... Melhor que essa, só a dos cães do diabo. Mas fica para a próxima!

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...