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terça-feira, 19 de maio de 2015

Jornalistas, assessores e fontes: uma relação de amor e ódio

Há algumas semanas, a pedido da colega jornalista Sandra Bezerra, concedi-lhe um depoimento gravado (mesmo com reservas quanto a me expor, fiz esse sacrifício pela amizade e consideração com Sandra) no qual expus brevemente algumas opiniões e dicas sobre a fonte ideal para um jornalista e os critérios de seleção de releases para publicação no jornal impresso.

O assunto, a meu ver, é bem amplo, entretanto pelo tempo disponível (e pela minha intimidação por estar em frente a uma câmera) fui muito breve, mas creio que neste espaço posso me alongar e expressar minhas opiniões a respeito dessa área, com base em 20 anos de experiências em jornais e assessorias - ainda que em tempos alternados entre um e outro, mas o que vale é a primeira vez que se pisa em uma redação e/ou escritório de assessoria.

A relação entre jornalistas, fontes e suas assessorias é recheada de amor e ódio. Amor, por ser uma forma de se criar confiança entre as partes; ódio, pela incompreensão de como funciona esse processo onde se passam crivos até a publicação do material de interesse da fonte e, claro, do assessor que quer mostrar resultados. Desse arremedo de tapas e beijos surge a figura do entrevistado ideal - bem difícil, mas não impossível, de se encontrar.

Como eu disse a Sandra, o entrevistado ideal é pontual, tem domínio do assunto a ser exposto e tem uma relação cordial mesmo no caso de se sentir intimidado com algum questionamento. O jornal é um produto que tem prazos e cronogramas (os deadlines), portanto o jornalista não pode ficar à mercê do empresário, do governador, do prefeito, do parlamentar, do dono da loja de doces ou do sacerdote. Infelizmente, na maioria das vezes, é o que acontece. Pontualidade é uma virtude de poucos, e quando sua falta é recorrente, deduz-se que o entrevistado faz pouco caso do trabalho jornalístico. Na imprensa amazonense há casos frequentes, principalmente de certos políticos, e como existe o atrelamento de interesses entre a mídia e as autoridades, engole-se esse sapo. No entanto, a relação de cordialidade necessária deixa de existir, e tanto interfere na produção do jornalista quanto no seu respeito à fonte - quem vai negar que o atraso de duas horas do prefeito, sem justificativa plausível, tira todo o "apetite" pela notícia? Que atire a primeira pedra o jornalista que nunca praguejou contra o atrasadinho.

O domínio do assunto é fundamental porque uma fonte mal preparada e sem a relação cordial torna-se agressiva e até mesmo inconveniente. Ela está apenas disposta a mostrar o lado "Terra do Nunca" de suas atitudes, sem permitir questionamentos sobre o ponto cinzento no arco-íris. A sua defesa é partir para a arrogância e a intimidação. Há certos políticos e empresários (e eaté outros jornalistas) amazonenses famosos por seu "trato cavalar" com a imprensa: isso indica apenas ocultar a incompetência sob um manto de estupidez.

O outro ponto tratado com Sandra diz respeito aos materiais recebidos de assessorias de imprensa. Sem dúvida, são contribuições importantes, mas muitos assessores pensam que qualquer coisa - qualquer mesmo - pode virar notícia. Cada editoria deve ter seu método de triagem de releases, mas para a área na qual atualmente trabalho - Cidades -, a seleção tem base: a) na importância social do que está sendo divulgado; b) no interesse coletivo; c) na consistência das informações; e d) na possibilidade de surgir uma pauta mais ampla - não necessariamente nessa ordem.

Para que se compreenda melhor, entre um release informando que o prefeito de Manaus iniciou um plano de combate às ocupações irregulares de áreas de preservação ambiental e outro onde o governador participou de uma missa de formatura de uma universidade qualquer, o primeiro possui pelo menos três dos quatro critérios antes enumerados. O segundo não passa de um mero registro sem importância para minha área - afinal, no que pode interessar ao guardador de carros ou ao vendedor de bananas se o governador quebrou o protocolo em uma formatura? 

Entretanto, o assessor se submete ao assessorado, mas com alguma abertura - nem sempre possível -, ele pode evitar o desperdício de seu talento nessa massagem de ego. É daí que surgem aquelas famosas Grandes Manchetes do Jornalismo Brasileiro: a imprensa a serviço da inutilidade e a serviço da superficialidade. Amarras políticas e econômicas à parte, dá para se compreender essa dificuldade em produzir com qualidade. E cabe a nós, enquanto editores, tentar minimizar o impacto de tanta tolice.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Jornalistas ou reprodutores de asneiras?

Editar uma reportagem é mais do que arrumar as ideias e "limar" o texto para adequá-lo ao espaço disponível no veículo impresso: é um tremendo exercício de paciência, uma sujeição aos mais tenebrosos crimes contra a língua portuguesa e até mesmo contra a lógica. Escrever bobagens, frases sem sentido e erros monstruosos não é privilégio da nova geração de jornalistas. Pelo contrário, é um problema existente há muito tempo, reflexo da má formação cultural do profissional. No entanto, parece que é uma situação que cresce cada vez mais, a ponto de eu dizer, sem medo algum de errar, que de cada cinco jornalistas em início de carreira (já ultrapassada a fase do foca), no máximo dois irão se destacar - e isso é muito, garanto.

Em minha experiência como editor (e lá se vão mais de 10 anos), tive contato com tantas bizarrices que criei arquivos de pérolas para posteriormente chamar a atenção dos repórteres para as loucuras que produziam: erros constantes de gramática, vícios de linguagem, palavras usadas sem sentido, expressões sem qualquer nexo, termos pejorativos e assim por diante. Foi uma forma de auxiliar no aprendizado. Atualmente, essas bizarrices conseguem se superar, e o que é pior: por mais que se chame a atenção, elas continuam.

Outro dia, lendo um texto, deparei-me com a seguinte expressão: "...o ato foi publicado no Diário Municipal da União (DMU)". Foi o que bastou para acabar com um dia inteiro de trabalho. Fiquei por muito tempo tentando desvendar o que o repórter imaginou para escrever algo assim, mesmo porque a matéria dizia respeito a uma iniciativa do governo estadual - triplamente errada a expressão, portanto.

Refletindo sobre isso, veio-me à mente os conselhos que sempre dei aos meus repórteres: leia, questione e, na dúvida, pergunte, porque pior que parecer ignorante diante de uma fonte é mostrar a burrice aos colegas e aos leitores - sim, porque entre a fonte e o público leitor, o editor refina esse festival de sandices. Ao que parece, a nova geração de jornalistas - com suas exceções, é óbvio - está muito ligada ao imediatismo e à apatia das notícias instantâneas que viraram lugar comum. Esses novos profissionais não tentam obter conhecimento além do que assimilaram - e mal - nos bancos das faculdades. Ouvem asneiras de suas fontes e as repetem sem pestanejar, sem questionar, colocando seu entrevistado no status de "autoridade inquestionável no assunto". 

Bom, aí temos um problema. Se a fonte falou "Diário Municipal da União", certamente estava distraído, pensando em outra coisa que talvez tenha provocado essa confusão de definições - o tal DMU só poderia ser concebido em uma mente insana. Agora, o repórter reproduzir tal asneira é algo muito sério. Qualquer um sabe que existem os diários oficiais do Município (DOM), do Estado (DOE) e da União (DOU), portanto ver algo estranho como um DMU só pode causar indignação.

O que falta a esses jovens (e nem tão jovens) é conhecimento crítico. É o mínimo que se espera de quem lida com opinião pública - isso e o domínio da língua portuguesa. Não lhes pode bastar apenas ler, absorver superficialmente as palavras: é preciso saber analisar o que se lê, atentar para o formato e o conteúdo, transportar-se de leitor para redator (e vice-versa, após a produção do texto). Seguir fórmulas batidas e ultrapassadas é o refúgio da incompetência, da falta de talento disfarçada por um falso glamour que ainda viceja no mercado jornalístico.

Jornalista é - ou pelo menos deveria ser - formador de opinião, não bajulador, preguiçoso, de pouco conhecimento, alguém que vira arroz de festa. Não se pretende, claro, que o profissional hoje saiba recitar Marx, Engels, Camile Paglia, Nelson Rodrigues nem mesmo Clarice Lispector. Mas, repito, é inadmissível não ter conhecimentos indispensáveis a um jornalista realmente antenado com instituições e cotidianos. Não entendo, por exemplo, como há jornalistas que não sabem onde fica o vulcão Vesúvio, a história de Armero ou nunca tenham ouvido falar nas Diretas Já. Pesquisa não é o forte dessa nova "fornada", obviamente, e o leitor que tente descobrir os fatos que antecederam a situação reportada na edição do dia.

O jornalista tem o poder da palavra, o dom de transformar a declaração sem retirar-lhe o sentido, tornar mais claro o texto. Repetir meramente o que a fonte declarou, com todos os seus absurdos, é reproduzir asneiras, é mostrar que jornalismo nada mais é do que uma infame forma de contar histórias a bel prazer, sem nexo, sem investigação, sem interpretação. O mercado há muito deixou de ser sedutor, atraente. É para quem realmente tem vocação - e ela não está em apenas escrever "de acordo" e "ainda de acordo". O jornalista é, antes de tudo, um mágico das palavras. Portanto, sinto muito, mas mediocridade aqui não tem espaço.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Minha vida de editor: pérolas infames

O meu verdadeiro terror como editor, além de pegar um texto sem pé nem cabeça ou repleto de erros para ser reescrito, eram as pérolas. São frases escritas pelo repórter que soam absurdas e engraçadas, seja pelo uso de uma palavra "deslocada" ou de expressões trocadas.

Durante meus anos de redação como editor, deparei-me com várias dessas verdadeiras infâmias, até que chegou um tempo em que resolvi colecioná-las. Criei um arquivo e para ali copiei as pérolas da minha equipe. Foi uma forma de chamar a atenção do repórter e lhe dar um puxão de orelha para ter mais cuidado com o que escrevia. Funcionou, na maioria das vezes. E acabou virando nossa própria diversão (claro que eu não identifiquei os autores nem o farei agora, mas cada um sabia do seu lapso).

Um primeiro exemplo de abismar: uma repórter usou a expressão "tráfego de drogas". Veio-me à mente uma autoestrada em que as trouxinhas de cocaína disputavam espaço com cigarros de maconha e seringas de heroína, como se fosse um quadro bem surreal que deixaria Salvador Dali com inveja. Em outra situação a jornalista usou a expressão "o buraco tinha quatro metros de altura". Certo? Errado? Depende do ponto de vista. Creio que ela entrou no buraco, olhou para cima e calculou a altura. Mas, obviamente, tal coisa não aconteceu e foi pura falta de atenção na hora de escrever, e em vez de "profundidade", o termo usado foi "altura". Mais uma clássica: "a escada era alta a ponto de causar vestígios". Foi o fim da picada. Outro escreveu "o cidadão foi atingido por um soco no lado esquerdo do olho". Tétrico!!!! Como essas, havia dezenas de outras, mas infelizmente perdi meu arquivo quando estava no jornal O Estado do Amazonas, porém é possível sentir o drama pelo qual passei. Sem falar nos erros de sempre: "elo de ligação", "erário público" e por aí vai.

Quando não eram expressões erradas ou absurdas, eram situações aparentemente dramatizadas de forma proposital, mas que soavam ridículas. Citarei duas que são o "must" da falta de bom senso. No primeiro caso, o repórter escreveu uma matéria sobre um acidente sofrido por um motoqueiro, o qual trabalhava como entregador de pizzas. Em certa hora da noite, o entregador passava por uma determinada rua em Manaus quando surgiu em sua frente um cachorro (bom, aparentemente o animal se materializou diante do motoqueiro). O coitado do rapaz foi desviar e acabou perdendo o equilíbrio e se estatelando no chão, e as pizzas se espalharam pelo asfalto. Populares da área correram para acudir o rapaz. A história terminaria aí, não fosse o gran finale: "o cão ainda voltou ao local e comeu várias pizzas". Até hoje meu amigo Marcelo Brasil se emociona com tamanha pérola! Eu ficava em dúvida entre rir ou chorar.

O segundo caso conseguiu ser mais surreal ainda. Segundo o repórter, houve um acidente envolvendo um ônibus do antigo sistema Expresso, daqueles articulados enormes (a maioria transformados em cacarecos assustadores que ainda circulam). Em sua história, ele afirmou que o coletivo partiu-se em dois. Várias pessoas que estavam justamente no ponto articulado do veículo caíram e se machucaram bastante. E o resto? O jornalista escreveu que "a outra metade foi embora levando os demais passageiros". Difícil mentalizar tal disparate. Creio que o repórter havia assistido o filme "As incríveis peripécias do ônibus atômico", onde isso realmente acontecia. Mas ficção é ficção.

Para encerrar, um caso incrível que eu nunca havia visto antes. O repórter conseguiu um "furo", uma entrevista com um traficante de drogas chamado Keka, detido pela polícia. Seguem os trechos finais do pingue-pongue, como foram escritos, e que me assombram até hoje:

"Repórter - Mas conte para nós, Keka: quem mais está envolvido no tráfico de drogas em Manaus?

Keka - Vai te fuder, meu irmão. Quer que eu me ferre? Quer me prejudicar? Podem me matar por isso. Vai pra puta que te pariu!

Repórter - Não é isso, Keka. É que queremos ajudar na luta contra o flagelo das drogas"

Tenho ou não razão em dizer que é o mais puro terror para um editor?

domingo, 26 de agosto de 2012

Minha vida de repórter: pautas furadas

Se algum repórter disser que nunca pegou uma pauta furada ou ridícula, daquelas capazes de colocá-lo em uma situação constrangedora até, está mentindo. Acontece, e como! Na minha época de repórter do jornal Amazonas em Tempo, foi o que mais me ocorreu. Íamos atrás do ouro e voltávamos com ouro de tolo. Foram muitas furadas, mas três são dignas de serem lembradas.

Invasões
De vez em quando pipocavam invasões em Manaus, e lá íamos cobrir. Algumas rendiam um ótimo material, quando a área invadida era de preservação e havia conflitos. Em 2000, recebi uma pauta sobre um terreno invadido na estrada da Ponta Negra, onde hoje existe um posto de gasolina, nas proximidades do hipermercado DB. Chegamos ao local, eu e Danilo Mello, e estranhamos a calmaria. O terreno era cercado por um muro de tijolos, mas, fora um segurança na entrada, estava vazio. Será que fomos ao local errado? Perguntei ao segurança e a resposta foi: algumas pessoas haviam tentado realmente invadir, mas foram logo impedidos e não houve maiores conflitos. Gasolina e tempo perdidos.

A febre dos patinetes
Essa pauta começou comigo, passou para a Márcia Daniella e depois para a Patrícia Almeida. Nunca foi feita. Nosso editor havia dito que Manaus passava por uma verdadeira febre de patinetes, e por todos os lugares viam-se crianças usando o brinquedo. Esse foi o problema. Onde fomos, nunca víamos as tais crianças e os tais patinetes. Procurei até nos mais distantes recantos de Manaus, inclusive no perigoso Bariri, uma região não muito digna de visitas até hoje. Tempos depois chegamos a uma conclusão: a febre dos patinetes acontecia somente no condomínio do editor. 

Dia de Finados
Em 2002, meu editor me passou uma pauta até interessante, inspirada em uma matéria retirada da Agência Estado, sobre histórias curiosas a respeito do Dia de Finados - rituais diferentes e casos insólitos. Gostei da ideia e sai em campo. Pior foi aguentar o olhar dos funcionários das funerárias quando eu me identificava e explicava qual era a matéria. Ou ninguém entendeu o espírito da coisa ou Manaus não tinha histórias para contar. Passei por umas cinco funerárias, e em somente uma consegui um "causo": segundo a gerente, dois funcionários foram buscar o cadáver de um idoso em um hospital. Na hora de erguer o morto pelos braços e pelos pés, o corpo soltou gases, o que fez com que um dos trabalhadores tomasse um tremendo susto, largasse as pernas do cadáver e saísse em disparada do local. Quase morri de rir da história. No entanto, por tão pouca quantidade de informação, a matéria não foi escrita. Mais uma pauta furada para minha coleção.

Trabalho de repórter é isso aí!!!!




Minha vida de foca: baixaria no Katikero

Era uma noite de domingo em 1996. Plantão no Jornal do Norte. Lembro que eram quase 21h e eu já estava de saída para casa quando o diretor de redação Hiel Levy me chamou. Confusão no bar Katikero, maior quebradeira, briga e blá-blá-blá. Fui à missão acompanhado do repórter fotográfico Alberto César Araújo.

O bar Katikero existe até hoje. Fica localizado na avenida Floriano Peixoto, Centro de Manaus, a poucos metros do cruzamento com a rua José Paranaguá, nas proximidades do antigo quartel da Polícia Militar. Não chega a ser um lugar mal frequentado: é um dos raros pontos de encontro ainda resistentes no Centro, reunindo trabalhadores daquela área para um happy hour, e até funciona como restaurante salvo engano.

Naquela noite em questão, ao nos aproximarmos, o cenário era bem diferente. Em vez de polícia, curiosos, mesas jogadas, garrafas quebradas e tudo o que possa lembrar um campo de batalha urbano, só havia um homem parado em frente ao bar. E este estava fechado. Não entendi mais nada, porém fomos até o cidadão e vimos que se tratava do Celso, na época editor executivo do Jornal do Norte.

Celso estava parado na calçada do Katikero, em pé. Aos seus pés, um pequeno maço de dinheiro - notas de R$ 10, R$ 5 e R$ 1, se bem me lembro. Ele havia ligado para a redação. O problema: depois de ter tomado uma ou duas cervejas, ele dera uma nota de R$ 50 para pagar. No entanto, o troco viera incompleto. Faltavam exatos 25 centavos!

Era isso. O circo estava armado por causa de 25 centavos que faltavam para completar o troco. Inacreditável que eu e Alberto estávamos ali por conta da birra do colega. Em vez de gente ferida, garrafas quebradas e todo tipo de dano que uma baderna em boteco pode gerar, estava o editor do jornal inconformado em não receber míseros 25 centavos de troco. Ainda fossem R$ 25, eu até entenderia. Mas vida de foca é uma desgraça: fosse hoje, eu daria ao chefe o tão choramingado dinheirinho para encerrar aquela papagaiada. O jeito era esperar para ver.

Mas a pauta idiota não foi nada. Pior foi a baixaria que se seguiu. O dono do bar morava no prédio onde funciona o Katikero (não sei se hoje ele ainda reside lá ou se permanece proprietário do boteco) e viu, lá de cima, a movimentação do cliente chato e da equipe de repórteres. Ele já desceu com 200 pedras na mão, esculhambando todo mundo. Eu fiquei de braços cruzados observando a cena. Sobrou para o Alberto, coitado. O cidadão, que tinha quase uns dois metros de altura, achou que o fotógrafo havia tirado fotos dele, agarrou-o pelos braços e o sacudiu, ameaçando-o caso fosse publicado algo, apesar de Alberto haver garantido não ter feito fotografia alguma. Foi um corre daqui e dali para acalmar o elemento, até a esposa dele se meteu para acalmar a besta fera. Enquanto isso, Celso somente dava um sorriso debochado. Satisfeito em ter irritado o cidadão, recolheu seu rico dinheirinho e foi embora. Voltamos para a redação, eu e o Alberto, fulos da vida, contamos o que havia acontecido e pronto. Muitas risadas, nada de matéria, nada de fotos, nada de nada. Plantão encerrado.

Nem preciso dizer que essa aventura frustrada foi a gozação da semana para mim e para o Alberto, que quase apanha por causa do falso alarme criado pelo nosso chefe maluco. Nunca havia sequer entrado no Katikero, mas depois daquela palhaçada toda nem fiz questão. Quanto ao Celso, algum tempo depois foi demitido ou pediu demissão do jornal, não lembro ao certo. Eu só pude dizer: "já vai tarde". E levou minha vontade de esganá-lo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Minha vida de editor: dois malucões no Estadão

De 2004 a 2006 fui editor do caderno Manaus, no jornal O Estado do Amazonas, e junto com o subeditor Ricardo Nixon (depois substituido pela Graciene Siqueira e posteriormente pelo Paulo Ricardo "Gavião", que segurou o pepino enquanto eu largava tudo e seguia para outros projetos como assessor de imprensa da Agência de Fomento do Estado do Amazonas), comandava um grupo inicial de 12 repórteres, número que, logo após a primeira avaliação inicial, ficou em torno de sete ou oito jornalistas na editoria de Cidades.

Foi uma experiência muito bacana, pois ali começaram vários bons repórteres que continuam na ativa nas redações, como Mário Adolfo Filho, Diogo Mouco (que não é surdo) e Fabíola Pascarelli. Também houve momentos, por assim dizer, marcantes. Em duas ocasiões, tive que encarar dois malucos, pessoas que foram supostamente fazer denúncias e que, no final das contas, tinham de um a cinco parafusos soltos.

O primeiro caso foi clássico, em certo dia de 2005. Um cidadão chegou à redação querendo fazer uma denúncia, pois segundo ele sua ex-mulher estaria impedindo que visse a filha. Era o tipo do drama humano que poderia dar em uma matéria no mínimo interessante. Encaminhei-o para a Rubia Balbi, que havia chegado de uma pauta e era a única disponível, enquanto eu editava o trabalho do pessoal da manhã.

Passaram-se menos de cinco minutos e lá vem a Rubinha, furiosa (e a Rúbia sempre foi um amor, então para tirá-la do sério a coisa era muito, muito feia).

- César, não dá para entrevistar esse cara! Ele não responde!

E o cidadão, logo atrás:

- Essa repórter não sabe ouvir as pessoas!

Para botar panos quentes no estresse, me encarreguei de entrevistá-lo. Rubinha voltou para escrever a sua matéria e pedi que o rapaz - inclusive de boa estampa e relativamente bem vestido - contasse sua história.

Logo nos primeiros cinco minutos de conversa percebi que o camarada era, no mínimo, esquizofrênico. Contou-me que havia se separado da mulher, a qual fugira com sua filha, depois que ele entrara para uma igreja (acho que era a Universal, até). Ele afirmava que tentara por várias vezes ver a menina, àquela altura morando em Parintins. Mas quando ele disse que no caminho de Manaus para Parintins desembarcara em Barcelos, senti que havia algo de errado: qualquer um sabe que Parintins e Barcelos ficam em regiões opostas e nossa capital fica no meio, então sair daqui para ir a Parintins passando por Barcelos, só sendo um bumerangue ou completamente sem noção de geografia. Nem mesmo rota de barco ou avião aqui na região seria tão desconexa.

Mas o pior estava por ir. Ouvi pacientemente toda a história, até que do nada o rapaz me saiu com essa:

- Sabia que já fui no programa do Faustão me apresentar porque me acharam parecido com o Raul Seixas?

Eu nem sabia o que dizer. Acabei me limitando à espontânea pergunta "É mesmo, é?".

- Isso! E canto igualzinho a ele!

Antes que eu dissesse qualquer coisa, o cidadão levantou da cadeira e começou a cantar bem alto:

- "Eu nasci / há dez mil anos atrás / e não tem nada neste mundo que eu não saiba demais!".

Detalhe: cantando e dançando em plena redação. Fiquei sem reação. Do jeito que eu estava, olhando para a tela do meu computador, eu permaneci, totalmente constrangido e incapaz até de piscar, enquanto o elemento continuava com o show. Mas, ao meu lado, os colegas Emanuela Lago e Paulo Ricardo "Gavião" explodiram em gargalhadas histéricas, daquelas típicas de quem controlou o riso por um tempo quase interminável.

Para acabar com a doidice ali, interrompi os devaneios do rapaz, pedindo-lhe que acompanhasse o fotógrafo Reinaldo Okita para que fosse uma foto na área externa do jornal. Assim eu me livrei do malucão, escrevi uma materinha meia boca de tanta raiva e ainda tive que aturar a gozação dos colegas. Ossos do ofício.

O segundo caso de doidice aconteceu naquele mesmo ano. O então editor executivo do Estadão, Sebastião Reis, recebera a visita de uma senhora, em torno dos 50 anos, em sua sala. Dali a pouco, ele me chama.

- César, tem algum repórter aí?

Não havia. E lá fui eu com bloco e caneta nas mãos.

A dita senhora, de atitudes bem distintas, queria fazer uma denúncia contra o governo federal. Até aí, tudo bem, mas dali a pouco ela começou a falar coisas absolutamente estranhas: que o Lula e sua esposa estavam vindo ao Amazonas para afrontá-la, que ele a perseguia, que não-sei-quem vinha atormentá-la subindo pelo seu fluxo menstrual. Eu havia anotado só o nome dela, mas depois de ouvir tantos absurdos, fiquei com a caneta parada sobre o papel.

Olhei discretamente para o Reis, que também me olhou. Nenhum dos dois conseguiu dizer mais nada, até a mulher continuar com seus devaneios até o fim. Depois, Reis a dispensou, prometendo que iria analisar as informações. Nem precisou me dizer mais nada. Apenas trocamos aquele olhar de "é isso aí. Fazer o quê? Doida de pedra". 

E assim uma segunda pessoa doida marcou minha passagem pelo jornal O Estado do Amazonas. Mas em breve, de volta ao Amazonas em Tempo, teríamos a Tábata. Essa, a Michele Gouvêa vai gostar de relembrar! Fica para outro dia!

Minha vida de repórter: os cães do diabo

Foi em 1999. O Jornal do Norte havia fechado as portas alguns anos antes, mas eu já havia saído de lá no final de 1996, em uma das primeiras demissões em massa que marcaram a derrocada de um veículo que trouxera a proposta de inovar, mas que em razão da péssima administração, foi para o buraco. Eu estava somente trabalhando na assessoria de imprensa da Universidade Federal do Amazonas (onde fiquei até pedir exoneração em 2004) e eventualmente me metendo em algum projeto novo de jornais (até que parei, cansado de levar calote) e freelas, quando o meu amigo Ricardo Nixon me chamou para um teste como repórter de Cidades no jornal Amazonas em Tempo (a primeira de várias idas e vindas nesse jornal que marcou muito minha vida profissional).

O editor de Cidades era o jornalista Augusto Banega, meu amigo até hoje e que fez parte do time de profissionais que me fizeram crescer profissionalmente. E foi assim que cheguei ao Amazonas em Tempo para um teste. E já comecei pagando mais um mico. Já não era mais foca, era um repórter "praticante", por assim dizer.

A pauta não poderia ser mais bizarra: uma senhora no conjunto Dom Pedro II estava sendo denunciada pelos vizinhos por criar pelo menos uns 15 cachorros em sua residência. Nada contra quem ama os bichinhos (eu os adoro também), mas o problema apontado pela vizinhança era a falta de cuidados. Os animais não eram devidamente cuidados, o fedor e o barulho incomodavam demais. Foi minha primeira pauta no Amazonas em Tempo e a primeira de muitas em que fui acompanhado de um profissional que se tornaria um amigo de aventuras na profissão, o repórter fotográfico Danilo Mello.

Chegamos à tal casa, sob o sol das 15h. O imóvel fica na principal avenida do conjunto, próximo à superintendência da Polícia Federal. Bati palmas ao portão, os cães já começaram a fazer a balbúrdia infernal. Verdadeiros cães do diabo! A mulher veio: gorda, cara de barraqueira. Educadamente falei sobre a denúncia feita pelos vizinhos e que gostaria de conversar com ela a respeito.

- Aqui não tem cachorro nenhum, não! Não tem nada aqui! - ela começou a dizer, alterada, descendo as escadas e fazendo menção de abrir o portão menor de entrada, na verdade uma grade. No terreno, os cachorros latiam, mas não era possível vê-los distintamente por causa do portão da garagem. Talvez a mulher fosse mouca ou retardada, até hoje não sei, mas os animais estavam ali, latindo como loucos, e a dita cuja continuou repetindo aos gritos que não havia cães em sua casa.

Tentei argumentar com ela, mas não teve jeito. A criatura virou as costas e voltou para dentro da casa, xingando Deus e o mundo. Lembro que havia uma jovem com ela, talvez sua filha, irmã, amante... sei lá. A garota ficou meio constrangida com aquilo tudo.

Enquanto eu tentava conversar com a mulher, Danilo procurava tirar fotos dos cães do diabo pela fresta do portão da garagem. Sem sucesso. Apelei para a opção de falar com a vizinhança. Curiosamente, nas duas casas vizinhas de cada lado do canil improvisado não havia ninguém. Procurei uns cidadãos que estavam observando tudo de longe, em um boteco. Confirmaram os problemas que a vizinha e seus cães do diabo causavam. Até carrapato era encontrado nos genitais das pessoas! No entanto, não quiseram dar entrevista.

Como última opção, procuramos os vizinhos da rua de trás. Uma senhora falou algumas coisas, confirmando a história do incômodo causado pelo barulho e pela falta de higiene nos cuidados com os bichinhos. Mas não quis se identificar.

Resultado: voltamos para o jornal com uma captação pífia e sem fotos. Talvez o Danilo estivesse acostumado com essas furadas (ele estava ali, salvo engano, havia quase dois anos), mas eu fiquei aborrecido. O que escrevi só rendeu dois míseros parágrafos. Frustrado, achei que ia perder a vaga. Mas, de algum modo, Banega resolveu me contratar. Fui conversar com a então diretora, Menga Junqueira, e pronto! Estava contratado. Porém, a princípio, trabalhei como repórter do caderno Arte Final, editado pelo Aldísio Filgueiras, junto com a Tricia Cabral. E ali começou uma relação de amor e ódio com o jornal Amazonas em Tempo, que dura até hoje! Mas uma coisa é certa: ali foi onde cresci profissionalmente e fiz amigos de longa data. E aprendi que vida de repórter é sujeita a essas pautas furadas, mais dia ou menos dia.

E agora estou me lembrando dos entrevistados malucos do jornal O Estado do Amazonas. Mas fica para a próxima!

Minha vida de foca: tiros no bairro São Jorge

Em uma conversa com um amigo virtual no Facebook, um estudante de Jornalismo, relembrei alguns momentos cômicos do meu início de carreira de redação, em 1995. Ele falava sobre a ansiedade, o receio de fazer a primeira matéria para veículo impresso (eu havia pedido sua ajuda com umas matérias para a revista para a qual escrevo) e a decepção de ter sido praticamente humilhado ao fazer um teste de trabalho e também a dificuldade de conseguir uma oportunidade para aprendizado no mercado.

Eu não tive essa dificuldade naquela época, felizmente. Tinha uma experiência iniciante na área de assessoria de imprensa, estava no quinto período da faculdade e uma amiga me convidou para fazer parte da equipe do Jornal do Norte, hoje extinto. Comecei como radioescuta e logo passei para repórter assim que pintou uma vaga no caderno Radar, de cultura e variedades. Era um foca perfeito, empolgado com o primeiro trabalho em redação, paralelo à faculdade (que acabei precisando trancar parcialmente, mas sem nenhum arrependimento hoje), querendo aprender muito.

Claro, apareceram os micos pelos quais os focas precisam passar. E foi assim que resgatei um episódio ocorrido por volta de 1996. Lembro que era um final de semana (creio que domingo) e eu estava no plantão no Jornal do Norte quando no início da noite houve uma ocorrência no bairro São Jorge, zona oeste de Manaus. Uns cidadãos estavam se embriagando e aconteceu uma discussão cujo ponto alto foi troca de tiros. Uma menina de uns 6 ou 7 anos acabou levando a pior: foi atingida por um tiro no rosto, que lhe entrou pela bochecha. Foi o estopim de uma revolta dos moradores locais, que começaram um quebra-quebra na casa dos encachaçados. Acho que a Mônica Santaella era a chefe de redação naquela época e me passou a bola. E lá fui eu cobrir a história. 

Era a primeira vez que eu ia cobrir algo mais significativo da área policial, mais que as rondas com prisão de bêbados desordeiros e ladrõezinhos. Chegamos ao local (não consigo lembrar quem era o fotógrafo que estava comigo, e nem o nome da rua) e a confusão estava armada. Estilhaços de vidro por todos os cantos, gente falando alto, mulheres histéricas, polícia tentando acalmar os ânimos... A garotinha ferida havia sido levada ao hospital. Fui atrás da história. Um morador me contou uma coisa, outro já aumentou mais a história, dizendo que a menina tinha morrido, e um me disse que os sujeitos eram traficantes.

Um senhor me chamou e apontou para um certo cidadão.

- Ele viu tudo, ele pode contar o que aconteceu!, disse, e depois chamou o fulano.

- Vem cá, conta pra imprensa!, pediu.

O cidadão só olhou para nós (estava visivelmente alterado) e disse:

- Quero que a imprensa vá se "fudê"!

Fiz ouvidos moucos. Só suspirei, irritado. "Caramba, será que ninguém pode me contar a história direito?". Foi então que fui cercado por uns dez moradores, falando ao mesmo tempo, querendo contar sua versão da história. Eu fiquei perdido no meio daquele povo, bloco e caneta na mão, tentando pegar as versões simultâneas de cada um, quase a ponto de explodir e mandar todo mundo calar a boca para botar ordem na baderna.

Foi então que soou o tiro. Um policial apareceu e atirou para o alto. A turma que me cercava praticamente evaporou. Fiquei sozinho, parado na rua do mesmo jeito que antes, o bloco cheio de anotações rabiscadas, nada assustado. Sério, nem susto peguei com o estampido. Muito pelo contrário: estava mais do que aliviado por ter me livrado daquela turba maluca. Qualquer coisa era melhor que várias pessoas falando ao mesmo tempo (e certamente um ou outro iriam inventar mais coisas para queimar mais ainda o filme dos acusados). Aí então, com a "paz" restabelecida, cheguei perto de um policial e obtive, finalmente, a tão esperada história dos bebuns que se estranharam e trocaram tiros, e uma bala perdida havia acertado a garotinha, já encaminhada e tratada no hospital. A polícia precisou intervir para que os vagabundos não fossem linchados pelos moradores revoltados.

Agradeci, chamei o fotógrafo e voltamos para a redação para escrever a matéria. Depois, eu só conseguia rir me lembrando da situação vexatória, com aquela turba enfurecida, cada um querendo dar sua versão da história, e eu me controlando para não perder a compostura com os histéricos. Coisas que parecem só acontecer na vida de um foca.

E esta é apenas a primeira história... Melhor que essa, só a dos cães do diabo. Mas fica para a próxima!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A TV sem cores

Jornalista realiza palestra em Manaus e lança livro analisando a abordagem da homossexualidade na mídia brasileira

Por César Augusto

O jornalista Irineu Ramos fará no próximo dia 20 de outubro uma palestra com o tema “Intolerância e preconceito: a ausência do amor”, no Teatro Direcional, no Manauara Shopping, às 19h. Na explanação, Ramos aborda a questão da intolerância e do preconceito relativos à homossexualidade, englobando a origem desses sentimentos nas questões sexual, étnica e religiosa. Além desse aspecto, Ramos pretende mostrar como o mundo é possível além do preconceito, como superar esse sentimento e o encontro da felicidade dentro de cada um.

O tema abordado por Irineu Ramos faz parte de uma série de trabalhos acadêmicos que ele apresenta em congressos e simpósios nacionais pela Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual  (Cads), órgão vinculado à Secretaria de Participação e Parceria da Prefeitura de São Paulo, no qual desenvolve trabalhos de capacitação nas questões de gênero, sexualidade, mídia e educação com professores da rede pública. 

A programação da palestra inclui ainda o lançamento em Manaus do livro “A TV no Armário  - A Identidade Gay nos programas e telejornais brasileiros” (Edições GLS, 134 páginas, R$ 34,90), com tarde de autógrafos no dia 21 na Livraria Valer do Centro (rua Ramos Ferreira), e no dia 28 na Saraiva Mega Store (Manauara Shopping). A obra é resultado de dois anos de pesquisas de Irineu Ramos e observação de programas da televisão brasileira sobre a retratação da comunidade LGBT brasileira, geralmente pejorativa. A base para seu trabalho foi o pensamento de Michel Foucault e noções da teoria queer, mostrando que a televisão brasileira transmite valores negativos, depreciativos e caricatos quanto aos homossexuais.

Para obter material para sua pesquisa, Ramos selecionou alguns programas de entretenimento, uma novela e os telejornais. “O maior trabalho foi analisar cada quadro em que a figura do gay aparecia, a abordagem que era dada e o que representava tudo aquilo. Como utilizei como chave de leitura a teoria queer, esbanjei com análises baseadas em Michel Foucault, entre outros autores”, conta.

Uma das observações feitas pelo jornalista é que, a cada novela realizada, o tratamento dado aos homossexuais tem menor carga de preconceito. No entanto, os personagens continuam na periferia da trama principal. “O que significa que o autor pode tirá-los de cena a qualquer momento e o telespectador nem vai perceber. Isso é uma forma de diminuir a importância das sexualidades desviantes. O centro da trama de todas as novelas ainda é permeada pela heteronormatividade”, aponta. Para confirmar a observação de Irineu, basta lembrar que, por conta da reação preconceituosa do público brasileiro, o casal de lésbicas interpretado por Silvia Pfeiffer e Christiane Torloni na telenovela “Torre de Babel” (TV Globo, 1998-99) foi convenientemente rifado da trama morrendo em uma explosão em um shopping center.

A telenovela “Insensato Coração”, de Gilberto Braga, recentemente exibida pela TV Globo, foi marcada por um discurso claramente antihomofóbico ao mostrar a violência contra homossexuais.  Na opinião do jornalista, a emissora é a que mais se compromete com o combate à homofobia, mostrando-a  em seus telejornais.  “As novelas estão avançando, mas a sociedade continua lá atrás com valores morais que não levam a lugar nenhum. Mas esta sociedade é quem consome os produtos da TV”, afirma. Em termos de respeito às diferenças, a pior rede é a Record, conforme Ramos. “É quase criminoso o que fazem na programação para dominar o telespectador e fazer deles cordeirinhos”, observa.

Após os personagens de “Insensato Coração”, outros homossexuais retratados na televisão foram o caricato Áureo (André Gonçalves, de “Morde  & Assopra”, recentemente encerrada) e Crô (Marcelo Serrado, em “Fina Estampa”, atualmente no ar). “O Crô é o tipo do gay que o telespectador gosta. Caricato e dócil. Não oferece nenhuma ameaça à tradicional família brasileira e ainda a alegra com micagens. Eu acho que depois de Insensato Coração, que contou com seis personagens gays, a TV Globo teve que dar uma recuada em virtude da pressão de alguns segmentos conservadores da sociedade. Crô é o reflexo disso”, analisa Ramos.

“Já o Áureo  seguiu o padrão caricato mas, no penúltimo capítulo, ele não só abandonou a noiva no altar como fugiu com o vaqueiro machão Josué (Joaquim Lopes) e, ainda, pegou carona com o sargento Xavier (Anderson di Rizzi) e a ‘pirulitona’ (Élcio/Elaine, interpretado por Otaviano Costa), outro casal gay formado com base caricata”, explica o jornalista. “Achei fantástico este encaminhamento, pois o autor fez uma transversal queer copiando um 'Priscila, a rainha do deserto'. Achei que foi uma boa saida para um período de pressão conservadora da sociedade”, acrescenta.

Essa visão é inclusive difícil de comparar com a produção televisiva norte-americana, segundo Ramos, porque o processo de conquistas da comunidade gay é bem diferente lá e aqui. Para ele, nos Estados Unidos a questão da identidade gay é muito forte. “Lá os gays se vêem gays e se posicionam”. No Brasil, ao contrário, o forte não é a identidade, e sim o comportamento. “Aqui, no geral, é grande o número de pessoas que têm comportamento gay mas não se acham gays”, explica. Nos EUA, séries são protagonizadas por casais homossexuais, como na série "Os assumidos" (exibida no Brasil pelo canal pago Cinemax de 2000 a 2005), ou as relações amorosas são mostradas de forma bastante natural, como em "Grey´s Anatomy" (atualmente em exibição pelo canal Sony).

Deboche – Um dos personagens homossexuais mais comentados atualmente é a transexual Valéria, interpretada por Rodrigo Sant´Ana no humorístico “Zorra Total”, da TV Globo. Caracterizada pelo visual extravagante, o quadro – no qual Valéria sempre encontra a amiga ingênua Janete (Thalita Carauta) no metrô, sobre quem não perde a oportunidade de destilar veneno – ganhou sucesso e tempo maior de exibição, popularizando bordões como “Ai, como eu tô bandida” e “Só no cutuque”.

Para Irineu Ramos, Valéria é uma personagem que reproduz exatamente o que a sociedade imagina que seja uma travesti ou transexual: uma caricatura sem alma. “No cotidiano estas identidades são muito mais maltratadas pela sociedade que as vê sem alma, em comparação com os gays. Sem alma significa que elas não têm sentimentos e, portanto, passíveis de deboche e risada”, analisa. “As pessoas precisam aprender que ninguém escolhe ser travesti e que, atrás daquela alegria, tem alguém que precisa pagar o aluguel, estudar, ir ao médico, sustentar familia... Isso a sociedade ainda não enxerga”, acrescenta.

Direitos - Do ponto de vista de análise teórica, o Brasil ainda vai demorar um pouco para garantir direitos iguais aos brasileiros. “Os gays vão continuar com menos direitos que os demais cidadãos,  porque temos um Congresso de costas para a modernidade e o respeito de seus cidadãos, invadido por frentes religiosas com discursos atrasados. Temos uma Justiça injusta e uma sociedade com pouca informação e baixa educação. Colocando tudo isso no liquidificador dá isso que vemos na TV: perseguição aos gays, maus tratos e outros”, afirma Ramos. “Mas, sem dúvida a TV melhorou muito em todos os aspectos. A tendência é que acompanhe o avanço do mundo... numa velocidade menor”, acrescenta.

O autor - Formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos),  pós-graduado em História pela instituição e mestre em Comunicação pela Universidade Paulista (Unip), o  jornalista Irineu Ramos também é membro do Centro de Estudos e Pesquisa em Comportamento e Sexualidade (CEPCoS), organização não governamental ligada às questões de gênero e sexo, e integra ainda o Grupo de Estudos “Estética, Mídia e Homocultura” da Universidade de São Paulo (USP).

(Foto: Divulgação)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Jornalismo e língua portuguesa: uma relação de amor e ódio

Na semana passada, fui brindado no Twitter com o título de uma matéria de um jornal de Manaus que falava sobre “hipertenção”. Assim mesmo, com “ç”. Foi o suficiente para gerar críticas e sarcasmos. Foi uma pisada em falso, mas bem alarmante, bastando confirmar isso com a quantidade absurda de erros com os quais somos brindados. Vai da simples letra trocada em “hipertensão” ao singelo “há alguns dias atrás” ou “daqui há alguns anos”, passando pela bela separação de sujeito e predicado por vírgula (tipo “Fulano, depôs na delegacia e apresentou nova versão dos fatos”).

O que está por trás de tanto erro? Pressa, falta de pessoal para revisar, irresponsabilidade ou burrice, mesmo? Estou fora de redação há pouco mais de um ano. Enquanto lá estive, sempre tive cuidado também com essa parte, apesar de já ter dado um ou dois deslizes (garanto que foi por culpa do estresse no fechamento da edição, com notícias novas chegando, deadline estourando e coisas assim). Então, ainda não tenho a resposta para tamanha abominação. Fora dos jornais, acompanho os colegas repórteres que trabalharam comigo e fico satisfeito com seu progresso. Ainda bem que não são eles os autores desses atentados à ortografia e à gramática.

Não conheço os novos jornalistas das redações, nem seus hábitos de leitura ou estudos. Mas há um laço frouxo aí em algum canto que permite a repetição constante desses erros. O (teoricamente) formador de opinião precisa ser responsável tanto na apuração do fato quanto na sua escrita. Suas eventuais deficiências devem ser sanadas. Os revisores deixaram de existir? E os editores, qual sua função efetiva agora? E o maior responsável pelo produto apresentado diariamente nas ruas, o dono do jornal? Só contabiliza os números em se preocupar com a qualidade? É o que parece...

Ora, vamos parar com essa relação de amor e ódio com nossa língua portuguesa, curar essa Síndrome de Tiririca! Perguntar nunca foi demais. Pior é publicar uma aberração sem passar por um crivo seguro, e daí quem se orgulha de ser jornalista ainda não admite ser chamado de incompetente.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A dor e a delícia de ser jornalista...

Voltei, depois de um descanso nas ideias, festas de fim de ano e com as minhas férias do tribunal chegando ao fim. Nesse tempo, consegui um freela para a Revista PIM, para um anuário que será publicado no próximo mês. Quatro pautas interessantes me foram passadas na última terça-feira, 11. Até agora, não consegui fechar nenhuma matéria totalmente...
Em março farei um ano fora de uma redação de jornal, sem ter conseguido fazer um trabalho freela em 2010. Eu já havia esquecido como nós, jornalistas, temos uma dificuldade tão grande em obter informações quando o assunto é indústria e economia. Parece que há um medo inexplicável da fonte. Não dá realmente para entender.
Para exemplificar: uma das pautas é sobre responsabilidade social. Uma excelente fonte: Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam). Entrei em contato, pediram que eu enviasse as informações de que preciso por e-mail. Mais prático e mais ágil. Que engano... Não tive retorno até hoje, e o secretário da fonte apenas disse que também está aguardando as respostas para me passar. Essa foi a posição na última segunda-feira. Vamos ver qual vai ser a de hoje...
A maioria das empresas do Polo Industrial de Manaus possuem sua assessoria de imprensa fora do Estado. Por incrível que pareça, com poucas exceções, são esses colegas de além das nossas fronteiras que conseguem mais rápido facilitar o acesso às informações. Explico: há quase uma semana, também, aguardo retorno da Moto Honda, que tem assessoria local. E nada... Qual será a resposta de hoje? Sim, porque pedi da pessoa responsável um retorno, mas creio que meu e-mail provavelmente foi ignorado.
Mas, claro, há que se falar bem dos que deram retorno. Dou como exemplo o pessoal da assessoria da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), que sempre se preocupou em informar como estava o andamento da coleta das informações que pedi. Para eles, eu tiro o chapéu!
O e-mail é uma ferramenta importantissima para nosso trabalho, sobretudo por questões de tempo. Mas muitas empresas o ignoram. Das cinco companhias para as quais mandei, somente duas responderam. As demais... bom, creio que os responsáveis fiquem muito tempo fazendo coisas mais "importantes" na internet.
Quando eu era editor de Negócios e Serviços no Jornal do Commercio Amazonas, eu testemunhei a ira dos repórteres que ficavam dependendo dessas respostas, até mesmo passei por isso nas matérias que escrevi. Coisas da profissão... Mas, cada um sabe a dor e a delícia disso.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cinema, jornalismo e mitologia tupiniquim

Esta semana, a pedido de um amigo, respondi um questionário interessante para um trabalho de conclusão de curso a respeito de jornalismo e cinema, mais especificamente a visão cinematográfica do jornalismo e de seus profissionais. Questões respondidas com minha objetividade de sempre.

Tema muito interessante para uma monografia. Cinema foi sempre minha paixão, mais até que o jornalismo, que acabou sendo a segunda opção escolhida. A arte de contar histórias sempre me fascinou, em imagens então... Quando vi o tema que relaciona os dois assuntos, refleti sobre isso, e à exceção de "Íntimo e pessoal" e "A montanha dos Sete Abutres", os demais filmes que têm o jornalismo como pano de fundo mostram uma visão muito fantasiosa da profissão - embora que o filme protagonizado por Kirk Douglas, "A montanha...", tem um quê de alegórico exatamente para criticar o sensacionalismo da mídia de forma dura.

O jornalismo mostrado é sempre imparcial, movido pela busca da verdade acima de tudo em razão do compromisso social e blá, blá, blá... Quem trabalha ou trabalhou em redação de jornal sabe que o buraco é mais embaixo. A imparcialidade que existe é definida pelo ponto de vista do empresário que (e isso me aborrece pacas) se diz jornalista também. Imparcialidade, na visão empresarial, rima com capital, com grana, com acordo de cavalheiros, e por aí vai. Matérias de fundamental importância, que envolvem denúncias, muitas vezes são barradas por conta desses interesses. Aquela cooperativa de saúde fez merda e você quer denunciar? Tente, com alguma sorte 20% do material original é publicado - se o for, porque o grupo é anunciante do jornal, e jornal vive de anúncios, também. O governo está enganando o povo? Denuncie, mas se prepare. Aquela juiza está infernizando a vida de uma família? Vamos lá, capte a história, ouça todas as partes envolvidas, e ainda assim você vai ser acusado de querer favorecer "A" ou "B", então o melhor é não publicar nada.

Sobre essas imagens fake se moldam os "ídolos" do jornalismo brasileiro (preste atenção, "brasileiro", não  amazonense), endeusados com todas as pompas. Pelos bastidores de jornais se conhecem histórias de negociatas que beiram o absurdo, coisas que tornam a atividade uma fábrica movida pela extorsão.

E o profissional, então? Tem sempre aquele que pega (às vezes até por pedir) um "guaranazinho", uma gíria bem apropriada para a famosa propina, para não publicar tal e tal coisa. Ou o que faz ouvidos moucos por pura conveniência. Ou o que aproveita a pauta para pedir favores na cara dura. E a lista aumenta...

Cinema é fantasia demais. Quando é da indústria da cultura de massa, pior ainda. Para não ter raiva com tantos floreios, prefiro me recostar, assistir, refletir e, se for o caso, esquecer...

Isso não significa, no entanto, desânimo para os que começam agora ou labutam há tempos na atividade e são, reconhecidamente, profissionais de caráter e ética. Pena que podemos contá-los tão facilmente. Mas a verdade é isso aí, não o jornalismo made in Hollywood.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...