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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

SÉRIES: "The handmaid's tale" (2017)

Lançado em 1985, o livro "O conto da aia" (título original "The handmaid's tale"), de Margaret Atwood, é uma obra atemporal. Tanto o é que em 1990 foi adaptado para as telas (com Faye Dunaway, Natasha Richardson e Robert Duvall) e, este ano, ganhou uma versão em forma de série, lançada em abril passado pelo serviço de streaming Hulu, ainda indisponível para brasileiros. Mas a fama dessa nova adaptação chegou aqui primeiro, e por meio de downloads via torrent ou até mesmo em uma busca pelo YouTube e outros serviços de streaming, foi possível assistir uma das melhores séries já lançadas este ano.

O enredo de "The handmaid's tale" é apavorante: em um futuro incerto, as taxas de natalidade despencaram em todo o mundo, fato atribuído aos avanços tecnológicos e à depredação do meio ambiente. Nos Estados Unidos, instala-se uma teocracia totalitária e ultraconservadora, fazendo o país desaparecer para dar lugar à república de Gilead. Nela, revistas, celulares, televisores e outras modernidades deixaram de existir. Nesse mundo regresso, a doutrina cristã é imposta por meio do domínio sobre as mulheres, da perseguição a homossexuais ("traidores de gênero") e da institucionalização do estupro como forma de dar continuidade à espécie humana por meio das Aias - mulheres férteis que são recrutadas apenas com a finalidade de gerar filhos para seus senhores, com a conivência e a participação de suas esposas (teoricamente inférteis).

Nesse mundo pavoroso que remonta aos piores momentos da Idade Média, June (a excelente Elisabeth Moss, de "Mad men") é capturada ao tentar fugir para o Canadá com seu marido Luke (O. T. Fagbenle) e a filhinha de seis anos Hannah (Jordana Blake). A menina é levada e Luke é dado como assassinado pelo exército de Gilead. June perde seu nome e, após passar por um "treinamento" para se tornar Aia, transforma-se em Offred, pertencente ao comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) - daí o nome que faz referência à posse (De Fred) - e sua esposa Serena Joy (Yvonne Strahovski, de "Chuck"). Sob a ladainha diária de orações e o sexo forçado a cada mês na tentativa de gerar um filho para o casal Waterford, June/Offred conhece aos poucos a rotina das Aias, a opressão que passam nas mãos de seus "proprietários" e das Tias (as mulheres que recrutam e ensinam as Aias sobre suas novas "funções"),  e lida com o desespero da ausência de  de Hannah, levada para lugar incerto.
Alex Bledel (Emily) e Elisabeth Moss (June)
Na república de Gilead, os "traidores de gênero", os que resistem à nova ordem e os que cometem atos considerados como crimes na interpretação literal dos escritos bíblicos são executados (enforcados ou apedrejados) e tem seus cadáveres pendurados em vias públicas, quando não são mutilados - o que vale até mesmo para os próprios senhores de Gilead. Ao mesmo tempo em que testemunha esses horrores, June/Offred também toma conhecimento de um movimento clandestino de resistência, o May Day, por meio da Aia Emily/Ofglen (Alexis Bledel, em uma participação sensacional); reencontra sua melhor amiga Moira (Samira Wiley, a Poussey de "Orange is the new black"), também uma Aia; aproxima-se de Nick (Max Minghelia), motorista dos Waterford; e conhece também Rita (Amanda Brugel), uma Martha - como são chamadas as governantas dos comandantes - na casa dos Waterford. Tanto Moira quanto Emily são lésbicas, o que lhes expõe a mais perigos em Gilead.

"The handmaid's tale" tem, sim, um discurso feminista, mas, acima disso, é um alerta sobre a perda da dignidade humana diante de regimes totalitários que esmagam a liberdade individual e eliminam o livre arbítrio, mas não abrem mão de seus próprios "prazeres proibidos", tornando a nova república um verdadeiro regime de hipocrisia religiosa. Em seu cativeiro, June aos poucos começa a despertar e se utilizar de artimanhas arriscadas para tentar sair daquele mundo repressor irracional. Mas até aí ainda vai passar por situações constrangedoras e violentas nas mãos de Serena, da Tia Lydia (Ann Dowd) e dos Olhos (como são chamados os vigilantes de Gilead).

A primeira temporada teve dez episódios, nos quais flashbacks mostram o processo de extinção da república democrática dos Estados Unidos e as vidas dos personagens antes da mudança radical em seus destinos. A segunda terá três episódios a mais e deve estrear no primeiro semestre de 2018. Difícil vai ser controlar a ansiedade depois de tantas revelações e reviravoltas no season finale.

terça-feira, 5 de junho de 2012

SÉRIES: "A sete palmos" (Six feet under, 2001-2005)


A família Fisher: Claire, Nate, Ruth e David

Exibida de 2001 a 2005 na HBO, a série "A sete palmos" (Six Feet Under), criada pelo roteirista Alan Ball, para mim foi um marco até agora insuperável entre as séries dramáticas estrangeiras exibidas no Brasil. Em cinco temporadas, muito drama com doses de humor negro marcaram a saga da família Fisher, donos da Funerária Fisher & Sons. Ruth (Frances Conroy), a mãe, e os filhos David (Michael C. Hall), Nate (Peter Krause) e Claire (Lauren Ambrose), suas relações afetivas e amorosas complicadas a partir da morte do patriarca, Nathaniel (Richard Jenkins) em um acidente de trânsito me trouxeram uma visão bastante interessante sobre a efemeridade da vida e o impacto da morte. 

Keith e David Fisher
Logo no primeiro episódio, descobrimos que Ruth tinha um amante, e apesar da consciência pesada assume o romance após ficar viúva; David, o filho do meio, é homossexual e tem uma relação conflituosa com o policial Keith (Matthew St. Patrick) por ter medo de "sair do armário"; Nate, o filho mais velho, vai visitar a família justamente no dia do acidente fatal do pai e acaba aos poucos sendo pressionado para assumir os negócios com David; e Claire, a adolescente rebelde típica, vive à margem da família, envolvendo-se em relacionamentos com pessoas tão complicadas quanto ela, como o viciado em drogas Gabriel Dimas (Eric Balfour, do remake de "O massacre da serra elétrica"), o sexualmente indefinido Russell (Ben Foster) e até mesmo a avançadinha Edie (Mena Suvari), com quem ensaia uma relação lésbica. 

Nate e Brenda
 Entra ainda na história Brenda (Rachel Griffiths, premiada por sua atuação), que tem uma relação de idas e vindas com Nate e com o próprio irmão bipolar Billy (Jeremy Sisto) e os pais desajustados, Margareth (Joanna Cassidy) e Bernard (Robert Foxworth). Federico "Ricco" Diaz (Freddy Rodriguez) é o auxiliar da funerária que "maquia" os cadáveres e sempre tenta se colocar além do posto de empregado dos Fisher. Na segunda temporada, entra em cena Lisa (Lilly Taylor), ex-namorada de Nate, que mora em Seattle e acaba entrando na vida da família Fisher de forma marcante.

O interessante de "A sete palmos" é a originalidade: cada episódio tem uma morte no início, e o finado, na maioria das vezes, conversa com os personagens, aconselhando-os em seus conflitos. Nathaniel acompanha do além as peripécias da sua víuva e filhos, tendo diálogos reveladores com todos, sem perder o sarcasmo que passou a expressar indiscriminadamente após sua morte. Ao final de toda a história e conhecido o destino de cada um dos personagens, resta aquela sensação de que a vida vale muito a pena ser aproveitada ao máximo, pois o tempo é implacável.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A TV sem cores

Jornalista realiza palestra em Manaus e lança livro analisando a abordagem da homossexualidade na mídia brasileira

Por César Augusto

O jornalista Irineu Ramos fará no próximo dia 20 de outubro uma palestra com o tema “Intolerância e preconceito: a ausência do amor”, no Teatro Direcional, no Manauara Shopping, às 19h. Na explanação, Ramos aborda a questão da intolerância e do preconceito relativos à homossexualidade, englobando a origem desses sentimentos nas questões sexual, étnica e religiosa. Além desse aspecto, Ramos pretende mostrar como o mundo é possível além do preconceito, como superar esse sentimento e o encontro da felicidade dentro de cada um.

O tema abordado por Irineu Ramos faz parte de uma série de trabalhos acadêmicos que ele apresenta em congressos e simpósios nacionais pela Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual  (Cads), órgão vinculado à Secretaria de Participação e Parceria da Prefeitura de São Paulo, no qual desenvolve trabalhos de capacitação nas questões de gênero, sexualidade, mídia e educação com professores da rede pública. 

A programação da palestra inclui ainda o lançamento em Manaus do livro “A TV no Armário  - A Identidade Gay nos programas e telejornais brasileiros” (Edições GLS, 134 páginas, R$ 34,90), com tarde de autógrafos no dia 21 na Livraria Valer do Centro (rua Ramos Ferreira), e no dia 28 na Saraiva Mega Store (Manauara Shopping). A obra é resultado de dois anos de pesquisas de Irineu Ramos e observação de programas da televisão brasileira sobre a retratação da comunidade LGBT brasileira, geralmente pejorativa. A base para seu trabalho foi o pensamento de Michel Foucault e noções da teoria queer, mostrando que a televisão brasileira transmite valores negativos, depreciativos e caricatos quanto aos homossexuais.

Para obter material para sua pesquisa, Ramos selecionou alguns programas de entretenimento, uma novela e os telejornais. “O maior trabalho foi analisar cada quadro em que a figura do gay aparecia, a abordagem que era dada e o que representava tudo aquilo. Como utilizei como chave de leitura a teoria queer, esbanjei com análises baseadas em Michel Foucault, entre outros autores”, conta.

Uma das observações feitas pelo jornalista é que, a cada novela realizada, o tratamento dado aos homossexuais tem menor carga de preconceito. No entanto, os personagens continuam na periferia da trama principal. “O que significa que o autor pode tirá-los de cena a qualquer momento e o telespectador nem vai perceber. Isso é uma forma de diminuir a importância das sexualidades desviantes. O centro da trama de todas as novelas ainda é permeada pela heteronormatividade”, aponta. Para confirmar a observação de Irineu, basta lembrar que, por conta da reação preconceituosa do público brasileiro, o casal de lésbicas interpretado por Silvia Pfeiffer e Christiane Torloni na telenovela “Torre de Babel” (TV Globo, 1998-99) foi convenientemente rifado da trama morrendo em uma explosão em um shopping center.

A telenovela “Insensato Coração”, de Gilberto Braga, recentemente exibida pela TV Globo, foi marcada por um discurso claramente antihomofóbico ao mostrar a violência contra homossexuais.  Na opinião do jornalista, a emissora é a que mais se compromete com o combate à homofobia, mostrando-a  em seus telejornais.  “As novelas estão avançando, mas a sociedade continua lá atrás com valores morais que não levam a lugar nenhum. Mas esta sociedade é quem consome os produtos da TV”, afirma. Em termos de respeito às diferenças, a pior rede é a Record, conforme Ramos. “É quase criminoso o que fazem na programação para dominar o telespectador e fazer deles cordeirinhos”, observa.

Após os personagens de “Insensato Coração”, outros homossexuais retratados na televisão foram o caricato Áureo (André Gonçalves, de “Morde  & Assopra”, recentemente encerrada) e Crô (Marcelo Serrado, em “Fina Estampa”, atualmente no ar). “O Crô é o tipo do gay que o telespectador gosta. Caricato e dócil. Não oferece nenhuma ameaça à tradicional família brasileira e ainda a alegra com micagens. Eu acho que depois de Insensato Coração, que contou com seis personagens gays, a TV Globo teve que dar uma recuada em virtude da pressão de alguns segmentos conservadores da sociedade. Crô é o reflexo disso”, analisa Ramos.

“Já o Áureo  seguiu o padrão caricato mas, no penúltimo capítulo, ele não só abandonou a noiva no altar como fugiu com o vaqueiro machão Josué (Joaquim Lopes) e, ainda, pegou carona com o sargento Xavier (Anderson di Rizzi) e a ‘pirulitona’ (Élcio/Elaine, interpretado por Otaviano Costa), outro casal gay formado com base caricata”, explica o jornalista. “Achei fantástico este encaminhamento, pois o autor fez uma transversal queer copiando um 'Priscila, a rainha do deserto'. Achei que foi uma boa saida para um período de pressão conservadora da sociedade”, acrescenta.

Essa visão é inclusive difícil de comparar com a produção televisiva norte-americana, segundo Ramos, porque o processo de conquistas da comunidade gay é bem diferente lá e aqui. Para ele, nos Estados Unidos a questão da identidade gay é muito forte. “Lá os gays se vêem gays e se posicionam”. No Brasil, ao contrário, o forte não é a identidade, e sim o comportamento. “Aqui, no geral, é grande o número de pessoas que têm comportamento gay mas não se acham gays”, explica. Nos EUA, séries são protagonizadas por casais homossexuais, como na série "Os assumidos" (exibida no Brasil pelo canal pago Cinemax de 2000 a 2005), ou as relações amorosas são mostradas de forma bastante natural, como em "Grey´s Anatomy" (atualmente em exibição pelo canal Sony).

Deboche – Um dos personagens homossexuais mais comentados atualmente é a transexual Valéria, interpretada por Rodrigo Sant´Ana no humorístico “Zorra Total”, da TV Globo. Caracterizada pelo visual extravagante, o quadro – no qual Valéria sempre encontra a amiga ingênua Janete (Thalita Carauta) no metrô, sobre quem não perde a oportunidade de destilar veneno – ganhou sucesso e tempo maior de exibição, popularizando bordões como “Ai, como eu tô bandida” e “Só no cutuque”.

Para Irineu Ramos, Valéria é uma personagem que reproduz exatamente o que a sociedade imagina que seja uma travesti ou transexual: uma caricatura sem alma. “No cotidiano estas identidades são muito mais maltratadas pela sociedade que as vê sem alma, em comparação com os gays. Sem alma significa que elas não têm sentimentos e, portanto, passíveis de deboche e risada”, analisa. “As pessoas precisam aprender que ninguém escolhe ser travesti e que, atrás daquela alegria, tem alguém que precisa pagar o aluguel, estudar, ir ao médico, sustentar familia... Isso a sociedade ainda não enxerga”, acrescenta.

Direitos - Do ponto de vista de análise teórica, o Brasil ainda vai demorar um pouco para garantir direitos iguais aos brasileiros. “Os gays vão continuar com menos direitos que os demais cidadãos,  porque temos um Congresso de costas para a modernidade e o respeito de seus cidadãos, invadido por frentes religiosas com discursos atrasados. Temos uma Justiça injusta e uma sociedade com pouca informação e baixa educação. Colocando tudo isso no liquidificador dá isso que vemos na TV: perseguição aos gays, maus tratos e outros”, afirma Ramos. “Mas, sem dúvida a TV melhorou muito em todos os aspectos. A tendência é que acompanhe o avanço do mundo... numa velocidade menor”, acrescenta.

O autor - Formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos),  pós-graduado em História pela instituição e mestre em Comunicação pela Universidade Paulista (Unip), o  jornalista Irineu Ramos também é membro do Centro de Estudos e Pesquisa em Comportamento e Sexualidade (CEPCoS), organização não governamental ligada às questões de gênero e sexo, e integra ainda o Grupo de Estudos “Estética, Mídia e Homocultura” da Universidade de São Paulo (USP).

(Foto: Divulgação)

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...