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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

LIVROS: "O conto da Aia", de Margaret Atwood (The handmaid´s tale, 1985)


- CONTÉM SPOILERS SOBRE O LIVRO E A SÉRIE -
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É preciso, inicialmente, estabelecer um elo interessante entre o livro de Margaret Atwood e sua adaptação televisiva de 2017: um acaba complementando o outro, preenchendo lacunas e diminuindo a angústia que se pode sentir na história contada em primeira pessoa por Offred, único nome pelo qual a personagem é identificada na obra escrita. Assim, fica difícil até eleger o que é melhor: se o livro, que nos permite uma viagem intimista pelos pensamentos da Aia condenada à servidão e submissão, ou o filme, que revela os destinos sobre personagens apenas citados nas lembranças da jovem - seu  marido Luke e sua filhinha, de quem foi separada após sua tentativa frustrada de fuga para o Canadá, e a mãe -, sempre incertas sobre os rumos que tomaram após o desaparecimento dos Estados Unidos e a ascensão da república de Gilead.

Offred - cujo nome real não é revelado no livro, enquanto na série foi batizada como June (e no filme de 1990, como Kate) - começa a contar ao leitor seu dia a dia na convivência com o Comandante e a esposa Serena Joy, como Aia do casal. Em Gilead, estado teocrático, totalitário, militarizado em constante guerra, as Aias são mulheres férteis selecionadas (geralmente solteiras, feministas e amasiadas) e preparadas para o único papel de reprodutora, já que as taxas de natalidade caíram assustadoramente nesse futuro hipotético - resultado de radiação. Em uma reprodução patética literal de uma passagem bíblicas (em que a mulher de Jacó, Raquel, estéril, oferece sua criada ao marido para que ela pudesse conceber e assim lhes dar filhos "sobre seus joelhos"), elas participam de um ritual sexual bizarro no qual são estupradas pelo seu comandante sob o olhar da esposa, teoricamente infértil (o machismo de Gilead não admite a infertilidade masculina). E bizarrice não falta nesse novo mundo criado: há rituais para execuções de desafetos (os "salvamentos") e para o nascimento das crianças geradas pelas Aias, entre outros.

Assim, nessa aparente conversa com o leitor, a Aia vai mostrar sua rotina diária, interrompida aqui e ali pelas lembranças da sua vida com Luke, como se tornaram amantes e depois se casaram após o divórcio dele, a filha de ambos, as mudanças graduais que começaram a acontecer na sociedade e culminaram no extermínio do presidente americano e todo o congresso, resultando daí a república de Gilead, fundamentada na interpretação literal dos escritos bíblicos mas que ainda esconde uma fachada depravada (como bem o mostra a existência e o funcionamento do bordel Casa de Jezebel). Nessa nova ordem, revistas e leitura são proibidos a ponto de placas de estabelecimentos serem identificadas apenas por desenhos; nas novas castas surgidas, as Tias são responsáveis pela doutrinação e controle das aias, numa verdadeira lavagem cerebral que não raro usa a violência física e psicológica; e as Marthas são relegadas aos afazeres domésticos.

É nessa cumplicidade estabelecida como o leitor que reside a angústia de "O conto da Aia": Offred expõe seus sentimentos, seus conflitos e dúvidas. Como só temos contato com a realidade absurda e apavorante de Gilead através de seus relatos, compartilhamos de sua agonia em não saber o que houve com Luke, sua filha, sua mãe (personagem que não aparece na série, pelo menos na primeira temporada), sua amiga Moira e Ofglen, de quem se aproxima depois de uma certa desconfiança (afinal, Aias podem ser submissas ao extremo a Gilead, e mesmo cúmplices no controle autoritário de comportamentos e atitudes. Uma passagem em que as Aias são estimuladas a lincharem um homem - supostamente acusado de estupro e assassinato, em uma solenidade pública, prova bem isso). Em determinado momento, Offred imagina várias hipóteses sobre o destino de Luke: pode estar morto, pode ter conseguido atravessar a fronteira, pode estar aprisionado em algum lugar da nova república. Em outros episódios, ela se mostra insegura e até mesmo se julga conforme suas ações (como a aproximação súbita com o Comandante, da qual imagina poder tirar algum proveito). No filme, sabemos, Luke foi ferido na fuga, conseguiu sair do país e começa a busca por Offred; a filha de ambos, batizada de Hannah na adaptação, passou a ser criada em Gilead; e Moira conseguiu empreender uma fuga espetacular e reencontra Luke. Aqui cabe citar mais uma diferença entre livro e série: o marido de Offred é branco, assim como sua filha e Moira. Na adaptação, a mudança da etnia imprimiu um tom mais dramático e reflexivo à trama.

Quando se lê o livro e se assiste ao filme (ou vice versa), dá para sentir essa "complementação", o preenchimento das lacunas angustiantes na história de Offred. A forma brilhante como Margaret Atwood coloca as palavras da Aia no papel é genial dentro do retrocesso desse novo mundo, onde homossexuais, opositores e intelectuais representantes da "antiga ordem" - principalmente se forem mulheres - são eliminados e expostos no Muro, pendurados em ganchos e com as cabeças envoltas em sacos - uma ironia cruel, pois o local dos suplícios era, na era pré Gilead, uma universidade.

Para concluir, Margaret Atwood nos brinda com um epílogo que se passa em 2195, quando aparentemente a república de Gilead deixou de existir e todos os fatos ocorridos da sua ascensão até sua derrocada são objetos de estudo em uma convenção de pesquisadores em uma outra situação histórica, onde as gravações feitas por Offred (sim, no final das contas suas palavras eram realmente faladas, registradas em fitas) foram encontradas enterradas e fazem parte do material a ser analisado. Como prova a nossa própria História, Gilead e seu retrocesso moral, político e social passaram (ou ainda passarão?) e também ficaram (ficarão?) relegados a registros históricos a serem recuperados para compreensão do novo presente.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

SÉRIES: "The handmaid's tale" (2017)

Lançado em 1985, o livro "O conto da aia" (título original "The handmaid's tale"), de Margaret Atwood, é uma obra atemporal. Tanto o é que em 1990 foi adaptado para as telas (com Faye Dunaway, Natasha Richardson e Robert Duvall) e, este ano, ganhou uma versão em forma de série, lançada em abril passado pelo serviço de streaming Hulu, ainda indisponível para brasileiros. Mas a fama dessa nova adaptação chegou aqui primeiro, e por meio de downloads via torrent ou até mesmo em uma busca pelo YouTube e outros serviços de streaming, foi possível assistir uma das melhores séries já lançadas este ano.

O enredo de "The handmaid's tale" é apavorante: em um futuro incerto, as taxas de natalidade despencaram em todo o mundo, fato atribuído aos avanços tecnológicos e à depredação do meio ambiente. Nos Estados Unidos, instala-se uma teocracia totalitária e ultraconservadora, fazendo o país desaparecer para dar lugar à república de Gilead. Nela, revistas, celulares, televisores e outras modernidades deixaram de existir. Nesse mundo regresso, a doutrina cristã é imposta por meio do domínio sobre as mulheres, da perseguição a homossexuais ("traidores de gênero") e da institucionalização do estupro como forma de dar continuidade à espécie humana por meio das Aias - mulheres férteis que são recrutadas apenas com a finalidade de gerar filhos para seus senhores, com a conivência e a participação de suas esposas (teoricamente inférteis).

Nesse mundo pavoroso que remonta aos piores momentos da Idade Média, June (a excelente Elisabeth Moss, de "Mad men") é capturada ao tentar fugir para o Canadá com seu marido Luke (O. T. Fagbenle) e a filhinha de seis anos Hannah (Jordana Blake). A menina é levada e Luke é dado como assassinado pelo exército de Gilead. June perde seu nome e, após passar por um "treinamento" para se tornar Aia, transforma-se em Offred, pertencente ao comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) - daí o nome que faz referência à posse (De Fred) - e sua esposa Serena Joy (Yvonne Strahovski, de "Chuck"). Sob a ladainha diária de orações e o sexo forçado a cada mês na tentativa de gerar um filho para o casal Waterford, June/Offred conhece aos poucos a rotina das Aias, a opressão que passam nas mãos de seus "proprietários" e das Tias (as mulheres que recrutam e ensinam as Aias sobre suas novas "funções"),  e lida com o desespero da ausência de  de Hannah, levada para lugar incerto.
Alex Bledel (Emily) e Elisabeth Moss (June)
Na república de Gilead, os "traidores de gênero", os que resistem à nova ordem e os que cometem atos considerados como crimes na interpretação literal dos escritos bíblicos são executados (enforcados ou apedrejados) e tem seus cadáveres pendurados em vias públicas, quando não são mutilados - o que vale até mesmo para os próprios senhores de Gilead. Ao mesmo tempo em que testemunha esses horrores, June/Offred também toma conhecimento de um movimento clandestino de resistência, o May Day, por meio da Aia Emily/Ofglen (Alexis Bledel, em uma participação sensacional); reencontra sua melhor amiga Moira (Samira Wiley, a Poussey de "Orange is the new black"), também uma Aia; aproxima-se de Nick (Max Minghelia), motorista dos Waterford; e conhece também Rita (Amanda Brugel), uma Martha - como são chamadas as governantas dos comandantes - na casa dos Waterford. Tanto Moira quanto Emily são lésbicas, o que lhes expõe a mais perigos em Gilead.

"The handmaid's tale" tem, sim, um discurso feminista, mas, acima disso, é um alerta sobre a perda da dignidade humana diante de regimes totalitários que esmagam a liberdade individual e eliminam o livre arbítrio, mas não abrem mão de seus próprios "prazeres proibidos", tornando a nova república um verdadeiro regime de hipocrisia religiosa. Em seu cativeiro, June aos poucos começa a despertar e se utilizar de artimanhas arriscadas para tentar sair daquele mundo repressor irracional. Mas até aí ainda vai passar por situações constrangedoras e violentas nas mãos de Serena, da Tia Lydia (Ann Dowd) e dos Olhos (como são chamados os vigilantes de Gilead).

A primeira temporada teve dez episódios, nos quais flashbacks mostram o processo de extinção da república democrática dos Estados Unidos e as vidas dos personagens antes da mudança radical em seus destinos. A segunda terá três episódios a mais e deve estrear no primeiro semestre de 2018. Difícil vai ser controlar a ansiedade depois de tantas revelações e reviravoltas no season finale.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...