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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

In memoriam: Irving Wallace (1916-1990)



Conheci a literatura de Irving Wallace por volta de 1986, quando li seu mais recente livro (na época), “O sétimo segredo”, emprestado por um colega de classe no 1º grau (atual ensino fundamental). Em dois dias “devorei” o livro, e foi só o primeiro dele que me conquistou. Depois disso, seguiram-se “O milagre”, “O elixir da longa vida”, “Os sete minutos”, “O fã-clube” e “A sala vip” - uma pequena parte das 19 obras de ficção e outras dezenas de não ficção deixadas pelo escritor norte-americano, morto em 1990 por um câncer no pâncreas.

Hoje não vejo publicações de Irving Wallace reeditadas, o que é uma pena. A última que ainda vi foi uma edição de bolso de “Os sete minutos”. O restante você só acha em sebos. Uma lástima, já que Wallace é da época de ouro dos best sellers que marcaram a minha adolescência, ao lado de Harold Robbins e Sidney Sheldon, que terão posts futuros.
Wallace ia além do modelo óbvio dos best sellers, limitado a uma heroína, muito sexo, tramas diabólicas, reviravoltas constantes na trama, agilidade na narrativa (nada desabonador, já que best sellers se propõem a divertir na maioria das vezes). Em qualquer livro dele você acha temas atemporais, criativos, reflexivos e polêmicos. Se suas obras fossem relançadas com o mesmo fervor com que eram naqueles anos, tenho certeza de que iria repetir o sucesso daquela época. Irving bolava suas tramas com base em fatos e pesquisas, e sua narrativa nos fazia viajar para os lugares mais distantes. Em suas histórias, ele acabava por propor uma reflexão sobre as atitudes humanas frente à ciência, ao preconceito, à religião, à sexualidade e à censura. Como não admirar “O milagre”, uma história que polemiza o confronto entre religião e ciência? Ou “O fã-clube”, sobre os efeitos nefastos da sexualização das celebridades pela mídia? E sem falar na criatividade de “O sétimo segredo”, uma realidade alternativa onde o Terceiro Reich tenta se reerguer no mundo.
 
Em tempos de literatura fasciculada, rasteira e com tramas repetitivas, nesse ramo dos thrillers Wallace faz muita falta. A seguir relaciono os seis livros que li, com um pequeno resumo e minhas considerações.

“O sétimo segredo” (The seventh secret, 1985) – nessa trama interessante, Wallace parte da premissa de que o ditador nazista Adolf Hitler forjou o próprio suicídio e o da amante, Eva Braun, vindo a morrer de velhice e deixando a missão de recriar o Terceiro Reich nas mãos de Eva, agora chamada Evelyn Hoffman. Um historiador e escritor da biografia do Führer, professor Harrison Ashcroft, encontra, 40 anos após o final da Segunda Guerra Mundial, pistas sobre a verdade e acaba morrendo em um estranho acidente de trânsito em Berlim Ocidental. Sua filha, Emily, resolve continuar o trabalho do pai, mas acaba ficando na mira de um grupo neonazista que em segredo tenta dar continuidade ao Terceiro Reich de Hitler. Ao seu lado estão o arquiteto Rex Foster e uma agente do Mossad, o serviço secreto israelense, Tovah Levine. O livro é eletrizante e cheio de suspense e surpresas, o primeiro livro que li de Wallace e pelo qual ele me conquistou!

“Os sete minutos” (The seven minutes, 1969) - Na Califórnia dos anos 1960, o livreiro Ben Fremont o é preso acusado de vender o livro "Os sete minutos", considerado obsceno. Escrito por J J Jadway, um romancista obscuro, a obra revela os pensamentos de uma mulher durante os sete minutos de sua relação sexual. Uma batalha judicial tem início, com base na liberdade de expressão, mas a situação se complica quando uma jovem é morta após ser agredida e estuprada pelo namorado, supostamente sob influência do livro. O advogado Mike Barrett luta contra o tempo para livrar seu cliente da cadeia, e para isso vai investigar a vida de J J Jadway, descobrindo seus segredos e os usando a seu favor.  Outro best seller de Wallace, vibrante em suas passagens no tribunal e na excelente reviravolta nas últimas páginas. Essa obra foi um libelo pela liberdade de expressão, pornografia e contra a hipocrisia, com momentos sensacionais ambientados no tribunal. Foi adaptado para o cinema em 1971, com direção de Russ Meyer. Eu vi esse filme na Bandeirantes há muitos anos, e detestei por conta do final modificado e, por isso, absurdo.

“O milagre” (The miracle, 1984) - esse livro eu considero genial porque faz veladamente críticas à mídia e à manipulação religiosa, bem como abrange os conflitos entre ciência e religião. Na cidade de Lourdes, na França, é anunciada o terceiro segredo da freira Bernadette Soubirous: a aparição da Virgem Maria no santuário. Quando a notícia corre, o centro de peregrinação se torna o palco de uma trama de batalhas ideológicas, assassinatos e tramas políticas. Uma jornalista, Liz Finch, é encarregada de cobrir os eventos para a API, mas, inconformada com a superficialidade da pauta, sempre está à procura de alguma notícia de maior impacto, como denunciar a farsa do milagre. Na pequena cidade francesa, ela irá cruzar com diversos personagens em uma trama cujo pano de fundo é a nova aparição da Virgem Maria, mas recheada de intrigas políticas, conflitos entre fé e conhecimento, chantagens e mentiras, até o surpreendente final.

“O elixir da longa vida” (Pigeon project, 1979) - a trama abrange a busca da humanidade pela longevidade e o que se faria em nome dessa obsessão. Na Rússia, um cientista britânico descobre uma fórmula que pode levar o ser humano a viver pelo menos até os 180 anos. Sua descoberta, entretanto, é desejada pelas autoridades da então União Soviética, em plena Guerra Fria, enquanto o cientista quer compartilhar sua importante descoberta com todos os seres humanos, conflito que vai resultar em uma verdadeira perseguição que ultrapassa várias fronteiras na Europa, com traições, mentiras, fugas espetaculares e muita violência. Uma história sensacional que revela a face obscura do ser humano.

  “O fã-clube” (The fan club, 1974) - esse livro é talvez o mais violento e cruel de Wallace, entre todos os que li, e o que faz uma crítica ácida à espetacularização da vida das celebridades, mostrando suas consequências. Um grupo de homens funda um fã-clube para a atriz Sharon Fields, sempre mostrada como uma mulher sexy, provocante e em busca de aventuras sexuais. Obcecados, acabam sequestrando a mulher e a confinando em uma casa num lugar ermo. Entretanto, ao se revelarem para ela, conhecem a verdadeira Sharon, diferente da farsa midiática feita em torno de sua imagem. Temerosos de serem presos, resolvem mantê-la prisioneira e a submetem a todo tipo de violência sexual, enquanto seus amigos e agentes procuram descobrir seu paradeiro. Sem ter como escapar, Sharon vai encenar a falsa imagem de mulher sexy e sedutora para iniciar um jogo perigoso com seus algozes, a fim de conseguir se libertar.

“A sala VIP” (The golden room, 1989) - o último livro de Wallace que li. Gostei, mas não chegou a ser um dos meus preferidos. As irmãs Aida e Minna Everleigh são donas de um bordel de luxo em Chicago e lutam contra as investidas do prefeito da cidade para fechar o prostíbulo. O livro trata da batalha de ambas contra as ameaças do gestor e ainda precisam enfrentar duas situações: a chegada de seus sobrinhos, que desconhecem a atividade das tias; e o desaparecimento de várias das prostitutas da casa, vítimas de um assassino em série.

Fora "Os sete minutos", relançado em 2011 pela BestBolso, do grupo Record, os demais títulos não foram republicados, e hoje só são encontrados em sebos, como verdadeiras raridades - cheguei a ver um exemplar de "O milagre", muito bem conservado, sendo vendido por quase R$ 60 na Estante Virtual. Uma injustiça com um dos grandes escritores dos anos 1970-80. Mas há um fio de esperança, já que a editora Record relançou os títulos de Sidney Sheldon, aproveitando a produção literária de Tilly Bagschawe com a "marca" criada com o nome do escritor após sua morte - particularmente, achei um desastre, mas isso fica para outro post.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

SÉRIES: "The handmaid's tale" (2017)

Lançado em 1985, o livro "O conto da aia" (título original "The handmaid's tale"), de Margaret Atwood, é uma obra atemporal. Tanto o é que em 1990 foi adaptado para as telas (com Faye Dunaway, Natasha Richardson e Robert Duvall) e, este ano, ganhou uma versão em forma de série, lançada em abril passado pelo serviço de streaming Hulu, ainda indisponível para brasileiros. Mas a fama dessa nova adaptação chegou aqui primeiro, e por meio de downloads via torrent ou até mesmo em uma busca pelo YouTube e outros serviços de streaming, foi possível assistir uma das melhores séries já lançadas este ano.

O enredo de "The handmaid's tale" é apavorante: em um futuro incerto, as taxas de natalidade despencaram em todo o mundo, fato atribuído aos avanços tecnológicos e à depredação do meio ambiente. Nos Estados Unidos, instala-se uma teocracia totalitária e ultraconservadora, fazendo o país desaparecer para dar lugar à república de Gilead. Nela, revistas, celulares, televisores e outras modernidades deixaram de existir. Nesse mundo regresso, a doutrina cristã é imposta por meio do domínio sobre as mulheres, da perseguição a homossexuais ("traidores de gênero") e da institucionalização do estupro como forma de dar continuidade à espécie humana por meio das Aias - mulheres férteis que são recrutadas apenas com a finalidade de gerar filhos para seus senhores, com a conivência e a participação de suas esposas (teoricamente inférteis).

Nesse mundo pavoroso que remonta aos piores momentos da Idade Média, June (a excelente Elisabeth Moss, de "Mad men") é capturada ao tentar fugir para o Canadá com seu marido Luke (O. T. Fagbenle) e a filhinha de seis anos Hannah (Jordana Blake). A menina é levada e Luke é dado como assassinado pelo exército de Gilead. June perde seu nome e, após passar por um "treinamento" para se tornar Aia, transforma-se em Offred, pertencente ao comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes) - daí o nome que faz referência à posse (De Fred) - e sua esposa Serena Joy (Yvonne Strahovski, de "Chuck"). Sob a ladainha diária de orações e o sexo forçado a cada mês na tentativa de gerar um filho para o casal Waterford, June/Offred conhece aos poucos a rotina das Aias, a opressão que passam nas mãos de seus "proprietários" e das Tias (as mulheres que recrutam e ensinam as Aias sobre suas novas "funções"),  e lida com o desespero da ausência de  de Hannah, levada para lugar incerto.
Alex Bledel (Emily) e Elisabeth Moss (June)
Na república de Gilead, os "traidores de gênero", os que resistem à nova ordem e os que cometem atos considerados como crimes na interpretação literal dos escritos bíblicos são executados (enforcados ou apedrejados) e tem seus cadáveres pendurados em vias públicas, quando não são mutilados - o que vale até mesmo para os próprios senhores de Gilead. Ao mesmo tempo em que testemunha esses horrores, June/Offred também toma conhecimento de um movimento clandestino de resistência, o May Day, por meio da Aia Emily/Ofglen (Alexis Bledel, em uma participação sensacional); reencontra sua melhor amiga Moira (Samira Wiley, a Poussey de "Orange is the new black"), também uma Aia; aproxima-se de Nick (Max Minghelia), motorista dos Waterford; e conhece também Rita (Amanda Brugel), uma Martha - como são chamadas as governantas dos comandantes - na casa dos Waterford. Tanto Moira quanto Emily são lésbicas, o que lhes expõe a mais perigos em Gilead.

"The handmaid's tale" tem, sim, um discurso feminista, mas, acima disso, é um alerta sobre a perda da dignidade humana diante de regimes totalitários que esmagam a liberdade individual e eliminam o livre arbítrio, mas não abrem mão de seus próprios "prazeres proibidos", tornando a nova república um verdadeiro regime de hipocrisia religiosa. Em seu cativeiro, June aos poucos começa a despertar e se utilizar de artimanhas arriscadas para tentar sair daquele mundo repressor irracional. Mas até aí ainda vai passar por situações constrangedoras e violentas nas mãos de Serena, da Tia Lydia (Ann Dowd) e dos Olhos (como são chamados os vigilantes de Gilead).

A primeira temporada teve dez episódios, nos quais flashbacks mostram o processo de extinção da república democrática dos Estados Unidos e as vidas dos personagens antes da mudança radical em seus destinos. A segunda terá três episódios a mais e deve estrear no primeiro semestre de 2018. Difícil vai ser controlar a ansiedade depois de tantas revelações e reviravoltas no season finale.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...