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domingo, 2 de setembro de 2012

Minha vida de editor: um homem chamado Tábata

Em 2007, eu era editor do caderno de Cidades no Amazonas em Tempo e uma das minhas repórteres era a Michele Gouvêa, hoje chefe de reportagem do jornal. Nós dois passamos por um estresse que agora rende boas risadas, mas na época o negócio não foi nada engraçado.

Recebi uma ligação da portaria do jornal, avisando que uma pessoa chamada Tábata queria fazer uma denúncia. Michele foi escalada para captar a história. A surpresa foi que Tábata, na verdade, era o "nome de guerra" de um rapaz (vamos chamá-lo de Roberto) que estava denunciando atitudes preconceituosas contra sua pessoa em uma secretaria municipal, onde trabalhava. Ele(a) dizia que estava sendo perseguido(a) e ameaçado(a) de demissão por causa de sua orientação sexual. Coisa muito grave, mesmo!

Fizemos tudo como manda o figurino. A Márcia Daniella, que era assessora da secretaria denunciada naquela época, nos deu a resposta: Tábata era alvo de reclamações do público porque estaria tratando as pessoas com arrogância, e por isso lhe foi chamada a atenção diversas vezes, sem nenhum tipo de discriminação gerada por sua orientação sexual. Ouvidos os dois lados, Michele fez a matéria, editei e publiquei.

No dia em que a matéria saiu, Tábata/Roberto ligou e pediu para falar com Michele. Essa repórter é a coisa mais doce que já conheci, que nem a Rúbia Balbi nos tempos do Estadão, mas vi a garota "pirar o cabeção" e discutir com Tábata/Roberto. Ela me disse que a criatura havia reclamado da matéria, que queria fazer outra reportagem para ser manchete. Óbvio que isso não aconteceu.

Mas a coisa não parou por aí. Depois eu fui a bola da vez. Tábata/Roberto ligou e pediu para falar comigo.

- Olha, seu César. Estou ligando só para dizer que minha manchete vai sair no jornal A Crítica, porque o Amazonas em Tempo mentiu. E também estou querendo só te avisar que vou processar o jornal por causa dessa matéria. (só faltou dizer "quero que Deus ilumine cada canto dos teus 'caminhu'")

- Tudo bem, seu Roberto (eu não conseguia usar o nome "Tábata"). Faça o que achar que lhe é de direito - eu respondi, praticamente mastigando meus próprios dentes.

Dito isso, bati o telefone, fulo da vida. Praguejei até não aguentar mais. Michele veio ver o que acontecia e contei do abuso. Como havíamos constatado, tal pessoa não tinha o juizo perfeito.

Claro que ele(a) nunca processou o jornal. Acho até que nem o jornal A Crítica publicou alguma coisa. Eu lembro que liguei para lá e falei com alguém (acho que o Paulo André Nunes ou o Saulo Borges), avisando o que acontecera, para preveni-los caso Tábata/Roberto realmente os procurasse para atacar o jornal  Hoje o episódio só é lembrado quando eu encontro a Michele e apenas digo isso:

- Quem quer falar contigo é a Tábata!

Vamos rir para não chorar!


Minha vida de repórter: os abusados e os arrogantes

De vez em quando, na vida de repórter, você dá de cara com alguém abusado, daqueles que gostam de perguntar "sabe com quem está falando?" ou se acham com o direito de meter o bedelho em assuntos fora de seu domínio. Encarei vários assim, mas em nome da boa relação tive que engolir "sapos".

Ainda no Jornal do Norte, já não tão foca, tive esse tipo de experiência com Nelson Ned, aquele cantor nanico que, para recuperar sua carreira decadente, virou evangélico e passou a renegar o passado de luxúria. Só se esqueceu de que arrogância também é pecado. Fui escalado para cobrir duas apresentações naquela noite de 1996, e uma delas era a desse cidadão. No entanto, comecei pelo outro show, programado para iniciar mais cedo. Acontece que demorou demais e, quando nossa equipe chegou ao Nostalgia Clube, no bairro Cachoeirinha, zona sul de Manaus, local de apresentação de Nelson Ned, ele já estava terminando seu falatório. O jeito era esperar. Quando acabou tudo e ele saiu do palco, fomos ao seu camarim para conversar. Cumprimentei-o educadamente. O objetivo da matéria, expliquei, era mostrar como o novo modo de vida havia modificado o cantor. Ele simplesmente, do seu metro e parcos centímetros de altura, somente me olhou e disse:

- Não vou falar nada. Contei tudo em minha apresentação.

Tentei argumentar, pedi desculpas pelo atraso por causa da pauta anterior, mas não teve jeito. Aquele boneco de ventríloquo afirmou que não iria repetir tudo e ponto final. Tive vontade de mandá-lo pegar toda aquela arrogância e socar naquele lugar onde o sol não bate, mas suspirei, chamei o fotógrafo e demos meia volta. Gastar meu verbo com esse tipo de gente? Não, obrigado. E o desgraçado ainda falou (eu não ouvi. O Rodrigo Pacheco Araújo, que acompanhou nossa equipe naquela noite, ouviu e me contou depois), quando cruzamos a porta do camarim:

- Que cara folgado!

Essa atitude arrogante mereceu uma nota de escracho na edição seguinte do jornal. Por onde anda esse sujeito hoje, não sei nem quero saber. Já não era grande coisa, sem trocadilhos, talvez agora não seja nada.

Outro caso de que me lembro aconteceu no jornal Amazonas em Tempo, por volta de 2001. O editor me passou uma pauta no bom estilo drama humano: um radialista (faz tempo, então esqueci seu nome) estava passando por necessidades, sem trabalho e doente, então fomos lá falar com o homem. Ele deveria ter uns 50 e poucos anos e sua pele era completamente amarela. Usava óculos escuros porque tinha fotofobia. Morava em uma casa inacabada de tijolos em um bairro da periferia de Manaus. Por causa da hepatite, seu fígado estava praticamente destruído. Não conseguia mais trabalho devido ao seu estado. Situação terrível, mesmo.

Escrevi a matéria, saiu no dia seguinte. Qual não foi minha surpresa ao receber uma ligação do referido cidadão. Reproduzo suas exatas palavras:

- Olha, César. A matéria ficou legal, mas se fosse paga, eu teria que pagar de novo, porque tu não colocou o número da minha conta para o pessoal depositar dinheiro.

Fiquei boquiaberto. Em nenhum momento da entrevista ele falou de conta, de campanha para ajuda nem nada disso. Ao espanto seguiu-se a irritação. Como no caso do Nelson Ned, por pouco não disse ao cidadão o que deveria fazer com a sua conta bancária. Ele teve que se contentar com o que havia sido publicado. A essa altura do campeonato, deve ter morrido.

E assim nossa vida nada fácil vai seguindo. Não foram os primeiros arrogantes e abusados a cruzarem os caminhos dos jornalistas, e provavelmente não serão os últimos. Haja paciência, então!

Minha vida de foca: os Mamonas Assassinas

Cobrir shows para o caderno Radar era uma das minhas pautas frequentes no Jornal do Norte. Em janeiro de 1996, lá fui eu cobrir o show dos Mamonas Assassinas no Studio 5. Eu não gostava do estilo do grupo, apesar das letras engraçadas e tolas. Continuo não gostando até hoje. Mas eles eram notícia, estouravam nas rádios, o sucesso era estrondoso e não havia como negar isso.

Esse trabalho de cobertura é legal, mesmo sendo de um estilo musical que não lhe agrada (mas depois de um tempo fica enfadonho, portanto deduzi que não era o tipo de pauta que me animava). Fui ao Studio 5 com a repórter fotográfica Ana Cláudia Jatahy. Gente saindo pelo ladrão, principalmente crianças, o público que os cinco rapazes do Mamonas Assassinas mais atraia. Entrevistei algumas, vi uma parte do show, observei o comportamento do público, a organização, a produção e a interatividade de Dinho e seus amigos com a plateia.

O show fora numa sexta-feira ou sábado, não lembro bem. No dia seguinte, fui ao jornal escrever a matéria. Não pude deixar de usar sarcasmo (contido, claro) para contar como fora a apresentação. Letras sem pé nem cabeça, tolas até, mas que encantavam aquela garotada. Fazer o quê? Pensando bem, ainda eram melhores que essas porcarias que fazem sucesso agora. Os Mamonas Assassinas faziam música para divertir. Não existe mais isso hoje.

O tempo passou. Quase dois meses depois, chego em um domingo para o plantão no jornal e a editora Tania Celidonio me recebe com a bomba: na noite anterior, o avião com os cinco integrantes dos Mamonas Assassinas caira na serra da Cantareira, em São Paulo, quando voltavam de sua apresentação em Brasília. Curioso como eu fizera a matéria do show e agora fora escalado para fazer um retrospecto da carreira meteórica do grupo até o acidente. E lá fui eu, com o amigo Ricardo Nixon, ouvir algumas pessoas para aquele velho feijão-com-arroz que se segue à morte de alguma celebridade e pesquisar toda a sua história. A novidade é que nós regionalizamos o impacto do desaparecimento prematuro dos jovens artistas, em vez de somente reproduzir matérias de agências.

Foi uma comoção muito grande. Em tom de brincadeira, muitos colegas falaram que eu estava sendo castigado por ter detonado (exagero, claro, pois nunca tive intenção de bancar o crítico) a apresentação do grupo (pior ainda foi o show de Maurício Mattar no mesmo Studio 5, que reuniu pouco mais de 20 mulheres, em um dos maiores fiascos que já testemunhei. Mesmo assim, o cara foi uma simpatia com aquele minúsculo fã-clube). O que importava, entretanto, era o encanto que aqueles cinco rapazes bobos levaram àquela geração. Vendo tanta porcaria que faz sucesso hoje, devo confessar que éramos felizes, mas não sabíamos. Aí é para lamentar realmente a perda daqueles jovens talentos.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Minha vida de editor: pérolas infames

O meu verdadeiro terror como editor, além de pegar um texto sem pé nem cabeça ou repleto de erros para ser reescrito, eram as pérolas. São frases escritas pelo repórter que soam absurdas e engraçadas, seja pelo uso de uma palavra "deslocada" ou de expressões trocadas.

Durante meus anos de redação como editor, deparei-me com várias dessas verdadeiras infâmias, até que chegou um tempo em que resolvi colecioná-las. Criei um arquivo e para ali copiei as pérolas da minha equipe. Foi uma forma de chamar a atenção do repórter e lhe dar um puxão de orelha para ter mais cuidado com o que escrevia. Funcionou, na maioria das vezes. E acabou virando nossa própria diversão (claro que eu não identifiquei os autores nem o farei agora, mas cada um sabia do seu lapso).

Um primeiro exemplo de abismar: uma repórter usou a expressão "tráfego de drogas". Veio-me à mente uma autoestrada em que as trouxinhas de cocaína disputavam espaço com cigarros de maconha e seringas de heroína, como se fosse um quadro bem surreal que deixaria Salvador Dali com inveja. Em outra situação a jornalista usou a expressão "o buraco tinha quatro metros de altura". Certo? Errado? Depende do ponto de vista. Creio que ela entrou no buraco, olhou para cima e calculou a altura. Mas, obviamente, tal coisa não aconteceu e foi pura falta de atenção na hora de escrever, e em vez de "profundidade", o termo usado foi "altura". Mais uma clássica: "a escada era alta a ponto de causar vestígios". Foi o fim da picada. Outro escreveu "o cidadão foi atingido por um soco no lado esquerdo do olho". Tétrico!!!! Como essas, havia dezenas de outras, mas infelizmente perdi meu arquivo quando estava no jornal O Estado do Amazonas, porém é possível sentir o drama pelo qual passei. Sem falar nos erros de sempre: "elo de ligação", "erário público" e por aí vai.

Quando não eram expressões erradas ou absurdas, eram situações aparentemente dramatizadas de forma proposital, mas que soavam ridículas. Citarei duas que são o "must" da falta de bom senso. No primeiro caso, o repórter escreveu uma matéria sobre um acidente sofrido por um motoqueiro, o qual trabalhava como entregador de pizzas. Em certa hora da noite, o entregador passava por uma determinada rua em Manaus quando surgiu em sua frente um cachorro (bom, aparentemente o animal se materializou diante do motoqueiro). O coitado do rapaz foi desviar e acabou perdendo o equilíbrio e se estatelando no chão, e as pizzas se espalharam pelo asfalto. Populares da área correram para acudir o rapaz. A história terminaria aí, não fosse o gran finale: "o cão ainda voltou ao local e comeu várias pizzas". Até hoje meu amigo Marcelo Brasil se emociona com tamanha pérola! Eu ficava em dúvida entre rir ou chorar.

O segundo caso conseguiu ser mais surreal ainda. Segundo o repórter, houve um acidente envolvendo um ônibus do antigo sistema Expresso, daqueles articulados enormes (a maioria transformados em cacarecos assustadores que ainda circulam). Em sua história, ele afirmou que o coletivo partiu-se em dois. Várias pessoas que estavam justamente no ponto articulado do veículo caíram e se machucaram bastante. E o resto? O jornalista escreveu que "a outra metade foi embora levando os demais passageiros". Difícil mentalizar tal disparate. Creio que o repórter havia assistido o filme "As incríveis peripécias do ônibus atômico", onde isso realmente acontecia. Mas ficção é ficção.

Para encerrar, um caso incrível que eu nunca havia visto antes. O repórter conseguiu um "furo", uma entrevista com um traficante de drogas chamado Keka, detido pela polícia. Seguem os trechos finais do pingue-pongue, como foram escritos, e que me assombram até hoje:

"Repórter - Mas conte para nós, Keka: quem mais está envolvido no tráfico de drogas em Manaus?

Keka - Vai te fuder, meu irmão. Quer que eu me ferre? Quer me prejudicar? Podem me matar por isso. Vai pra puta que te pariu!

Repórter - Não é isso, Keka. É que queremos ajudar na luta contra o flagelo das drogas"

Tenho ou não razão em dizer que é o mais puro terror para um editor?

domingo, 26 de agosto de 2012

Minha vida de repórter: pautas furadas

Se algum repórter disser que nunca pegou uma pauta furada ou ridícula, daquelas capazes de colocá-lo em uma situação constrangedora até, está mentindo. Acontece, e como! Na minha época de repórter do jornal Amazonas em Tempo, foi o que mais me ocorreu. Íamos atrás do ouro e voltávamos com ouro de tolo. Foram muitas furadas, mas três são dignas de serem lembradas.

Invasões
De vez em quando pipocavam invasões em Manaus, e lá íamos cobrir. Algumas rendiam um ótimo material, quando a área invadida era de preservação e havia conflitos. Em 2000, recebi uma pauta sobre um terreno invadido na estrada da Ponta Negra, onde hoje existe um posto de gasolina, nas proximidades do hipermercado DB. Chegamos ao local, eu e Danilo Mello, e estranhamos a calmaria. O terreno era cercado por um muro de tijolos, mas, fora um segurança na entrada, estava vazio. Será que fomos ao local errado? Perguntei ao segurança e a resposta foi: algumas pessoas haviam tentado realmente invadir, mas foram logo impedidos e não houve maiores conflitos. Gasolina e tempo perdidos.

A febre dos patinetes
Essa pauta começou comigo, passou para a Márcia Daniella e depois para a Patrícia Almeida. Nunca foi feita. Nosso editor havia dito que Manaus passava por uma verdadeira febre de patinetes, e por todos os lugares viam-se crianças usando o brinquedo. Esse foi o problema. Onde fomos, nunca víamos as tais crianças e os tais patinetes. Procurei até nos mais distantes recantos de Manaus, inclusive no perigoso Bariri, uma região não muito digna de visitas até hoje. Tempos depois chegamos a uma conclusão: a febre dos patinetes acontecia somente no condomínio do editor. 

Dia de Finados
Em 2002, meu editor me passou uma pauta até interessante, inspirada em uma matéria retirada da Agência Estado, sobre histórias curiosas a respeito do Dia de Finados - rituais diferentes e casos insólitos. Gostei da ideia e sai em campo. Pior foi aguentar o olhar dos funcionários das funerárias quando eu me identificava e explicava qual era a matéria. Ou ninguém entendeu o espírito da coisa ou Manaus não tinha histórias para contar. Passei por umas cinco funerárias, e em somente uma consegui um "causo": segundo a gerente, dois funcionários foram buscar o cadáver de um idoso em um hospital. Na hora de erguer o morto pelos braços e pelos pés, o corpo soltou gases, o que fez com que um dos trabalhadores tomasse um tremendo susto, largasse as pernas do cadáver e saísse em disparada do local. Quase morri de rir da história. No entanto, por tão pouca quantidade de informação, a matéria não foi escrita. Mais uma pauta furada para minha coleção.

Trabalho de repórter é isso aí!!!!




Minha vida de foca: baixaria no Katikero

Era uma noite de domingo em 1996. Plantão no Jornal do Norte. Lembro que eram quase 21h e eu já estava de saída para casa quando o diretor de redação Hiel Levy me chamou. Confusão no bar Katikero, maior quebradeira, briga e blá-blá-blá. Fui à missão acompanhado do repórter fotográfico Alberto César Araújo.

O bar Katikero existe até hoje. Fica localizado na avenida Floriano Peixoto, Centro de Manaus, a poucos metros do cruzamento com a rua José Paranaguá, nas proximidades do antigo quartel da Polícia Militar. Não chega a ser um lugar mal frequentado: é um dos raros pontos de encontro ainda resistentes no Centro, reunindo trabalhadores daquela área para um happy hour, e até funciona como restaurante salvo engano.

Naquela noite em questão, ao nos aproximarmos, o cenário era bem diferente. Em vez de polícia, curiosos, mesas jogadas, garrafas quebradas e tudo o que possa lembrar um campo de batalha urbano, só havia um homem parado em frente ao bar. E este estava fechado. Não entendi mais nada, porém fomos até o cidadão e vimos que se tratava do Celso, na época editor executivo do Jornal do Norte.

Celso estava parado na calçada do Katikero, em pé. Aos seus pés, um pequeno maço de dinheiro - notas de R$ 10, R$ 5 e R$ 1, se bem me lembro. Ele havia ligado para a redação. O problema: depois de ter tomado uma ou duas cervejas, ele dera uma nota de R$ 50 para pagar. No entanto, o troco viera incompleto. Faltavam exatos 25 centavos!

Era isso. O circo estava armado por causa de 25 centavos que faltavam para completar o troco. Inacreditável que eu e Alberto estávamos ali por conta da birra do colega. Em vez de gente ferida, garrafas quebradas e todo tipo de dano que uma baderna em boteco pode gerar, estava o editor do jornal inconformado em não receber míseros 25 centavos de troco. Ainda fossem R$ 25, eu até entenderia. Mas vida de foca é uma desgraça: fosse hoje, eu daria ao chefe o tão choramingado dinheirinho para encerrar aquela papagaiada. O jeito era esperar para ver.

Mas a pauta idiota não foi nada. Pior foi a baixaria que se seguiu. O dono do bar morava no prédio onde funciona o Katikero (não sei se hoje ele ainda reside lá ou se permanece proprietário do boteco) e viu, lá de cima, a movimentação do cliente chato e da equipe de repórteres. Ele já desceu com 200 pedras na mão, esculhambando todo mundo. Eu fiquei de braços cruzados observando a cena. Sobrou para o Alberto, coitado. O cidadão, que tinha quase uns dois metros de altura, achou que o fotógrafo havia tirado fotos dele, agarrou-o pelos braços e o sacudiu, ameaçando-o caso fosse publicado algo, apesar de Alberto haver garantido não ter feito fotografia alguma. Foi um corre daqui e dali para acalmar o elemento, até a esposa dele se meteu para acalmar a besta fera. Enquanto isso, Celso somente dava um sorriso debochado. Satisfeito em ter irritado o cidadão, recolheu seu rico dinheirinho e foi embora. Voltamos para a redação, eu e o Alberto, fulos da vida, contamos o que havia acontecido e pronto. Muitas risadas, nada de matéria, nada de fotos, nada de nada. Plantão encerrado.

Nem preciso dizer que essa aventura frustrada foi a gozação da semana para mim e para o Alberto, que quase apanha por causa do falso alarme criado pelo nosso chefe maluco. Nunca havia sequer entrado no Katikero, mas depois daquela palhaçada toda nem fiz questão. Quanto ao Celso, algum tempo depois foi demitido ou pediu demissão do jornal, não lembro ao certo. Eu só pude dizer: "já vai tarde". E levou minha vontade de esganá-lo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Minha vida de editor: dois malucões no Estadão

De 2004 a 2006 fui editor do caderno Manaus, no jornal O Estado do Amazonas, e junto com o subeditor Ricardo Nixon (depois substituido pela Graciene Siqueira e posteriormente pelo Paulo Ricardo "Gavião", que segurou o pepino enquanto eu largava tudo e seguia para outros projetos como assessor de imprensa da Agência de Fomento do Estado do Amazonas), comandava um grupo inicial de 12 repórteres, número que, logo após a primeira avaliação inicial, ficou em torno de sete ou oito jornalistas na editoria de Cidades.

Foi uma experiência muito bacana, pois ali começaram vários bons repórteres que continuam na ativa nas redações, como Mário Adolfo Filho, Diogo Mouco (que não é surdo) e Fabíola Pascarelli. Também houve momentos, por assim dizer, marcantes. Em duas ocasiões, tive que encarar dois malucos, pessoas que foram supostamente fazer denúncias e que, no final das contas, tinham de um a cinco parafusos soltos.

O primeiro caso foi clássico, em certo dia de 2005. Um cidadão chegou à redação querendo fazer uma denúncia, pois segundo ele sua ex-mulher estaria impedindo que visse a filha. Era o tipo do drama humano que poderia dar em uma matéria no mínimo interessante. Encaminhei-o para a Rubia Balbi, que havia chegado de uma pauta e era a única disponível, enquanto eu editava o trabalho do pessoal da manhã.

Passaram-se menos de cinco minutos e lá vem a Rubinha, furiosa (e a Rúbia sempre foi um amor, então para tirá-la do sério a coisa era muito, muito feia).

- César, não dá para entrevistar esse cara! Ele não responde!

E o cidadão, logo atrás:

- Essa repórter não sabe ouvir as pessoas!

Para botar panos quentes no estresse, me encarreguei de entrevistá-lo. Rubinha voltou para escrever a sua matéria e pedi que o rapaz - inclusive de boa estampa e relativamente bem vestido - contasse sua história.

Logo nos primeiros cinco minutos de conversa percebi que o camarada era, no mínimo, esquizofrênico. Contou-me que havia se separado da mulher, a qual fugira com sua filha, depois que ele entrara para uma igreja (acho que era a Universal, até). Ele afirmava que tentara por várias vezes ver a menina, àquela altura morando em Parintins. Mas quando ele disse que no caminho de Manaus para Parintins desembarcara em Barcelos, senti que havia algo de errado: qualquer um sabe que Parintins e Barcelos ficam em regiões opostas e nossa capital fica no meio, então sair daqui para ir a Parintins passando por Barcelos, só sendo um bumerangue ou completamente sem noção de geografia. Nem mesmo rota de barco ou avião aqui na região seria tão desconexa.

Mas o pior estava por ir. Ouvi pacientemente toda a história, até que do nada o rapaz me saiu com essa:

- Sabia que já fui no programa do Faustão me apresentar porque me acharam parecido com o Raul Seixas?

Eu nem sabia o que dizer. Acabei me limitando à espontânea pergunta "É mesmo, é?".

- Isso! E canto igualzinho a ele!

Antes que eu dissesse qualquer coisa, o cidadão levantou da cadeira e começou a cantar bem alto:

- "Eu nasci / há dez mil anos atrás / e não tem nada neste mundo que eu não saiba demais!".

Detalhe: cantando e dançando em plena redação. Fiquei sem reação. Do jeito que eu estava, olhando para a tela do meu computador, eu permaneci, totalmente constrangido e incapaz até de piscar, enquanto o elemento continuava com o show. Mas, ao meu lado, os colegas Emanuela Lago e Paulo Ricardo "Gavião" explodiram em gargalhadas histéricas, daquelas típicas de quem controlou o riso por um tempo quase interminável.

Para acabar com a doidice ali, interrompi os devaneios do rapaz, pedindo-lhe que acompanhasse o fotógrafo Reinaldo Okita para que fosse uma foto na área externa do jornal. Assim eu me livrei do malucão, escrevi uma materinha meia boca de tanta raiva e ainda tive que aturar a gozação dos colegas. Ossos do ofício.

O segundo caso de doidice aconteceu naquele mesmo ano. O então editor executivo do Estadão, Sebastião Reis, recebera a visita de uma senhora, em torno dos 50 anos, em sua sala. Dali a pouco, ele me chama.

- César, tem algum repórter aí?

Não havia. E lá fui eu com bloco e caneta nas mãos.

A dita senhora, de atitudes bem distintas, queria fazer uma denúncia contra o governo federal. Até aí, tudo bem, mas dali a pouco ela começou a falar coisas absolutamente estranhas: que o Lula e sua esposa estavam vindo ao Amazonas para afrontá-la, que ele a perseguia, que não-sei-quem vinha atormentá-la subindo pelo seu fluxo menstrual. Eu havia anotado só o nome dela, mas depois de ouvir tantos absurdos, fiquei com a caneta parada sobre o papel.

Olhei discretamente para o Reis, que também me olhou. Nenhum dos dois conseguiu dizer mais nada, até a mulher continuar com seus devaneios até o fim. Depois, Reis a dispensou, prometendo que iria analisar as informações. Nem precisou me dizer mais nada. Apenas trocamos aquele olhar de "é isso aí. Fazer o quê? Doida de pedra". 

E assim uma segunda pessoa doida marcou minha passagem pelo jornal O Estado do Amazonas. Mas em breve, de volta ao Amazonas em Tempo, teríamos a Tábata. Essa, a Michele Gouvêa vai gostar de relembrar! Fica para outro dia!

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...