Mostrando postagens com marcador machismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador machismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 13 de setembro de 2022

LIVRO: "As possuídas", de Ira Levin (1972)


Metáfora sobre a "ameaça" do feminismo na década de 1970, "As possuídas" (The Stepford wives) permanece atualíssimo, já que o tema não se esgota e permanece em voga diante do machismo de uma sociedade ainda com raízes profundas no patriarcado. Estão aqui todos os elementos que configuram essa característica: a mulher altiva, independente, que quer se desfazer dos laços de servidão e submissão transformados em regra social e nunca ultrapassados, os homens que não se conformam com essa ascensão e as mulheres servis, robotizadas pelos seus companheiros para consolidação de um status quo conveniente.

Na trama de Ira Levin, a fotógrafa Joanna Eberhart muda-se de Nova York para a pequena e pacata Stepford com o marido Walter, um advogado, e os filhos Pete e Kim. Uma vez lá, ela estranha o comportamento submisso das mulheres, voltadas apenas para afazeres domésticos. Enfim, um lugar onde os ventos da emancipação total feminina parecem nunca terem chegado.

Certo dia, Joanna conhece a extrovertida Bobbie Markowe, que se mudara para Stepford com o marido Dave xe o filho poucos meses antes, e encontra ali uma amiga à altura, com pensamentos iguais, destoando da atmosfera medieval da pequena cidade. Charmaine Wimperis, novata no lugar antes de Bobbie, une-se à dupla em conversas animadas sobre homens e planos futuros. Enquanto isso, o marido de Joanna passa a fazer parte da Associação Masculina de Stepford.

Quando repentinamente Charmaine muda seu comportamento e passa a se tornar submissa ao marido, a ponto de permitir que ele destrua sua quadra de tênis para ser substituída por um campo de golfe, Joanna e Bobbie passam a desconfiar de algo errado está acontecendo na cidade, e vasculhando seu passado, passam a suspeitar de uma conspiração em andamento articulada pelos maridos de Stepford, como um processo de lavagem cerebral. Mas a realidade é bem mais incrível e assustadora.

Levin adotou um estilo cativante para a narrativa. Começa com o cotidiano dos personagens, suas rotinas, suas amizades, conversas informais e divertidas. Aos poucos, os pequenos detalhes sugerem algo mais obscuro por trás de tudo, dando à história um ritmo gradualmente alucinante e angustiante até o final que nos deixa com a respiração suspensa.

"As possuídas" foi adaptado duas vezes para o cinema. A primeira (sobre a a qual escrevi aqui) foi em 1975, dirigida por Brian Forbes, com Katharine Ross como Joanna e Paula Prentiss como Bobbie. Essa primeira versão, batizada como "Esposas em conflito" no Brasil, guardou a atmosfera de paranóia e insegurança do livro. A segunda foi dirigida por Frank Oz em 2004 ("Mulheres perfeitas" no Brasil) e teve no elenco Nicole Kidman no papel de Joanna e Bete Midler como Bobbie, mas apelou para a comédia rasgada repleta de absurdos e caracterizações grotescas, dando um tom satírico ao tema da obra, até mesmo impondo um "final feliz" como uma revanche, mas ainda assim patético. Talvez por isso eu tenha detestado (ver Glenn Close em um personagem tosco foi bem constrangedor), apesar de uma abordagem interessante sobre o medo masculino das conquistas femininas. Prefiro a seriedade e a reflexão da obra escrita e sua primeira versão cinematográfica.

Curiosamente, depois do filme de 2004 o livro foi relançado no Brasil aproveitando o título da segunda versão. A primeira permanece como um filme cultuado. Eu já o assisti mais de 10 vezes e continuo amando. 

Fica a dica.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Comentário: "Esposas em Conflito" (The Stepford Wives, 1975)


Em Stepford, Connecticut, a vida é tranquila. A cidade é pequena, limpa, as pessoas são amistosas. As esposas dos homens mais ricos do local são dedicadas donas de casa, voltadas para serviços domésticos e empenhadas em cuidar dos maridos e filhos. Para a fotógrafa amadora Joanna Eberhart (Katharine Ross), no entanto, tanta tranquilidade e passividade feminina são motivos de espanto e horror, típicos de quem está acostumada com a loucura urbana. Ela acaba de mudar-se da vida agitada de Nova York com o marido advogado, Walter (Peter Masterson), e as duas filhas pequenas, Kim (Mary Stuart Masterson, que depois de adulta ganharia destaque em "Tomates verdes fritos") e Amy (Ronny Sullivan).
 
Logo os Eberhart farão contato com seus vizinhos "domesticamente" corretos, os Van Sant, e Walter será introduzido à Associação Masculina, uma espécie de Clube do Bolinha onde, supostamente, os poderosos de Stepford discutem questões sociais da cidade, como eventos para arrecadação de fundos. Joanna, por outro lado, conhece Bobbie Markowe (Paula Prentiss), outra novata em Stepford que, como a fotógrafa, está a ponto de enlouquecer com a vida extremamente pacata da cidade.

Joanna e Bobbie tornam-se grandes amigas e decidem formar um grupo de discussão reunindo as demais esposas de Stepford. Conhecem Charmaine (Tina Louise), que compartilha das mesmas opiniões que ambas. O encontro do grupo, no entanto, é um desastre total, já que as demais mulheres preferem falar sobre tarefas domésticas. Ao descobrirem por meio de uma antiga moradora (e criadora de um pasquim de fofocas e fatos corriqueiros de Stepford) que no local existiu um dia uma associação feminina atuante, Joana e Bobbie começam a questionar o comportamento passivo das mulheres do lugar, e após uma estranha transformação nas atitudes de Charmaine, que de mulher ativa passa a ser uma dona de casa exemplar a ponto de permitir que o marido destrua sua quadra de tênis, elas começam a desconfiar de que algo muito errado está acontecendo sob a aparente tranquilidade de Stepford. E a descoberta é macabra.

O filme, dirigido por Bryan Forbes, é baseado no livro de Ira Levin (publicado na década de 1970 no Brasil pela editora Record com o título "As possuídas"), escritor de "O bebê de Rosemary" e "Os meninos do Brasil", também adaptados para o cinema. Recentemente, foi feita uma refilmagem, "Mulheres perfeitas", onde o clima sombrio e a metáfora cruel do pavor masculino diante da ascensão das mulheres deu lugar à comédia escrachada e crítica à mídia. Gosto muito do original, por ser um ponto de vista interessante do machismo em franca ameaça com os movimentos feministas. 

Considerado como cult, o filme também é um exemplo do impacto sobre a cultura popular. Até hoje, o termo "Stepford wife" é utilizado para definir mulheres dominadas ou extremamente subservientes ("robotizadas"). Mesmo 35 anos depois, "Esposas em conflito" ainda guarda um certo charme e vale a pena ser revisto.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...