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sábado, 3 de novembro de 2012

Comentário: "Os pássaros" (The birds, 1963)


Ainda me lembro de quando assisti "Os pássaros", de Alfred Hitchcock, pela primeira vez. Foi na década de 1980, quando a Rede Globo exibia o Festival Hitchcock, que entre outros incluiu "Psicose", "Frenesi" e "´Topázio". Como eu era um moleque ainda, não conseguia ficar acordado até a hora do filme, mas descobri que meu irmão mais velho o havia gravado em VHS. Não contei conversa. Na primeira oportunidade, lá estava eu assistindo o drama de Melanie Daniels (Tipi Hedren), filha do dono de um grande jornal californiano, aprisionada na pequena cidade de Bodega Bay, na Califórnia, por uma série de repentinos e inexplicáveis ataques de todas as espécies de pássaros.

Ao final do filme, fiquei totalmente mudo e assustado, reação que tenho até hoje. Muitos não gostam do filme principalmente por dois motivos: efeitos especiais ultrapassados e um final sem explicação nenhuma. Digo que para assistir "Os pássaros" é preciso se transportar para a época em que o filme foi produzido. Na década de 1960, não havia efeitos espetaculares, mas o que vemos em "Os pássaros" foi um avanço para aqueles anos: cenários pintados incríveis, pássaros empalhados em meio a pássaros reais e montagens hoje muito óbvias. Mas para o público de 1963, era assustador. Hoje, é fichinha, mas Hitchcock estava à frente de seu tempo, e é algo a ser levado em consideração. Quanto ao final, a questão é: existe algo mais apavorante que testemunhar ataques de aves até então inofensivas e não conseguir encontrar a razão para isso? Essa foi a finalidade do diretor. Não é preciso ter uma explicação. Cada um que se apavore com suas teorias. O mundo estava um caos e nada mais tinha a aparência de inofensivo.

O bom humor de Hitchcock ficou evidente desde o início, no encontro casual entre Melanie e o advogado Mitch Brenner (Rod Taylor) em uma loja de pássaros em São Francisco. Ele a reconhece como a socialite que sempre saia em colunas de fofocas por seu comportamento, digamos, incomum e escandaloso, e resolve lhe pregar uma peça fazendo-a passar por uma verdadeira "saia justa" na lojinha. Em meio a discussões ferinas e encanto mútuo, Melanie vai à procura do advogado em seu refúgio dos finais de semana: a pequena Bodega Bay, onde Mitch tem uma fazenda na qual moram sua mãe viúva Lydia (a saudosa Jessica Tandy) e a irmã menor, Cathy (Veronica Cartwright, a Lambert de "Alien - o oitavo passageiro"). Na cidadezinha também mora a professora Annie Hayworth (Suzanne Pleshette), ex-namorada de Mitch, que se mudara para o lugar somente para ficar perto do advogado. Começa uma série de sutis conflitos entre Melanie e Lydia, uma mãe protetora e desconfiada. É quando iniciam gradualmente os ataques dos pássaros: primeiro contra Melanie em um barco, depois na festa de aniversário de Cathy, posteriormente na escola (uma das sequências mais tensas que já vi) até, finalmente, a família Brenner e Melanie ficarem encurralados na fazenda do advogado por milhares de pássaros. Cada um que explique suas metáforas.

Uma das melhores sequências é a do ataque a Bodega Bay. Ficou clássica entre os cinéfilos e admiradores de Hitchcock a cena em que a explosão de uma bomba de gasolina é vista de cima, do ponto de vista dos pássaros, que aos poucos começam a encher a tela, unindo-se para arremeterem contra os moradores da cidade. Uma pena que haja quem, hoje em dia, repudie essa obra-prima do cinema por motivos superficiais - para não usar um termo mais agressivo.

Houve uma sequência do filme, um pecado terrível que não deu certo, trazendo novamente Tipi Hedren no elenco, como uma dona de pousada. Essa pseudocontinuação era tão ruim que nem me lembro de nada do enredo, fora a presença da atriz (aliás, mãe de Mellanie Grifith). O original, primeiro e único para mim, tem lugar eternamente reservado na minha coleção.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Comentário: "Esposas em Conflito" (The Stepford Wives, 1975)


Em Stepford, Connecticut, a vida é tranquila. A cidade é pequena, limpa, as pessoas são amistosas. As esposas dos homens mais ricos do local são dedicadas donas de casa, voltadas para serviços domésticos e empenhadas em cuidar dos maridos e filhos. Para a fotógrafa amadora Joanna Eberhart (Katharine Ross), no entanto, tanta tranquilidade e passividade feminina são motivos de espanto e horror, típicos de quem está acostumada com a loucura urbana. Ela acaba de mudar-se da vida agitada de Nova York com o marido advogado, Walter (Peter Masterson), e as duas filhas pequenas, Kim (Mary Stuart Masterson, que depois de adulta ganharia destaque em "Tomates verdes fritos") e Amy (Ronny Sullivan).
 
Logo os Eberhart farão contato com seus vizinhos "domesticamente" corretos, os Van Sant, e Walter será introduzido à Associação Masculina, uma espécie de Clube do Bolinha onde, supostamente, os poderosos de Stepford discutem questões sociais da cidade, como eventos para arrecadação de fundos. Joanna, por outro lado, conhece Bobbie Markowe (Paula Prentiss), outra novata em Stepford que, como a fotógrafa, está a ponto de enlouquecer com a vida extremamente pacata da cidade.

Joanna e Bobbie tornam-se grandes amigas e decidem formar um grupo de discussão reunindo as demais esposas de Stepford. Conhecem Charmaine (Tina Louise), que compartilha das mesmas opiniões que ambas. O encontro do grupo, no entanto, é um desastre total, já que as demais mulheres preferem falar sobre tarefas domésticas. Ao descobrirem por meio de uma antiga moradora (e criadora de um pasquim de fofocas e fatos corriqueiros de Stepford) que no local existiu um dia uma associação feminina atuante, Joana e Bobbie começam a questionar o comportamento passivo das mulheres do lugar, e após uma estranha transformação nas atitudes de Charmaine, que de mulher ativa passa a ser uma dona de casa exemplar a ponto de permitir que o marido destrua sua quadra de tênis, elas começam a desconfiar de que algo muito errado está acontecendo sob a aparente tranquilidade de Stepford. E a descoberta é macabra.

O filme, dirigido por Bryan Forbes, é baseado no livro de Ira Levin (publicado na década de 1970 no Brasil pela editora Record com o título "As possuídas"), escritor de "O bebê de Rosemary" e "Os meninos do Brasil", também adaptados para o cinema. Recentemente, foi feita uma refilmagem, "Mulheres perfeitas", onde o clima sombrio e a metáfora cruel do pavor masculino diante da ascensão das mulheres deu lugar à comédia escrachada e crítica à mídia. Gosto muito do original, por ser um ponto de vista interessante do machismo em franca ameaça com os movimentos feministas. 

Considerado como cult, o filme também é um exemplo do impacto sobre a cultura popular. Até hoje, o termo "Stepford wife" é utilizado para definir mulheres dominadas ou extremamente subservientes ("robotizadas"). Mesmo 35 anos depois, "Esposas em conflito" ainda guarda um certo charme e vale a pena ser revisto.

sábado, 31 de março de 2012

Comentário: "Fatalidade" (A double life, 1947)


O veterano ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) está obcecado por interpretar o personagem Othelo com uma mudança em uma das cenas clássicas da peça de Shakespeare, em que o rei mouro mata por ciúmes sua amada Desdêmona: na visão de Anthony, o estrangulamento da suposta adúltera seria por um beijo. A ideia é bem aceita pelos seus produtores, no entanto o aprofundamento do artista no personagem shakesperiano o atinge de tal maneira que não consegue mais distinguir realidade e ficção.

Esse é o argumento de "Fatalidade", filme dirigido por George Cuckor em 1947, rendendo a Ronald Colman o Oscar daquele ano. É uma história sombria na qual o ator mergulha tanto em seu personagem que perde o equilíbrio entre a arte e a realidade, fundindo a história de Othelo, que cometeu um crime levado por ciúmes, com a do próprio Anthony John - divorciado há dois anos de sua colega de profissão Brita (Signa Hasso), mantém com ela uma bela amizade, abalada eventualmente por sua crise de ciúmes da atriz com o assessor de imprensa Bill (Edmond O´Brien). Tomado por alucinações, a ponto de não conseguir manter-se em eventos da classe sem beirar o histerismo, Anthony encontra em seu caminho a garçonete Pat Kroll (Shelley Winters), com quem inicia um relacionamento e que acaba servindo de válvula de escape do ator para seus delírios cada vez crescentes e violentos.

Todo em preto e branco, "Fatalidade" tem o charme dos film noirs daquela década, sem trazer seus elementos tradicionais, emprestando-lhe somente o espírito sombrio que casa bem com a loucura crescente de Anthony John, um ator que ultrapassa os limites da sanidade ao buscar a perfeição. Lembra um pouco a loucura de Norma Desmond ("Crepúsculo dos Deuses"), embora por razões diferentes: enquanto Norma não seguiu os rumos do novo cinema que sepultou de vez a era muda da sétima arte, entrando em declínio psicológico ao acreditar que o mundo do espetáculo ainda a idolatrava, Anthony se deixou levar pelo sucesso na carreira e busca na perfeição, misturando a ficção de Othelo com sua própria vida de amor platônico pela ex-esposa e quebrando o seu próprio equilíbrio. É no crime cometido e descoberto, no entanto, que Anthony John, definitivamente encarnando Othelo, chega ao ponto alto de sua intepretação. Em sua visão deturpada, incapaz de distinguir realidade e ficção, lhe resta somente esperar a punição autoinfligida.

SÉRIES: "The boys" (2019-2026)

 Imagine uma versão do Super Homem ou da Mulher Maravilha que fogem totalmente ao modelo já criado nos quadrinhos e nos desenhos, filmes e s...